Inquérito revela clima de desconfiança e queixas de maus-tratos entre funcionários do Vaticano

O questionário, realizado entre 15 de dezembro e 7 de janeiro, reuniu 250 respostas, maioritariamente de membros da associação, num universo estimado de cerca de 4.200 trabalhadores leigos. Trata-se do primeiro inquérito deste género promovido pela ADLV, o único organismo representativo dos funcionários do Vaticano, num contexto em que não existem sindicatos nem direito à greve

Francisco Laranjeira
Janeiro 22, 2026
13:45

A maioria dos funcionários leigos do Vaticano manifesta pouca confiança na administração, sente falta de reconhecimento do mérito e mais de metade afirma ter sido alvo de injustiças ou maus-tratos por parte dos seus superiores. As conclusões constam de um inquérito realizado pela Associação de Leigos Funcionários do Vaticano (ADLV), citado pelo ‘El Español’, que traça um retrato crítico das condições de trabalho na Santa Sé.

O questionário, realizado entre 15 de dezembro e 7 de janeiro, reuniu 250 respostas, maioritariamente de membros da associação, num universo estimado de cerca de 4.200 trabalhadores leigos. Trata-se do primeiro inquérito deste género promovido pela ADLV, o único organismo representativo dos funcionários do Vaticano, num contexto em que não existem sindicatos nem direito à greve.

Desconexão entre chefias e trabalhadores

De acordo com os resultados divulgados no site da associação, 73,9% dos inquiridos identificam uma clara desconexão entre a administração e os trabalhadores, enquanto apenas 12,8% se declaram satisfeitos com a relação existente. A perceção de falta de transparência na escolha das chefias é igualmente expressiva: 71,6% consideram que os superiores hierárquicos não são selecionados com base no currículo ou em critérios claros.

Mais de um quarto dos trabalhadores, 26%, afirma não ser possível manter um diálogo aberto e honesto com os seus responsáveis diretos, um dado que reforça a ideia de um ambiente organizacional marcado por distanciamento e comunicação deficiente, segundo o ‘El Español’.

Falta de valorização e desenvolvimento profissional

O inquérito aponta ainda para fragilidades estruturais na gestão de recursos humanos. Cerca de 75,8% dos inquiridos consideram que o ambiente de trabalho não recompensa a iniciativa, o mérito ou a experiência profissional, contribuindo para um sentimento generalizado de desmotivação.

A perceção de tratamento desigual é também dominante. Segundo os dados recolhidos, 73,4% dos funcionários identificam favoritismo, desigualdade de tratamento, falta de atenção às suas preocupações e incerteza quanto à proteção dos seus direitos, incluindo os direitos à reforma.

Queixas de injustiças e maus-tratos

Um dos dados mais sensíveis do inquérito prende-se com as queixas de injustiças e maus-tratos. Mais de 56% dos trabalhadores afirmam ter sido alvo desse tipo de comportamentos por parte dos seus superiores. A ADLV sublinha que este é um fator que “deve ser seriamente investigado e abordado”, apesar de o assédio psicológico ainda não estar formalmente reconhecido no ordenamento jurídico do Vaticano.

Reformas sem impacto positivo

A maioria dos inquiridos mostra-se igualmente crítica em relação às reformas implementadas na última década. Cerca de 68% considera que essas mudanças não trouxeram benefícios concretos para os trabalhadores, tendo antes resultado em mais encerramentos e restrições. Paralelamente, mais de 79% entende que o investimento na formação do pessoal é insuficiente.

O questionário destaca ainda a necessidade de criação de órgãos representativos dos trabalhadores com reconhecimento oficial, numa estrutura institucional onde estes mecanismos continuam ausentes.

Apelo à dignidade e à representação

Uma secção do inquérito foi dedicada a propostas que poderiam ser apresentadas ao Papa Leão XIV, caso surja essa oportunidade. A maioria dos participantes defende a necessidade de restaurar a dignidade, a voz e a proteção efetiva dos trabalhadores, através de maior representação, transparência, diálogo e respeito pelos direitos laborais.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.