Demorou 113 anos: ‘bode expiatório’ escocês do naufrágio do ‘Titanic’ é ilibado de todas as acusações

Durante anos, Murdoch foi acusado de aceitar subornos, abandonar o seu posto e até foi retratado a disparar sobre um passageiro no filme de James Cameron. Foi preciso um século – e nova tecnologia, em particular imagens 3D – para provar que o oficial não fugiu do seu posto, mas morreu conforme ajudava os passageiros a escapar

Francisco Laranjeira
Abril 12, 2025
13:30

Já se passaram 113 anos desde que o transatlântico ‘Titanic’ se afundou no Oceano Atlântico, ceifando a vida de mais de 1.500 passageiros e tripulantes. Mas novas provas inocentaram finalmente o ‘bode expiatório’ escocês da tragédia: o primeiro oficial William Murdoch.

Durante anos, Murdoch foi acusado de aceitar subornos, abandonar o seu posto e até foi retratado a disparar sobre um passageiro no filme de James Cameron. Foi preciso um século – e nova tecnologia, em particular imagens 3D – para provar que o oficial não fugiu do seu posto, mas morreu conforme ajudava os passageiros a escapar.

A empresa de análise de águas profundas Magellan tirou 715 mil fotos dos destroços do ‘Titanic’, que se encontram a 3.843 metros de profundidade e a 650 quilómetros ao sudeste de Terra Nova, no Canadá. No novo documentário do ‘National Geographic’, o analista do ‘Titanic’, Parks Stephenson, revelou como um enorme modelo digital em 3D comprovou a inocência de William Murdoch.

O scan feito por dois submersíveis – ‘Romeu’ e ‘Julieta’ -, durante uma expedição de seis semanas ao local do naufrágio no Atlântico Norte, criou um modelo preciso do malogrado navio que revelou novas pistas sobre os momentos finais das tripulações e mostrou que o guindaste na estação do oficial Murdoch estava numa posição vertical, ou seja, a preparar-se para lançar outro bote salva-vidas quando se afundou o ‘Titanic’, o que corrobora o testemunho de sobreviventes da tripulação de que Murdoch, com 39 anos, foi levado por uma onda enquanto resgatava mais um grupo de passageiros.

William McMaster Murdoch nasceu a 28 de fevereiro de 1873 na cidade de Dalbeattie, Escócia, e serviu em vários navios antes de ser promovido ao cargo de primeiro oficial a bordo do ‘Titanic’. Em setembro de 1907, casou-se com uma professora neozelandesa chamada Ada Florence Banks, mas a última vez que viu a sua mulher foi a 10 de abril de 1912, antes de o ‘Titanic’ partir de Southampton.

Quando o ‘Titanic’ atingiu o iceberg às 23h40 da noite de 14 de abril de 1912, o oficial Murdoch foi colocado no comando das evacuações no lado estibordo do navio. No entanto, o que aconteceu nas horas seguintes foi motivo de controvérsia. Várias testemunhas oculares sobreviventes relataram ter visto um oficial a disparar sobre um ou dois homens que corriam para apanhar um salva-vidas e depois disparar em si mesmo.

Durante anos, acreditou-se que esse oficial não identificado fosse Murdoch — uma ideia repetida na adaptação cinematográfica de James Cameron.

Entretanto, outros testemunhos mostraram outra versão: em particular, o segundo oficial Charles Lightoller, que afirmou ter visto Murdoch do topo da casa de convés enquanto ele era levado pelo mar.

“Este guindaste está na posição levantada, o que significa que a sua tripulação está basicamente a tentar preparar um salva-vidas para ser lançado”, sustentou Parks Stephenson, acrescentando: “Isso coincide com a descrição do segundo oficial Lightoller.”

Após o lançamento do filme ‘Titanic’, os parentes sobreviventes de Murdoch e os moradores de sua cidade natal, Dalbeattie, na Escócia, reclamaram que o filme havia prejudicado a sua reputação heroica.

O vice-presidente da ‘Fox’, Scott Neeson, foi até Dalbeattie para entregar pessoalmente um pedido de desculpas à família Murdoch e doou 5 mil libras à Dalbeattie High School para financiar o Prémio Memorial William Murdoch.

As digitalizações foram realizadas para um novo documentário da ‘National Geographic’ e da ‘Atlantic Productions’ chamado “Titanic: The Digital Resurrection.” Além das imagens, uma nova simulação reconstrói o ‘RMS Titanic’ e os danos causados ​​naquela noite trágica.

As digitalizações permitiram perceber uma válvula aberta que permitiria o fluxo de vapor para o gerador do navio, o que corrobora os relatos de testemunhas oculares da noite fatídica, segundo os quais uma equipa de engenheiros corajosos trabalhou até ao fim para manter as luzes acesas.

A filmagem completa pode ser vista em “Titanic: The Digital Resurrection” na próxima terça-feira, às 20h, no ‘National Geographic Channel’.

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