A administração americana justificou a intenção de assumir o controlo da Gronelândia com argumentos de segurança nacional, defesa estratégica e acesso a recursos vitais, num discurso que tem marcado a agenda externa de Donald Trump. De acordo com a ‘Newsweek’, Washington sustentou que precisa de impedir qualquer avanço russo ou chinês no Ártico e reforçar a sua posição estratégica no Hemisfério Ocidental.
Além das razões geopolíticas já conhecidas, observadores apontam que a ofensiva sobre a Gronelândia se enquadra numa lógica mais ampla de afirmação de esferas de influência, evocando uma leitura moderna de doutrinas do século XIX. Esta quarta-feira, Trump acrescentou um novo argumento, ao afirmar que a Gronelândia é “vital” para a construção da chamada “Cúpula Dourada”, um ambicioso sistema de defesa antimíssil.
O que é a “Cúpula Dourada”
O projeto Golden Dome pretende criar uma arquitetura integrada de defesa capaz de proteger os Estados Unidos contra ameaças de nova geração, incluindo mísseis balísticos, de cruzeiro e hipersónicos. O sistema recorrerá a sensores e intercetores baseados no espaço, permitindo neutralizar mísseis ainda nas fases iniciais do seu trajeto.
Inspirado parcialmente no Iron Dome israelita, o Golden Dome distingue-se pela escala e pelo tipo de ameaças que visa enfrentar. Enquanto o sistema de Israel se centra em foguetes de curto alcance, a proposta americana aposta na interceção de mísseis de longo alcance e elevada velocidade. Trump tem apresentado o projeto como herdeiro direto da Iniciativa de Defesa Estratégica lançada por Ronald Reagan nos anos 80.
O secretário da Defesa, Pete Hegseth, garantiu em dezembro que a Cúpula Dourada proporcionará “proteção tangível” aos Estados Unidos antes do final do atual mandato presidencial.
Porque é que a Gronelândia é considerada essencial
Especialistas em defesa sublinham que a Gronelândia desempenha um papel central na atual arquitetura de alerta e defesa antimíssil dos Estados Unidos. A Base Espacial de Pituffik, situada no noroeste da ilha, é fundamental para detetar lançamentos de mísseis, monitorizar o espaço e acompanhar movimentos submarinos no Ártico.
Responsáveis militares citados pela ‘Newsweek’ alertam que, sem esta infraestrutura, existiria uma falha significativa na defesa antimíssil americana. A própria conceção da Cúpula Dourada parte da premissa de que a rede atual continuará a ser utilizada, o que tornaria necessária uma reformulação profunda caso a Gronelândia deixasse de integrar esse sistema.
Vozes militares defendem ainda que uma solução multilateral, envolvendo aliados da NATO, permitiria assegurar o acesso à Gronelândia para fins de defesa antimíssil, vigilância aérea e marítima e proteção de recursos estratégicos, reforçando simultaneamente a segurança coletiva.
Canadá, NATO e tensões políticas
No âmbito do NORAD, a cooperação entre Estados Unidos e Canadá permanece estreita, embora o papel de Ottawa no projeto Golden Dome continue indefinido. Trump chegou a sugerir que o Canadá poderia pagar dezenas de milhares de milhões de dólares para beneficiar da proteção do sistema, comentários que foram rejeitados pelo primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, que afirmou que o país “não está à venda”.
A declaração ecoa posições assumidas por responsáveis da Dinamarca e da Gronelândia, que têm rejeitado repetidamente qualquer hipótese de anexação do território ártico aos Estados Unidos.
Rejeição na Gronelândia e ausência de ameaça imediata
Apesar de existirem setores na Gronelândia favoráveis a uma futura independência face à Dinamarca, sondagens indicam que a maioria da população rejeita tornar-se parte dos Estados Unidos. O primeiro-ministro gronelandês, Jens-Frederik Nielsen, afirmou recentemente que os habitantes escolheriam a Dinamarca, a NATO e a União Europeia em detrimento de Washington, declarações que Trump classificou como problemáticas.
Entretanto, propostas legislativas no Congresso americano refletem a divisão política sobre o tema, com iniciativas republicanas a abrirem caminho à anexação e projetos democratas a tentarem travar qualquer financiamento federal com esse objetivo.
Embora Trump continue a invocar o risco de uma ocupação russa ou chinesa da Gronelândia, responsáveis militares e diplomáticos da NATO afirmam não existir qualquer evidência de uma ameaça imediata. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca sublinhou que, neste momento, nem a Rússia nem a China representam um perigo que a NATO não consiga acomodar no quadro da segurança regional do Ártico.














