Editoras independentes acusam APEL de exclusão da Feira do Livro e lançam petição

Uma petição contra a exclusão de 40 editoras independentes da Feira do Livro de Lisboa reuniu mais de 2.000 assinaturas em 24 horas, com os promotores a acusarem a APEL de favorecer grandes grupos editoriais e ameaçar projeto europeu.

Executive Digest com Lusa
Março 2, 2026
19:01

Uma petição contra a exclusão de 40 editoras independentes da Feira do Livro de Lisboa reuniu mais de 2.000 assinaturas em 24 horas, com os promotores a acusarem a APEL de favorecer grandes grupos editoriais e ameaçar projeto europeu.


A iniciativa foi lançada pela DNL Convergência, distribuidora sediada em Ansião, depois de ter sido informada de que não participará na 96.ª Feira do Livro de Lisboa, que terá lugar entre os dias 27 de maio e 14 de junho, decisão que dizem afetar quatro dezenas de editoras independentes que representa.


Lembrando que já em 2025 várias editoras independentes e de pequena dimensão se queixaram do favorecimento de grandes grupos editoriais por parte da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), a DNL Convergência / Grupo Editorial Divergência denunciou, numa nota enviada à Lusa, que este ano foram “confrontados com a exclusão total” da sua participação na feira, “após 5 anos de presença ininterrupta”, o que gerou “uma vaga de indignação imediata”.


Lançaram então uma petição nacional, que reuniu mais de 2.000 assinaturas em 24 horas, exigindo a reversão da decisão da APEL, que acusam de atacar a diversidade literária e a liberdade de circulação de obras independentes.


Segundo os promotores, entre os signatários contam-se mais de 100 profissionais do setor editorial – incluindo editores, designers, revisores e livreiros – e mais de 250 autores.


A exclusão ocorre num cenário de particular gravidade para a região, tendo Ansião sido um dos concelhos afetados pelo estado de calamidade devido à tempestade Kristin, destaca a distribuidora.


“Numa altura em que o tecido empresarial local enfrenta uma quebra acentuada de faturação e um contexto económico adverso, a APEL [organizadora do evento], entidade que deveria promover a descentralização, retira o tapete a um dos principais polos de dinamização cultural do interior do país”.


Os dinamizadores da iniciativa alertam ainda que esta decisão da APEL tem um impacto que ultrapassa o plano comercial, com repercussões também políticas internacionais, já que o Grupo Editorial Divergência, uma das editoras afetadas, “é atualmente a única em Portugal a publicar autores ucranianos na língua original”.


Além disso, lidera o projeto IndieSpec, financiado pelo programa Europa Criativa da Comissão Europeia.


“Estamos a silenciar a editora que lidera o projeto cultural mais ambicioso financiado pela União Europeia no nosso setor em Portugal. A APEL está a agir contra o interesse público, prejudicando a comunidade de refugiados e o prestígio internacional de Portugal”, sublinhou Arlete Gomes, responsável pelo Grupo Editorial Divergência, citada no comunicado.


Para Pedro Cipriano, responsável pela DNL Convergência / Grupo Editorial Divergência, a decisão da APEL ultrapassa questões logísticas e situa-se no plano político.


“É uma decisão política que favorece os grandes grupos em detrimento das pequenas editoras. É incompreensível que, enquanto o país se solidariza com os concelhos devastados devido às tempestades, a associação que nos deveria representar crie novas barreiras à nossa sobrevivência”, lamenta.


A estrutura excluída afirma que esta decisão retira do certame cerca de 10% da programação cultural prevista, estimando que a ausência destas editoras implique a supressão de mais de 200 sessões de autógrafos, lançamentos, debates e mesas redondas.


Para dar uma ideia da escala do seu contributo para a dinamização da feira, a DNL revelou que no ano passado realizou cerca de 220 sessões de autógrafos e 36 eventos de palco (apresentações, lançamentos, debates e mesas redondas) e que para este ano estavam já confirmados cerca de 75 sessões de autógrafos e 23 eventos de palco.


Entre as editoras independentes visadas, encontra-se A Barca, “a única chancela editorial exclusivamente dedicada ao terror”, que dá resposta a um “interesse crescente” que tem sentido por parte dos leitores, afirma o editor, Nuno Gonçalves, citado na nota.


Também Estefani Dias, da Literando Editora, dá o seu testemunho, assinalando que ao longo dos últimos anos tem participado na Feira do Livro de Lisboa promovendo autores brasileiros no mercado português e fortalecendo laços culturais entre Brasil e Portugal.


Para 2026, com autores convidados já confirmados e viagens internacionais e alojamento pagos, a exclusão agora comunicada gera prejuízos financeiros, constrangimento institucional e reputacional para a distribuidora e para os autores envolvidos, lamenta a editora.


Segundo a DNL Convergência, entre as editoras afetadas, contam-se ainda casas dedicadas à ficção especulativa, poesia, literatura regional e projetos independentes, cuja presença regular na feira representava uma parte significativa da “bibliodiversidade” do evento.


O coletivo de editores dá ainda conta de ter avançado com uma contestação formal junto da APEL, solicitando acesso às atas e aos critérios que fundamentaram o rateio dos espaços, e admite recorrer aos mecanismos estatutários da associação para exigir esclarecimentos adicionais.


A distribuidora afirma que a sua exclusão foi justificada pela APEL com um “rateio” por excesso de pedidos, acusando-a de “opacidade total” no processo de atribuição de pavilhões.


“A APEL recusa-se a tornar públicos os critérios objetivos ou as atas que levaram à exclusão de associados históricos em favor da expansão de grandes grupos”, acrescenta.


Na decisão da APEL enviada à distribuidora, a que a Lusa teve acesso, lê-se que “encerradas as inscrições, verificou-se um excesso de pedidos para a quantidade de pavilhões disponíveis, o que induziu a necessidade de se proceder a um rateio de acordo com a observância dos critérios regulamentares”.


“Após ponderada avaliação da direção de todos os pedidos, lamentamos informar que não foi possível satisfazer o vosso pedido de inscrição na 96.ª Feira do Livro de Lisboa. Nos próximos dias, o nosso departamento de contabilidade entrará em contacto para proceder à regularização do valor pago”, acrescenta.


Em 2025, vários editores independentes já tinham denunciado alegado favorecimento dos grandes grupos editoriais na organização da Feira do Livro de Lisboa, críticas perante as quais a APEL manifestou “surpresa”.


A Lusa questionou a APEL sobre este caso, mas até ao momento não obteve resposta.


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