Horas depois de um churrasco num final de tarde de verão, uma pessoa aparentemente saudável pode subitamente enfrentar comichões intensas, dores abdominais ou até um inchaço grave que exige assistência médica urgente. O problema não é intoxicação alimentar — é uma reação alérgica retardada provocada por uma doença chamada síndrome alfa-gal, resultante, muitas vezes, de uma picada de carraça ocorrida semanas ou meses antes, sem que a vítima tenha sequer dado por isso.
Embora frequentemente apelidada de “alergia à carne vermelha”, a designação não faz jus à gravidade e extensão desta condição. A síndrome alfa-gal pode provocar reações a uma grande variedade de produtos de origem animal, incluindo laticínios, gelatina, medicamentos e até artigos de higiene pessoal. Segundo o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, cerca de 450 mil pessoas no país poderão já estar afetadas.
A doença está longe de ser exclusiva dos EUA. De acordo com a investigadora Lee Rafuse Haines, professora associada de Parasitologia Molecular e Entomologia Médica na Universidade de Notre Dame, e autora de um artigo publicado na plataforma The Conversation, a síndrome alfa-gal está a espalhar-se globalmente e é transmitida por várias espécies de carraças, presentes em todos os continentes habitados.
Uma alergia provocada por uma molécula de açúcar
A alfa-gal (galactose-alfa-1,3-galactose) é uma molécula de açúcar encontrada em quase todos os mamíferos — como vacas, porcos, veados ou coelhos — mas ausente nos seres humanos. Quando esta molécula entra diretamente na corrente sanguínea através da saliva de uma carraça durante uma picada, o sistema imunitário pode reagir de forma agressiva, produzindo anticorpos contra a alfa-gal. Uma exposição posterior à molécula, seja através de carne, leite ou medicamentos derivados de mamíferos, pode desencadear uma resposta alérgica intensa.
Entre os alimentos e produtos capazes de provocar reações estão carne de vaca, porco, borrego, queijo, gelatina (como gomas ou sobremesas), medicamentos como a heparina (extraída do intestino de porco e usada para evitar coágulos durante cirurgias) e até aditivos como a carragenina, presente em alguns alimentos processados.
Inicialmente associada à carraça Amblyomma americanum — conhecida como “carraça da estrela solitária” — e ao sudeste dos Estados Unidos, a síndrome já está ligada a múltiplas espécies de carraças em seis continentes, incluindo a Ixodes scapularis, ou carraça-de-pernas-pretas, responsável também pela transmissão da doença de Lyme.
Segundo Haines, “as carraças escondem-se em jardins, parques urbanos e florestas, e agarram-se às pessoas quando estas tocam em vegetação infestada”. Com o crescimento das populações de veados e humanos, a população de carraças também está a aumentar, o que eleva o risco de propagação da síndrome alfa-gal.
Como ocorre a infeção
O processo de alimentação da carraça é um dos fatores que pode explicar a origem da alergia. Depois de se fixar na pele humana, o parasita perfura a derme com movimentos rápidos e serrilhados, insere um tubo de alimentação com ganchos e secreta uma “cola biológica” para se fixar. Em seguida, injeta saliva repleta de anestésicos, anticoagulantes e, em alguns casos, moléculas de alfa-gal — tudo sem que o hospedeiro se aperceba.
As teorias sobre o desenvolvimento da alergia incluem tanto a resposta imunitária intensa provocada pela grande quantidade de saliva como a possível regurgitação de conteúdo intestinal da carraça na ferida. Os cientistas continuam a investigar os mecanismos exatos.
Sintomas e diagnóstico tardio
A reação alérgica costuma surgir entre duas a seis horas após a ingestão de produtos de origem animal e pode manifestar-se sob a forma de urticária, dores abdominais, náuseas violentas ou até choque anafilático. No entanto, esta alergia é frequentemente mal diagnosticada. Um estudo de 2022 revelou que 42% dos profissionais de saúde nos EUA nunca tinham ouvido falar da síndrome alfa-gal.
Em regiões onde a condição é mais conhecida, o diagnóstico é mais célere. Noutras zonas, contudo, os doentes podem passar por múltiplas consultas e crises antes de receberem o diagnóstico correto. “Com cada nova exposição — seja por outra picada ou por ingestão de alimentos com alfa-gal — a alergia pode agravar-se”, alerta a investigadora.
O que fazer em caso de suspeita
Se houver suspeita de síndrome alfa-gal, o primeiro passo é solicitar ao médico um exame de sangue específico que mede os níveis de anticorpos contra alfa-gal. Se o resultado for positivo, a única forma de controlar a condição é evitar completamente produtos de mamíferos e prevenir novas picadas de carraça.
Em casos mais graves, os pacientes podem necessitar de transportar um auto-injetor de adrenalina (EpiPen) para lidar com possíveis episódios de anafilaxia. Organizações como o CDC e o site alphagalinformation.org disponibilizam informações úteis sobre prevenção, diagnóstico e gestão da doença.
Uma doença ainda envolta em mistério
Embora a síndrome tenha sido documentada formalmente apenas nos anos 2000, os investigadores já estabeleceram a ligação entre picadas de carraça e a reação alérgica. Estudos recentes indicam ainda que pessoas com síndrome alfa-gal podem ter maior risco de doenças cardiovasculares, mesmo sem sintomas de alergia.
Mas persistem muitas incógnitas: por que razão só algumas pessoas desenvolvem a alergia? Que componentes exatos da saliva da carraça desencadeiam a resposta imunitária? A crescente atenção da comunidade científica poderá trazer, na próxima década, avanços na prevenção e tratamento.
Até lá, recomenda-se precaução. Ao passear no campo ou em zonas com vegetação alta, o ideal é usar roupa comprida, repelente de insetos e, após cada atividade ao ar livre, verificar cuidadosamente o corpo em busca de carraças.
Porque da próxima vez que saborear um bife ou um punhado de gomas, a reação do seu corpo pode não ser de prazer — mas de perigo.














