O risco político já não vem de longe: chegou a casa

Opinião de Acácio Ferreira, Diretor de Credit and Surety, da Willis Towers Watson

Executive Digest

Por Acácio Ferreira, Diretor de Credit and Surety, da Willis Towers Watson

Durante décadas, gerir risco político significava sobretudo vigiar o que se passava longe: golpes de estado em economias emergentes, expropriações em ditaduras instáveis, guerras civis em regiões periféricas. Hoje, essa visão já não chega. Para qualquer empresa com operações internacionais, o risco mais difícil de gerir pode estar, precisamente, dentro de portas.

A tentação de olhar para o risco político como algo exterior, associado a paisagens distantes e claramente instáveis, sempre foi confortável. Permitia às multinacionais pensar-se como entidades neutras, “cidadãs do mundo”, que navegam entre jurisdições sem nunca se confundirem com nenhuma delas. Essa narrativa está cada vez mais insustentável. A polarização política dentro dos próprios países de origem, as tensões comerciais entre grandes blocos económicos e a multiplicação de ataques a infraestruturas críticas tornaram o risco político um fenómeno tão doméstico quanto internacional.

Basta olhar para o que aconteceu com as tarifas comerciais nos últimos anos. Não foi uma guerra distante que mais perturbou as cadeias de abastecimento globais, foi a imprevisibilidade de decisões tomadas em capitais aparentemente estáveis, com efeitos imediatos sobre custos, margens e decisões de investimento em setores que nada tinham a ver com a disputa original. Produtores que perdem acesso a um mercado procuram outro; esse reencaminhamento de fluxos comerciais cria, por sua vez, novas pressões competitivas em geografias que se julgavam protegidas. O risco político deixou de ser um evento isolado para se tornar uma condição estrutural da economia global.

Quando a fronteira entre segurança nacional e negócio desaparece

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Há ainda um segundo fenómeno que merece atenção: a chamada “zona cinzenta”, esse espaço ambíguo entre a paz e o conflito declarado, onde ataques a cabos submarinos, redes elétricas ou sistemas informáticos ocorrem sem reivindicação clara de autoria. Estas ações já não visam apenas Estados; visam, cada vez mais, empresas privadas, que se tornam alvos colaterais, ou mesmo diretos, de disputas geopolíticas que não escolheram travar.

Esta realidade obriga a repensar a própria fronteira entre risco de segurança nacional e risco comercial. Quando uma empresa de logística vê os seus sistemas atacados por suspeita de retaliação política contra o seu país de origem, deixa de fazer sentido tratar esse incidente como um problema puramente técnico ou operacional. É, também, um problema geopolítico, e deve ser gerido como tal, com a mesma atenção dedicada tradicionalmente a riscos de mercado ou de crédito.

Esta mudança coloca as multinacionais perante um dilema incómodo: até que ponto devem alinhar-se com os interesses de segurança nacional dos países onde estão sediadas, mesmo quando isso implica custos acrescidos ou perda de competitividade noutros mercados? Não há resposta fácil. Mas a ideia de uma empresa completamente neutra, equidistante de qualquer lealdade nacional, parece cada vez mais uma ficção confortável, difícil de sustentar num mundo de boicotes, controlos à exportação e políticas industriais estratégicas.

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Repensar a estrutura, não apenas a cobertura do risco

A resposta tradicional ao risco político sempre passou por instrumentos de mitigação: seguros, diversificação geográfica, relações diplomáticas, mecanismos legais internacionais. Existem soluções de cobertura de risco político especialmente concebidas para proteger investimentos, ativos e transações internacionais contra expropriações, restrições cambiais, violência política ou incumprimentos. Esses instrumentos continuam a ser indispensáveis, mas começam a revelar-se insuficientes para um cenário em que o próprio modelo de negócio pode ter de ser redesenhado.

Não é por acaso que cada vez mais organizações ponderam seriamente separar operações entre diferentes blocos geopolíticos, criando estruturas independentes para mercados que, no passado, funcionavam de forma integrada. Esta não é uma decisão tomada com leveza; implica custos elevados, perda de sinergias e complexidade acrescida. Mas é, também, um sinal claro de que a globalização sem fronteiras políticas, tal como a conhecemos nas últimas três décadas, está a dar lugar a um modelo mais fragmentado, onde a geografia volta a importar.

Para as empresas portuguesas com ambições internacionais, e mesmo para as que já operam em mercados externos há anos, a lição é clara: gerir risco político deixou de ser uma função de retaguarda, confinada a relatórios anuais de compliance. Tornou-se uma questão estratégica de primeira linha, que exige presença ao mais alto nível de decisão e uma capacidade de antecipação que, até há pouco tempo, poucas organizações julgavam necessária.

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