IA começa a contratar humanos: a nova plataforma que está a virar o mercado de trabalho

RentAHuman funciona como um marketplace onde agentes de IA podem contratar pessoas reais para executar tarefas no mundo físico — aquilo a que os fundadores chamam “meatspace”

Francisco Laranjeira
Fevereiro 21, 2026
16:00

Uma nova plataforma digital está a virar do avesso um dos maiores receios tecnológicos dos últimos séculos: em vez de os robôs tirarem empregos, agora são as inteligências artificiais que estão a criar trabalho para humanos.

Chama-se RentAHuman e funciona como um marketplace onde agentes de IA podem contratar pessoas reais para executar tarefas no mundo físico — aquilo a que os fundadores chamam “meatspace”. Desde contar pombos em Washington por 30 dólares (cerca de 27 euros) por hora, a entregar gomas de CBD por 75 dólares (aproximadamente 69 euros) ou jogar badminton por 100 dólares (cerca de 92 euros), há praticamente de tudo.



A diferença face a plataformas como Fiverr ou TaskRabbit? Aqui, quem recruta não é outro humano — é um bot.

Um mercado de trabalho para agentes autónomos

A plataforma permite ligar agentes como Clawdbot ou Claude ao seu servidor, dando-lhes capacidade para procurar, contratar e pagar pessoas para executar tarefas físicas. Os humanos definem o seu preço por hora ou apresentam propostas para “bounties” publicadas pelos agentes. Os pagamentos podem ser feitos através de carteiras cripto, Stripe ou créditos da plataforma, ficando retidos em escrow até confirmação do serviço.

Desde o lançamento, a 1 de fevereiro, mais de 518 mil pessoas registaram-se para oferecer os seus serviços. O número continua a subir e o site já ultrapassou os quatro milhões de visitas.

Entre os primeiros casos mediáticos, um agente de IA contratou um homem em Toronto para segurar um cartaz com a frase: “Uma IA pagou-me para segurar este cartaz”. Outro bot religioso recrutou humanos para fazer proselitismo em São Francisco. Num evento tecnológico, robôs terão usado a plataforma para encomendar cerveja.

A origem da ideia

O projeto nasceu da obsessão de Alexander Liteplo, engenheiro ligado ao universo cripto, pela inteligência artificial. Inspirado tanto pelo avanço acelerado dos agentes autónomos como pela cultura japonesa de “aluguer” de companheiros, Liteplo imaginou um sistema onde humanos poderiam ser contratados por inteligências artificiais.

A própria IA ajudou a desenvolver a plataforma. Segundo os fundadores, grande parte do código foi gerado por agentes automatizados, permitindo que o site ficasse operacional em apenas um dia.

O arranque não foi simples: após o anúncio, surgiram ataques de burlões ligados ao universo cripto. No entanto, poucos dias depois, o número de utilizadores disparou, impulsionado pela curiosidade e pelo efeito viral.

Entusiasmo ou sinal de alerta?

Para muitos utilizadores, a ideia representa uma nova fonte de rendimento numa era em que os agentes autónomos ganham cada vez mais autonomia. Há já mais de 11 mil tarefas publicadas, embora exista um enorme excedente de oferta: centenas de milhares de humanos disponíveis para trabalhar.

Especialistas em tecnologia e economia dividem-se. Alguns consideram a plataforma sobretudo uma jogada de marketing ousada. Outros alertam para riscos mais profundos.

Entre as preocupações levantadas estão:

A possibilidade de IA maliciosa dividir tarefas perigosas entre humanos sem que estes percebam o objetivo final.

A ausência de enquadramento legal claro sobre responsabilidade em caso de danos.

O potencial de desumanização num mercado onde pessoas competem para serem “escolhidas” por algoritmos.

Há ainda o debate ético: será degradante “esperar” que um bot nos contrate? Ou será apenas a evolução natural da economia digital?

O futuro do trabalho… com um chefe artificial?

Os fundadores defendem que o modelo pode representar libertação, não submissão. Argumentam que um “chefe IA” pode ser mais previsível e menos abusivo do que gestores humanos tradicionais. Ao mesmo tempo, admitem que a regulação ainda está por acompanhar a velocidade da inovação.

Para já, a plataforma está a tentar atrair investimento em Silicon Valley e até procura contratar — ironicamente através da própria RentAHuman — um colaborador com salário entre 200 mil e 400 mil dólares anuais (cerca de 184 mil a 368 mil euros).

Se estamos perante uma curiosidade passageira ou o embrião de uma transformação estrutural do mercado laboral, ainda é cedo para saber. Mas uma coisa parece certa: a chamada “Era dos Agentes” já não é ficção científica.

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