O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, deverá reunir-se este domingo com Donald Trump, na Flórida, num encontro que pode tornar-se determinante para o futuro da guerra na Ucrânia. A reunião acontece num momento crítico do conflito e surge associada a um novo plano de paz que Kiev admite estar “90% pronto”, mas que inclui concessões sensíveis e pontos de forte divergência com Moscovo.
De acordo com o tabloide britânico ‘Daily Mail’, o encontro deverá centrar-se na definição de um eventual cessar-fogo, no calendário político e nas garantias de segurança exigidas pela Ucrânia. Zelensky confirmou que a reunião foi planeada para domingo e sublinhou que o objetivo é avançar o mais rapidamente possível, ainda antes da entrada em 2026.
O que propõe o novo plano de paz
Segundo revelou Zelensky esta semana, o plano mais recente assenta numa proposta de 20 pontos que prevê o congelamento da atual linha da frente. Este cenário abriria a porta à retirada de forças ucranianas de partes do leste do país e à criação de zonas-tampão desmilitarizadas, como forma de travar os combates.
Esta formulação representa a admissão mais clara, até agora, da possibilidade de concessões territoriais por parte de Kiev. O presidente ucraniano explicou que esta proposta é mais aceitável do que a versão anterior, com 28 pontos, apresentada pelos Estados Unidos no mês passado e que refletia várias exigências centrais da Rússia.
De acordo com a RFE/RL, o novo documento elimina a obrigação de a Ucrânia abdicar formalmente da sua ambição de aderir à NATO e remove referências ao reconhecimento legal dos territórios ocupados pela Rússia desde 2014, dois pontos considerados inaceitáveis por Kiev nas versões iniciais.
Território e central nuclear: os dossiês mais sensíveis
Entre os temas mais delicados que estarão em cima da mesa no encontro de domingo estão o futuro do Donbass e a central nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa. Zelensky reconheceu divergências significativas com Washington nestes dois pontos.
Os Estados Unidos pressionam a Ucrânia a retirar-se de cerca de 20% da região oriental de Donetsk ainda sob controlo de Kiev, uma exigência alinhada com as pretensões territoriais de Moscovo. No caso da central de Zaporizhzhia, Washington chegou a propor um modelo de controlo conjunto entre americanos, ucranianos e russos, proposta que Zelensky rejeita, recusando qualquer participação russa na gestão da infraestrutura.
O líder ucraniano sublinha que qualquer cedência territorial só poderá avançar com aprovação popular através de referendo, procurando afastar a ideia de um acordo imposto externamente.
O papel dos Estados Unidos e a posição russa
As negociações decorrem sem contacto direto entre Kiev e Moscovo. Segundo a RFE/RL, os Estados Unidos assumem o papel de intermediários, mantendo canais abertos com o Kremlin. Moscovo confirmou contactos recentes entre o assessor de política externa de Vladimir Putin e responsáveis americanos, mas evitou comentar o conteúdo da nova proposta.
Até agora, a Rússia tem mostrado pouca abertura para compromissos, mantendo exigências rígidas, como a retirada total da Ucrânia do Donbass, o abandono definitivo da aspiração à NATO, a proibição de forças de paz ocidentais no terreno e fortes limitações militares e políticas a Kiev.
Zelensky diz esperar uma resposta oficial russa nos próximos dias, mas admite ceticismo quanto à real vontade de Moscovo em pôr fim à invasão. O encontro com Trump poderá, assim, ser decisivo para avaliar até onde Washington está disposto a ir na pressão diplomática e que margem de manobra resta para um acordo político.
Porque é que esta reunião é relevante
A reunião deste domingo surge num contexto de intensificação recente dos ataques russos e de crescente fadiga internacional com o conflito. Um eventual entendimento preliminar poderá redefinir o rumo da guerra em 2026, mas também expõe os limites das concessões aceitáveis para Kiev.
O encontro entre Zelensky e Trump será, por isso, um teste político de alto risco: para a Ucrânia, que procura garantias de segurança duradouras; para os Estados Unidos, enquanto mediadores; e para a Europa, que observa com atenção qualquer sinal de mudança no equilíbrio do conflito.














