Os desafios dos Executivos de Alta Competição

Opinião de Eduardo Saldanha, Professor e Diretor do DeRose Method em Lisboa

Executive Digest

Por Eduardo Saldanha, Professor e Diretor do DeRose Method em Lisboa

A expressão Executivos de Alta Competição ocorreu-me há 10 anos, enquanto percebia os desafios de alguns alunos que se debatiam por uma qualidade de vida boa. A única coisa que os diferenciava dos Atletas de Alta Competição era a atividade, que em vez de ser desportiva, era em advocacia, gestão, engenharia, entre outras. No entanto, o nível de exigência em nada ficava a perder para estes.



Quando observamos um executivo que tenha brio e seja perfeccionista, a quantidade de esforço a que ele está sujeito é em muitos casos extrema, pela quantidade de informação que tem de processar gerada pelos imensos estímulos a que está sujeito. O mundo V.U.C.A. (volátil, incerto, caótico e ambíguo) como foi apelidado no Fórum Económico Mundial é hoje, mais do que nunca, a realidade em que vivemos.

Por isso, tem de ter uma boa capacidade de concentração, indispensável para realizar as várias tarefas com qualidade e genialidade, e também para conseguir fazer uma gestão da dispersão gerada pelos múltiplos papéis que desempenha na sociedade, sem perder o foco nos seus próprios objetivos.

Os Atletas têm planos de treino muito específicos e estratégicos, ao passo que muitas vezes os executivos vão, aos trancos e barrancos, tentando sozinhos encontrar uma forma de manter a qualidade de vida e um sentido para ela.

Num plano de alta competição para um executivo, considero fundamental o desenvolvimento de três estratégias para que tenha sucesso consistente a longo prazo (e não apenas temporariamente):

 

  1. Uma estratégia eficiente de gestão de stress. Sem ela a saúde ficará debilitada e isso hipoteca o futuro da pessoa;
  2. Uma estratégia de gestão de tempo adequada ao seu perfil. Sem ela a produtividade e a capacidade de realização ficam comprometidas. O tempo é a principal variável da vida;
  3. Uma estratégia de desenvolvimento de soft e power-skills. São o grande diferencial para o mundo incerto em que vivemos. Para uma grande maioria de casos, as qualidades socioemocionais são o principal fator crítico de sucesso.

 

Aprofundando a primeira, uma gestão otimizada do stress.

A gestão do stress mais eficiente é focada no aumento de recursos do indivíduo e não na redução dos desafios. Isto significa que descansar no fim–de-semana, massagens ou abrandar no trabalho. Ferramentas que podem servir de alívio para quem exagerou e está a clamar por uma desconexão que renove o seu corpo e psiquismo.

Porém, estas soluções não resolvem eficientemente a equação biológica do stress. Esta define-se como a confrontação entre os nossos recursos (físicos, emocionais, mentais) e os desafios que a vida apresenta. Então, urge desenvolver um plano de aumento desses recursos, tal como o atleta faz com o seu treino.

No plano de treino de um atleta há três componentes principais: o estímulo (treino propriamente dito), a assimilação (renovação) e a alimentação. Não é novidade que a qualidade do descanso chega a ser tão importante quanto a qualidade do treino. Só que, num atleta, o maior estímulo e a finalidade do seu trabalho é manifestado principalmente na componente corporal, física. Para um executivo, o fruto do seu trabalho é manifestado principalmente através do seu mecanismo emocional e mental. Esta diferença é muito relevante, ainda que todas importem em certa medida, quer para o atleta quer para o executivo.

Um plano inteligente para um executivo deve necessariamente desenvolver as mesmas componentes (estímulo, assimilação e alimentação) para as emoções e para os pensamentos.

Como disse o neurocientista António Damásio à revista Veja:  “o Homem está a evoluir para conciliar a emoção e a razão”.

Um executivo deve cuidar da assimilação das suas emoções (geradas no dia-a-dia) e de nutrir-se emocionalmente (alimentação).

E no plano intelectual, da mesma forma, trabalhar na assimilação dos processos mentais e a nutrição desse intelecto.

De forma sucinta, a assimilação emocional pode ser feita com atividades que nos transmitem muito prazer, não competitivas e que gerem descontração. E, de forma muito eficiente, podemos utilizar técnicas de descontração emocional e nervosa que levem as emoções a estabilizarem-se totalmente. É o silêncio interior necessário ao restabelecimento das emoções. Por outro lado, o sono é importantíssimo, mas é insuficiente para o nível de exigência a que nos referimos. Já a assimilação do processo intelectual é feita através de técnicas de mindfulness e meditação, ao parar gradualmente as ondas mentais. Este processo, bem feito, deve ser prazeroso e gradual.

Paralelamente, o alimento emocional advém da escolha consciente dos grupos onde a pessoa circula. Da mesma forma que se alguém quiser ser milionário a melhor recomendação é ter amigos milionários; para estarmos muito saudáveis emocionalmente, devemos envolver-nos com grupos e pessoas cujo ambiente emocional seja leve e construtivo. Somos fruto da cultura em que estamos inseridos. A escolha destes grupos não deve ser aleatória mas consciente. E dentro dos grupos já constituídos, moldar a nossa atitude e comunicação para inverter qualquer toxicidade emocional. Este ponto deve ser muito ponderado pelos líderes ao construir a cultura das empresas e organizações.

A nutrição do intelecto também corresponde à partilha de ideias, à qualidade dos livros e viagens que consumimos, às reflexões que estabelecemos e partilhamos. Em suma, ao alimento que damos ao intelecto.

Para os desafios do séc. XXI, desde a ascensão da inteligência artificial, às guerras e pandemias, até à competição globalizada do comércio e serviços, é importante mudarmos a forma de trabalhar e o plano de desenvolvimento dos Executivos de Alta Competição, para que estes tenham um excelente desempenho e qualidade de vida.

Quanto maior for o estímulo do seu trabalho maior deverá ser a quantidade de momentos de descontração profunda e desconexão. Parar para ir beber café normalmente não funciona, a menos que fique a desfrutar dele com um ar de prazer no rosto. O truque são momentos curtos e regulares.

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