Quando se fala de artérias marítimas vitais do comércio internacional, há três nomes que surgem logo à cabeça: Estreito de Ormuz, Canal do Suez e Canal do Panamá. No entanto, o Estreito de Gibraltar, vital para a economia europeia em geral e a espanhola em particular, tem vindo a ser referido como potencial ponto de estrangulamento mundial, num cenário remoto, próprio dos ‘cisnes negros’, devido à paz que reina na região.
A ‘BCA Research’ colocou o bloqueio de Gibraltar como o seu principal ‘cisne negro’ para 2024 e a responsabilidade seria do Irão, que iria causar o colapso do comércio global. De acordo com os analistas, liderados pelo estrategista-chefe geopolítico Matt Gertken, o fator surpresa associado ao ‘cisne negro’ perdeu-se um pouco uma vez que Teerão já avançou com a possibilidade.
A 23 de dezembro último, o adjunto do Comando de Coordenação da Guarda Revolucionária do Irão, o general Mohamad Reza Naqdi, alertou para o possível “encerramento do Mar Mediterrâneo e do Estreito de Gibraltar” como resposta aos ataques dos Estados Unidos no Mar Vermelho. “Isto não é apenas retórica. É melhor esperarem pelo encerramento do Mar Mediterrâneo em Gibraltar e de outras vias navegáveis”, salientou o responsável iraniano, citado pela agência de notícias ‘Mehr’.
O perigo desta hipótese está justamente no facto de este não ser uma possibilidade óbvia, uma vez que as tensões estão concentradas no Mar Vermelho. No entanto, a equipa de analistas explicou as motivações de Teerão para estender a sua ‘guerra de procuração’ (ataques pontuais de milícias locais ‘amigas’, à semelhança dos Houthis) do Mar Vermelho ao Mediterrâneo.
“O objetivo seria chantagear a Administração Biden e reduzir o apoio dos Estados Unidos e da União Europeia a Israel. A tática atual do Irão é usar representantes militantes para impor custos marginais ao comércio global sem provocar um contra-ataque militar direto dos EUA e dos seus aliados. Isto já está a acontecer no Mar Vermelho”, referiram.
“O Irão alcançou capacidade de avanço nuclear, com potencial para obter armas nucleares exequíveis nos próximos anos. Israel estabeleceu firmemente ao longo dos anos a ‘doutrina Begin’, o que implica que lançará ataques militares preventivos e unilaterais contra instalações nucleares de qualquer país vizinho. A teoria dos jogos sugere que Israel atacará se a outra opção for um Irão com armas nucleares. Se o Irão estiver a um ano ou dois de distância da bomba, não se pode esperar que Israel adie. Israel também pode acreditar que esta ação forçaria os Estados Unidos a intervir ao seu lado para garantir o sucesso e a continuação dos fluxos de petróleo”, explicou a equipa do ‘BCA’.
“O Irão poderia reagir aos ataques às suas instalações nucleares bloqueando o Estreito de Ormuz, desencadeando o que se poderia tornar a maior crise petrolífera de todos os tempos. Este é o pior cenário dentro da nossa categoria mais ampla de grandes crises petrolíferas, à qual atribuímos uma probabilidade de 30% em 2024. Mas devemos ter em conta que os EUA não querem que Israel provoque uma crise petrolífera e o Irão não quer ser bombardeado. Portanto, o Irão pode optar por táticas muito menos desastrosas, mas ainda assim irritantes para o Ocidente, acreditando que os EUA irão, entretanto, deter Israel”, acrescentaram.
E aí entra Gibraltar: um ataque orquestrado por Teerão e levado a cabo por algumas milícias relacionadas, “os Governos ocidentais ficariam apanhados” numa ‘tempestade perfeita’. “A NATO retaliaria contra as milícias apoiadas pelo Irão, mas depois reduziria o apoio a Israel, para evitar uma nova escalada durante as eleições dos Estados Unidos, não só crítica para a Europa, mas também para os americanos”, frisaram.
A importância global de Gibraltar
O Estreito de Gibraltar é vital para o comércio europeu e para Espanha devido à sua posição estratégica única: o Estreito liga o Mediterrâneo ao Oceano Atlântico e fornece um meio de trânsito para o transporte marítimo entre o Atlântico e o Mediterrâneo e, através do Canal de Suez, para o Oceano Índico e além. Este ponto é fundamental para a negociação. Segundo cálculos da ‘BCA Research’, com um bloqueio em Gibraltar, 10% do comércio mundial poderia ser afetado, ou 2,3% do PIB mundial.
Depois do Canal da Mancha, o Estreito de Gibraltar é a rota marítima mais movimentada do mundo: cerca de 120 mil navios que viajavam entre o Sudeste Asiático, a China e o Médio Oriente e a costa atlântica da Europa, África e EUA passaram por aqui antes da pandemia, enquanto 20% do comércio marítimo e 80% das mercadorias, do petróleo e do gás consumidos pela UE passam por este corredor marítimo.
Este ‘cisne negro’ é um tanto controverso pela enorme perturbação que seria, mas sobretudo pela reduzida probabilidade de acontecer. No dia seguinte ao aviso de Teerão ao Ocidente, a 23 de dezembro último, drones iranianos atacaram um navio-tanque químico de propriedade japonesa ao largo da costa da Índia, a quase 1.400 quilómetros de distância. “O Irão demonstrou a sua capacidade de longo alcance, embora não o suficiente para chegar a Gibraltar. Também atingiu um alvo muito menos defensável”, destacou o ‘BCA’.
Por outro lado, existe uma longa lista de obstáculos que podem complicar qualquer tipo de bloqueio em Gibraltar: o Irão precisaria de uma posição segura perto, o que seria tremendamente complicado, dado que a Espanha e a União Europeia têm um bom relacionamento com os países do Norte de África. Por sua vez, estes países (Marrocos e Argélia) obtêm fundos suculentos dos orçamentos de Bruxelas. “Marrocos não é o Iémen e não há equivalente ao reduto rebelde Houthi”, concluíram os analistas.














