Leica, Garland, Bosch e Grandvision são apenas algumas das empresas que contam com a especialização da Garcia, Garcia na concepção e execução de unidades industriais e de logística em Portugal. O tempo de execução e o know-how adquirido ao longo da sua história têm sido os fundamentos para o crescimento desta empresa de Guimarães constituída em 1898 e focada durante décadas na construção de chaminés para a indústria têxtil.
Liderada desde 2003 por três dos quatro irmãos Garcia, foi eleita melhor construtora nacional de 2016 pelos Prémios Construir, devido a uma gestão criteriosa do negócio que se tem reflectido em crescimentos continuados desde esse ano. «Não estávamos nem estamos absolutamente nada expostos à banca, somos muito criteriosos com os clientes que escolhemos. Não temos malparado desde que assumimos a empresa, gostamos de inovar e aperfeiçoar e não diversificamos muito. Somos monoproduto, monocliente e o negócio é fundamentalmente alavancado na parte de concepção e execução industrial», conta Miguel Garcia, um dos administradores da Garcia, Garcia. «Trabalhamos muito no layout quer das empresas nacionais, quer multinacionais nossas clientes. Vamos ao detalhe de perceber quais são os fluxos de entrada e saída, que tipo de equipamento é, onde é que tem os maiores consumos energéticos, que tipo de reaproveitamento energético se pode fazer visando factores de eficiência energética ou reaproveitando para outros. Além disso não há nenhuma empresa que pode todos os dias ter o gabinete de projecto, arquitectura e engenharia a conversar com o director de obra sobre dúvidas ou pormenores. Na nossa empresa isso é possível porque temos todas estas valências juntas», refere o gestor.
O aumento da carteira de encomendas levou a empresa a concluir 2016 com uma receita de 43,8 milhões de euros, mais 95% do que no ano anterior, motivada por dois factores. «Primeiro, o nosso volume de negócios deixou de estar 90 ou 95% alavancado na indústria e passámos a incluir uma componente residencial e de reabilitação urbana, o que diminui a nossa exposição ao risco e diversifica um pouco a nossa carteira de actividade», afirma Miguel Garcia, acrescentando que esta área já vale cerca de 25% do volume de negócios. «Cresceu assustadoramente», confessa. «Nesta área estamos focados no Norte, mas no residencial não somos diferenciadores. Onde fazemos a diferença e onde conseguimos dizer que fazemos melhor e mais rápido do que os outros é no nosso core», garante.
O segundo factor está relacionado com o crescimento da economia e alavancado principalmente pela indústria automóvel. «Para a indústria automóvel e derivados que gravitam em torno desta indústria, Portugal é um mercado atraente.»
As expectativas de crescimento das receitas para o próximo ano rondam os 10%, mas Miguel Garcia admite que este valor poderá disparar para 95% tendo em conta um ou dois projectos que estão a ser negociados. «Neste momento temos um projecto muito grande de Logística que está ainda em negociações e que representa cerca de dois terços do nosso volume de negócios actual», adianta.
A empresa tem focado o negócio industrial principalmente no mercado interno, embora já tenha feito algumas «tentativas modestas» no exterior, afirma Miguel Garcia. «Sempre quis sair para outros mercados mantendo o nosso core industrial, mas os meus irmãos não. Fizemos uma tentativa modesta em 2012, 2013 com um cliente para quem construímos uma fábrica em Portugal que não quis arriscar muito e acabou por fazer metade da fábrica em França. Depois avançámos com um projecto já em 2015 também nesse mercado e correu bem.» No entanto, «o investimento que apontamos em termos industriais está mais no norte de África, Marrocos, Mauritânia, eventualmente também numa Europa de Leste, Eslováquia, Hungria… Tivemos convites para estes últimos mercados mas foram sempre tentativas tímidas. Marrocos parece-nos mais estratégico, tem uma forte componente de indústria automóvel. Temos um projecto a decorrer e outro em vias de arrancar nesse mercado. No entanto, Portugal tem proporcionado o nosso crescimento sustentado e os recursos são sempre escassos. É muito difícil deslocalizar equipas porque estamos a crescer muito internamente. O risco que se corre é de dispersar e perder competências», adianta o gestor. O segundo projecto de Marrocos podia ter começado mais cedo, mas a Garcia, Garcia ainda não quis arrancar. «Estamos primeiro a consolidar este. Não podemos falhar na indústria automóvel – estamos a falar sempre em projectos industriais e relacionados com a indústria automóvel –, o prazo é brutal, as penalidades são diabólicas, não se pode arriscar», avança.
PASSAGEM DE TESTEMUNHO
Nem sempre a história da Garcia, Garcia foi feita de crescimento. Depois de um ano negro em 2003, sob a liderança do patriarca da família, a pasta da Garcia, Garcia passou para três dos quatro irmãos, que têm alavancado o negócio através de uma gestão profissional e «muito trabalho. Em 2003, a empresa atravessou um período muito delicado pondo em causa a sua própria solvabilidade, devido a uma gestão de clientes extremamente danosa por parte do nosso pai, com tempos médios de recebimento de 360 dias, tempos médios de pagamento sempre no dia estipulado, e a tesouraria sem esticar», conta Miguel Garcia. «O nosso pai, já em idade avançada, achou que era altura de sair. Imediatamente após a saída dele e cedência das acções, tivemos de reestruturar tudo. Encerrámos algumas secções – éramos uma empresa vertical –, investimos nas que faziam parte do nosso core, especificamente na metalomecânica, investimos mais no gabinete de projecto, e tivemos de despedir 56 pessoas…»
Miguel Garcia refere que Rui, o irmão mais velho, «teve uma importância muito grande na parte da concepção e execução, porque, pela formação académica que tem em engenharia e herdando um pouco aquele savoir faire que o pai tinha, enveredou pelo gabinete de projecto» ainda na década de 80 com a empresa sob o comando do pai. Até essa altura, a Garcia, Garcia era mera entidade executante. Carlos Garcia, o mais novo, é o presidente da empresa e tem uma capacidade igual à do «pai, uma cabeça com um QI acima da média e consegue gerir muito bem a parte de produção e a parte financeira». A Miguel Garcia cabe uma parte de projecto, project manager, e a área comercial. «Esta é a equipa de três que está na base da manutenção da Garcia, Garcia nestes anos todos», afirma o gestor.
O ano de 2004 foi de viragem, de grandes projectos e procura de novos clientes, novos mercados. A Garcia, Garcia entrou no grupo Irmãos Vilanova – Salsa –, nos Retails e daí em diante «foi sempre a crescer, exceptuando uma regressão do volume de negócios em 2009, no subprime, mas são correcções por causa da carteira de encomendas», garante Miguel Garcia.
Hoje a equipa conta com 165 pessoas. «O número de projectos tem vindo a crescer, o grau de exigência é cada vez maior, o tempo para o terminus desses projectos é cada vez menor…», refere Miguel Garcia, acrescentando que exigem muito das pessoas, mas «a empresa é deles. Distribuímos 25% dos dividendos da empresa, premiamos as pessoas, é uma família, graças à cultura forte que o nosso pai deixou na empresa».




