Mau tempo: Cerca de 3.000 m3/s em Coimbra será improvável e catastrófico

O especialista em hidráulica Alfeu Sá Marques considerou hoje improvável que o açude-ponte de Coimbra possa chegar a um caudal de 3.000 metros cúbicos por segundo (m3/s) e notou que isso seria catastrófico para a cidade e para o Baixo Mondego.

Executive Digest com Lusa
Fevereiro 13, 2026
13:04

O especialista em hidráulica Alfeu Sá Marques considerou hoje improvável que o açude-ponte de Coimbra possa chegar a um caudal de 3.000 metros cúbicos por segundo (m3/s) e notou que isso seria catastrófico para a cidade e para o Baixo Mondego.

Aludindo ao alerta feito na noite de quinta-feira pela presidente da Câmara de Coimbra, Ana Abrunhosa, sobre a possibilidade de o caudal do Mondego chegar aos 3.000 m3/s e inundar a baixa da cidade, Alfeu Sá Marques notou que, nas últimas horas, ao contrário do que as previsões sugeriam, o caudal de saída da barragem da Aguieira tem vindo a baixar.

Segundo os dados consultado pela Lusa no portal Info Água, a Aguieira — que atingiu 99,1% de capacidade na manhã de quinta-feira — estava, pelas 11:00 de hoje, nos 90,5%, com um caudal de saída (efluente) em redor dos 947 m3/s, ligeiramente superior aos 915 m3/s do caudal que entrava (afluente), ou seja, a libertar um pouco mais de água do que aquela que recebia.

Já o Rio Ceira, afluente da margem esquerda, debitava para o Mondego um caudal de 346 m3/s à mesma hora e o Alva cerca de 250 m3/s, valores que concorriam para que o caudal da Ponte-Açude de Coimbra — infraestrutura localizada a 40 km a jusante da barragem da Agueira — rondasse os 1.650 m3/s.

Na Ponte-Açude, o caudal do Mondego atingiu um máximo de 2.105 m3/s às 16:00 de quarta-feira – sensivelmente duas horas antes de ruir o dique da margem direita do Mondego que levou, depois, à queda de parte do tabuleiro da autoestrada 1 (A1) -, esteve em redor dos 2.000 m3 na madrugada de quinta-feira e tem vindo a baixar consistentemente, situando-se, pelas 10:00, nos 1.646.

O docente de engenharia civil jubilado da Universidade de Coimbra, especialista em hidráulica, recursos hídricos e ambiente, lembrou outras previsões, há alguns dias, de que a Aguieira poderia chegar a ter de libertar 2.000 a 2.500 m3/s, o que não aconteceu, tendo ficado pelos 1.231 m3/s máximos às 23:00 de quinta-feira.

“Com esses valores, seria perfeitamente possível [os 3.000 m3/s], porque ainda há o Ceira, o Alva e a bacia intermédia. Mas não sucedeu e é improvável que venha a suceder”, reforçou.

Alfeu Sá Marques, destacou, a esse propósito, “e contrariamente ao que sucedeu noutros anos”, o que disse ser uma gestão “quase exemplar” da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), durante as últimas duas semanas, no controle dos caudais do Mondego.

No entanto, admitiu que essa margem de controle dos caudais, face à precipitação constante, “foi-se estreitando nos últimos dias”, tendo levado a capacidade de armazenamento da Aguieira até aos 99%.

“A partir dessa cota, a Aguieira tem de lançar água. E eu prefiro ter mais água da Aguieira, do que ter a Aguieira por aqui abaixo, com uma rotura”, ilustrou o especialista em hidráulica.

“E a não ser que existam modelos de precipitação persistente, ao quais não tenho acesso, que levem o caudal da Aguieira para os 2.500 m3/s (que é quase o máximo, ao nível de descargas de emergência), valores desses seriam uma situação limite, antes que [a barragem] parta vamos tirar a água toda. Mas descarregar um volume desses não é brincadeira [até pelos efeitos que poderia provocar no vale], aliás viu-se, demoraram duas horas para descarregarem relativamente pouco”, argumentou Alfeu Sá Marques.

Explicou que apesar do caudal máximo dos dois descarregadores de cheias da Aguieira ser de 2.080 m3/s, numa situação de emergência a barragem “pode continuar a turbinar e descarregar pela descarga de fundo”, um máximo de 180 m3/s e pelas próprias três turbinas de produção de energia.

“E, depois, tudo depende da água que aflui à barragem. Se chegar acima dos 2.500 m3/s não se consegue baixar o armazenamento”, acrescentou.

“Chegarem 3.000 m3 por segundo a Coimbra é uma calamidade. Deixa de passar pelo descarregador [da ponte-açude] e começa a passar pelos lados e não se consegue garantir a segurança absoluta. Foi prudente e avisado a atitude da professora Ana Abrunhosa [em lançar o alerta]. Mas tenho muitas dúvidas, com os dados que tenho de previsão, que se chegue aos 3.000 metros cúbicos por segundo, é altamente improvável. Mas chegarmos a isso ou acima, concordo com a professora Abrunhosa, é uma calamidade para a cidade. E para baixo [para o Baixo Mondego] nem se fala”, avisou Alfeu Sá Marques.

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