O poder também se aprende a ocupar

Dar às mulheres acesso a capital é apenas metade do caminho. A outra metade é ajudá-las a sentirem-se legitimadas para o deter, negociar e ocupar — sem culpa e sem pedir desculpa.

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Sílvia Mota
Sílvia Motafundadora do Moon CapitalAgosto 25, 2026 9:19

A MOON surge porque acreditamos que uma das formas mais eficazes de acelerar a igualdade entre homens e mulheres passa por algo relativamente simples de explicar: dar às mulheres maior acesso ao capital e criar estruturas de apoio que lhes permitam transformar esse acesso em crescimento, liderança e criação de valor.

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Porque capital é poder. É capacidade de decidir, de investir, de construir, de contratar, de escolher parceiros, de assumir risco, de fazer crescer empresas e de determinar, em parte, aquilo que será criado no futuro.

Se mais mulheres estiverem do lado de quem detém, gere e distribui capital, inevitavelmente alguma coisa muda. Continuamos profundamente convencidas disso. Mas começamos também a perceber que existe uma dimensão anterior, talvez mais complexa, sobre a qual precisamos de falar. Não basta criar acesso ao poder. É preciso sentirmo-nos legitimadas para o ocupar.

Imagine-se uma mulher que faz parte de um projeto empresarial. É competente, conhece o negócio, contribuiu para a sua construção e tem condições para o representar. Surge uma oportunidade de financiamento junto de um investidor que procura deliberadamente empresas com liderança feminina. De repente, os restantes fundadores percebem que a presença daquela mulher pode ser particularmente relevante para aceder a esse capital. Há pelo menos duas formas de interpretar esta situação. Uma é pensar: estão a usar-me por ser mulher. Outra é perceber: neste momento, aquilo que sou e aquilo que represento aumentou o meu poder negocial dentro deste projeto. As duas podem ser verdadeiras. E é precisamente aí que a questão se torna interessante.

Naturalmente, colocar artificialmente uma mulher numa posição de liderança apenas para cumprir um critério ou facilitar o acesso a determinado capital não é dar poder às mulheres. É apenas criar a aparência de que ele existe. Não cria igualdade e não deve ser confundido com liderança feminina.

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Mas quando essa mulher já faz parte do projeto, tem competência, criou valor e tem legitimidade para liderar, talvez exista outra pergunta que valha a pena fazer. Porque haveria ela de sentir que aproveitar aquela circunstância diminui o seu mérito? Talvez pudesse fazer exatamente o contrário. Se precisam de mim, então reconheçam o meu papel. Se a minha liderança é importante para chegar ao capital, então deve ser igualmente importante quando se distribuem participação, responsabilidade, reconhecimento e poder de decisão.

Isto parece evidente quando o escrevemos. Mas talvez não seja assim tão evidente quando somos nós a viver a situação. Durante gerações ensinámos as mulheres a estudar, a trabalhar, a serem competentes, responsáveis e independentes. Ensinámo-las a provar que mereciam estar na sala. Talvez não as tenhamos ensinado, com a mesma intensidade, a perceber o poder que têm quando finalmente estão dentro dela. A negociar. A reclamar espaço. A utilizar a sua posição negocial. A dizer: “precisam de mim, então vamos falar sobre as condições”.

E talvez exista ainda uma espécie de exigência moral particularmente pesada sobre as mulheres: a necessidade de sentirem que cada centímetro conquistado resulta exclusivamente do mérito, sem qualquer vantagem, circunstância, relação ou oportunidade que possa colocar esse mérito em causa. Mas será assim que o poder alguma vez funcionou? Durante décadas, os homens beneficiaram de redes, relações, afinidades, referências, círculos sociais e padrões de reconhecimento que facilitaram o acesso a oportunidades e capital. Isso não significa que não tivessem mérito. Significa simplesmente que mérito e oportunidade nunca existiram em universos separados.

Todos chegamos mais longe quando, além da nossa capacidade, encontramos contextos que nos reconhecem, pessoas que acreditam em nós, redes que nos aproximam de oportunidades e circunstâncias que nos permitem avançar. A diferença é que nem todos tivemos, historicamente, o mesmo acesso a esses contextos.

Por isso, quando começamos deliberadamente a criar mecanismos que procuram corrigir uma desigualdade histórica, seria profundamente paradoxal que fossem precisamente as mulheres a recusar essas oportunidades por receio de que aceitá-las diminuísse o seu mérito. Não diminui. Uma oportunidade pode abrir uma porta. O que fazemos depois de entrar continua a depender de nós. E talvez aqui esteja uma parte da discussão sobre igualdade que ainda fazemos pouco.

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Falamos muito sobre abrir portas às mulheres. Talvez precisemos também de falar sobre aquilo que acontece quando a porta finalmente abre. Entramos? Ocupamos o espaço? Negociamos? Transformamos a oportunidade em influência, participação, capital e capacidade de decisão? Ou sentimos que, se aquela porta foi deliberadamente aberta para nós, entrar por ela significa admitir que não conseguiríamos entrar por outra? É uma pergunta desconfortável. Mas talvez seja uma pergunta necessária. Porque existe uma diferença importante entre igualdade de oportunidades e a ideia de que todas as oportunidades têm de surgir espontaneamente num sistema que nunca foi inteiramente neutro.

Criar deliberadamente condições para que mais mulheres tenham acesso ao capital não significa baixar critérios, substituir mérito por género ou garantir resultados. Significa procurar onde sabemos que existe talento que historicamente teve menor acesso às redes e aos recursos necessários para crescer. Depois, o mérito continua a contar. A capacidade continua a contar. Os resultados continuam a contar. E talvez seja precisamente por isso que precisamos também de mudar a nossa relação com a oportunidade. Aceitar uma oportunidade não significa ficar em dívida com ela. Usá-la não significa não a merecer.

E reconhecer que, num determinado momento, ser mulher pode constituir uma vantagem num contexto criado deliberadamente para corrigir uma desvantagem histórica não deveria ser motivo de desconforto. Pode ser uma oportunidade. Pode ser uma força. Pode até ser poder negocial. E podemos usá-lo. Não para ocupar artificialmente um lugar que não nos pertence, mas para ocupar plenamente um lugar para o qual temos competência, capacidade e legitimidade.

É também aqui que as estruturas de apoio se tornam tão importantes. Porque talvez não baste colocar capital à disposição das mulheres. É preciso criar redes, referências, conhecimento e contextos que ajudem a transformar esse capital em crescimento e a oportunidade em capacidade efetiva de decisão.

É preciso apoiar mulheres a pensar maior, a negociar melhor, a construir redes, a assumir risco, a reclamar reconhecimento e a transformar liderança em participação económica e poder real. E é também responsabilidade de quem investe. Se procuramos deliberadamente empresas com mulheres em posições relevantes de liderança, não podemos ficar satisfeitos apenas por encontrá-las numa fotografia, num organigrama ou numa apresentação a investidores. Temos de querer perceber onde está verdadeiramente o poder. Que participação têm. Que decisões tomam. Que autonomia possuem. Que reconhecimento recebem.

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E se o nosso capital pode contribuir para reforçar essa posição e permitir que cresçam com a empresa que estão a ajudar a construir. Foi precisamente por acreditarmos que o capital poderia ser um instrumento de transformação que criámos a MOON. Continuamos a acreditar. Mas talvez a equação seja mais complexa do que simplesmente aumentar o acesso. Capital cria a possibilidade de poder. Não garante que o ocupemos. E talvez a próxima etapa da igualdade passe também por aqui: não apenas criar oportunidades para que mais mulheres cheguem ao capital, mas criar condições para que se sintam absolutamente legitimadas para o deter, negociar e utilizar. Sem culpa. Sem pedir desculpa. E sem sentir que aceitar uma oportunidade criada para corrigir uma desigualdade retira alguma coisa ao mérito que as levou até lá. Porque abrir espaço é apenas uma parte da mudança. A outra é ocupá-lo.

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