Paquistão declara “guerra aberta” aos talibãs do Afeganistão: o que explica a nova escalada

A tensão já vinha a crescer há vários meses, mas os acontecimentos das últimas horas marcaram uma rutura clara

Francisco Laranjeira
Fevereiro 27, 2026
11:49

O Paquistão declarou estar em “guerra aberta” com o Afeganistão após meses de confrontos fronteiriços, acusações de apoio a grupos militantes e um cessar-fogo falhado. A escalada atingiu um novo patamar na madrugada desta sexta-feira, quando forças paquistanesas bombardearam Cabul, Kandahar e Paktia, numa operação que Islamabad classificou como resposta a ataques lançados a partir de território afegão.

A tensão já vinha a crescer há vários meses, mas os acontecimentos das últimas horas marcaram uma rutura clara, lembrou a revista ‘Newsweek’. O ministro da Defesa paquistanês, Khawaja Muhammad Asif, escreveu na rede social ‘X’ que a “paciência se esgotou” e que, a partir de agora, o confronto seria total. Do lado afegão, o porta-voz talibã Zabihullah Mujahid tinha anunciado pouco antes “operações ofensivas em grande escala” contra posições paquistanesas ao longo da Linha Durand.

O que desencadeou esta escalada?

Os confrontos mais recentes começaram com trocas de fogo ao longo da fronteira, envolvendo armas ligeiras e médias, e prolongaram-se durante várias horas. Cada parte apresentou números muito diferentes de mortos e feridos. Cabul afirma ter infligido pesadas baixas às forças paquistanesas e destruído vários postos militares. Islamabad sustenta que matou mais de uma centena de combatentes afegãos. Nenhum destes dados foi confirmado por fontes independentes.

O pano de fundo é mais profundo e remonta à relação entre o Governo talibã afegão e o Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP), também conhecido como Movimento Talibã do Paquistão.

Quem é o TTP e porque é central no conflito?

O TTP foi fundado em 2007 e tem sido responsável por atentados contra civis, forças de segurança e infraestruturas no Paquistão. Atua sobretudo nas regiões fronteiriças e partilha afinidades ideológicas com os talibãs afegãos.

Islamabad acusa Cabul de permitir que o TTP utilize território afegão como santuário para planear e lançar ataques. O Governo talibã nega repetidamente qualquer apoio ou conivência. Desde o regresso dos talibãs ao poder, em 2021, os ataques reivindicados pelo TTP aumentaram, alimentando a perceção paquistanesa de que a ameaça se agravou.

Porque é que a Linha Durand é tão sensível?

A fronteira entre os dois países, conhecida como Linha Durand, foi traçada em 1893 pelo Império Britânico e dividiu comunidades pashtuns entre os dois lados. O Afeganistão nunca reconheceu formalmente esta linha como fronteira internacional definitiva, enquanto o Paquistão a considera legítima e tem reforçado vedações e postos de controlo.

Ao longo de décadas, esta fronteira porosa tornou-se palco de insurgências, tráfico de armas e circulação de combatentes. A ausência de controlo efetivo em várias zonas montanhosas facilitou a presença de grupos armados e agravou a desconfiança mútua.

Qual é o equilíbrio militar?

A diferença de capacidades é significativa. O Paquistão dispõe de mais de 600 mil militares, milhares de veículos blindados e centenas de aeronaves de combate. É também uma potência nuclear, com um arsenal estimado em cerca de 170 ogivas.

O regime talibã, por sua vez, possui forças muito mais reduzidas, com um número limitado de aviões e helicópteros. Analistas admitem, contudo, que Cabul pode recorrer a táticas de guerra assimétrica, incluindo ataques transfronteiriços, ações de guerrilha e utilização de drones.

O que pode acontecer a seguir?

Um cessar-fogo mediado anteriormente por atores regionais revelou-se frágil e incapaz de resolver as causas estruturais do conflito. Agora, com bombardeamentos diretos sobre cidades afegãs e retórica de “guerra aberta”, o risco de escalada aumentou.

As Nações Unidas apelaram à desescalada imediata e vários países da região manifestaram preocupação. Apesar da linguagem utilizada por Islamabad, vários analistas consideram provável que o conflito permaneça circunscrito a confrontos fronteiriços e operações militares limitadas, embora com elevado risco de erro de cálculo.

Em síntese, o que está em causa não é apenas um episódio isolado, mas uma combinação de rivalidade histórica, disputa fronteiriça não resolvida e divergências profundas sobre o papel do TTP. A atual escalada é o resultado de tensões acumuladas desde 2021 — e pode ter implicações sérias para a estabilidade do Sul da Ásia.

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