Como gerir os mais rebeldes

Os melhores treinadores de futebol conseguem produzir atletas de elite a partir de jogadores difíceis de gerir. As empresas devem prestar atenção

Executive Digest

POR : Ben Lyttleton

A figura do rebelde precisa de uma restruturação. O termo, usado para definir alguém independente ou pouco ortodoxo, pode ter conotações negativas. Numa sociedade onde os algoritmos e a inteligência artificial podem inibir a criatividade humana, os pensadores livres e mais talentosos precisam de ser apoiados.



Quanto mais os gestores se entenderem com os rebeldes e os colegas perceberem os seus contributos, melhores serão os resultados para todos. O mundo do futebol, no qual os jogadores mais talentosos são frequentemente os mais difíceis de gerir, há muito que se debate a questão. Como é que os treinadores lidam com isto e o que se pode aprender?

Primeiro, vamos explicar de que tipo de rebelde estamos a falar: pessoas brilhantes e com pensamentos originais que ainda não chegaram ao topo, e não executivos arrogantes que acreditam que os limites podem ser ultrapassados para lhes fazerem as vontades. O último grupo é um risco; o primeiro precisa de apoio e aceitação para não se tornar o segundo grupo.

O derradeiro rebelde do futebol é, provavelmente, Diego Maradona, um génio que liderou a Argentina no Mundial de 1986, mas que tem sido atormentado pelos seus demónios interiores. Jorge Valdano, colunista e consultor, foi colega de equipa de Maradona na equipa do Mundial de 1986 e manager no Real Madrid. Gosta de contar esta história sobre o famoso golo que Maradona marcou contra a Inglaterra nos quartos-de-final do Mundial, que mais tarde foi votado Golo do Século da FIFA.

Segundo Jorge Valdano, Maradona passou pelos defesas de Inglaterra e chutou à baliza, assegurando a vitória. Enquanto isso, Jorge Valdano estava a correr ao seu lado. «Por que é que não me passaste a bola?», perguntou-lhe no final do jogo. Maradona afirmou que estava a ver Jorge Valdano, mas antes de dar conta já tinha ultrapassado os defesas e marcado. Não precisava do companheiro de equipa.

OBTER O APOIO DA EQUIPA

Foi este tipo de magia independente que levou Maradona a inspirar uma nação na glória do Mundial, apesar dos seus episódios de violência e paranóia e dos seus problemas relacionados com o consumo de droga. Jorge Valdano usa este exemplo extremo para mostrar que não é fácil trabalhar ao lado de pessoas mais talentosas. O que não quer dizer que um rebelde do mundo de trabalho que pise o risco e tenha comportamentos maus e até criminosos, como assédio ou bullying, deva ser aceite e tolerado. Jorge Valdano mostra como obter o apoio de membros da equipa para acomodar uma individualidade brilhante no trabalho.

Enquanto pesquisava para o meu livro, perguntei a Jorge Valdano se é difícil trabalhar com rebeldes como Maradona. «Nem sempre é fácil viver com génios, mas os seus contributos produzem um tal salto na qualidade que merecem o trabalho e apoio», explicou. «Há uma transacção entre o génio e a equipa.»

Jorge Valdano e os colegas de equipa perguntaram a si próprios se estariam dispostos a aceitar alguém tão especial, incluindo as suas excentricidades e vícios. A resposta, para Jorge Valdano, é sim: «Este génio tornar-me-á melhor e ajudar-me-á a ganhar um Mundial.» É preciso esclarecer que Jorge Valdano não aceita o vício ou a violência. No local de trabalho, os colegas devem aconselhar sempre a procurar ajuda profissional.

Muitas organizações enfrentam um problema semelhante, ainda que menos extremo: aproveitar o melhor das estrelas, assegurando ao mesmo tempo que a restante equipa não se ressente e consegue progredir. Atingir o sucesso com ambos exige que a gestão dedique tempo a lidar com o individual, mas também a gerir as atitudes dos outros em relação ao rebelde. Estes colegas podem ficar frustrados e precisam de ajuda para verem que o contributo dos rebeldes vale o desconforto e a irritação.

Jorge Valdano pede disciplina, profissionalismo e humildade aos que rodeiam o rebelde. Nota que não é vergonha nenhuma não se ser o talento excepcional. «Uma verdadeira equipa procura a excelência a partir da inteligência colectiva. Alguns ambientes, como o tecnológico, toleram melhor os génios. Compreendem que não existe aventura sem risco», explicou-me.

Atingir o equilíbrio certo exige competências de comunicação precisas. Quando os rebeldes são bem geridos, cria-se um círculo vicioso, transformando os gestores em líderes mais eficazes e mais bem preparados para trabalhar com personalidades diferentes. Por isso, se tiverem essa sorte, acrescenta Jorge Valdano, aproveitem: «Precisamos sempre dos outros para termos sucesso.»

APOIAR UMA BRAND PESSOAL

O crescimento da individualidade na sociedade está a criar problemas para os líderes. «Estamos a ver um afastamento do modelo tradicional e transacional para um transformacional de liderança», afirma Fritz Schmid, antigo treinador da selecção de futebol da Nova Zelândia.

E explica: «Alguns jogadores preferem estabelecer uma brand pessoal antes de pensar na equipa ou no colectivo. É aqui que a interacção e a comunicação se tornam tão importantes.»

O director desportivo da selecção alemã, Oliver Bierhoff, refere-se a talentos destes na sua equipa como «empreendedores independentes». «Uma equipa de futebol funciona como uma unidade de negócio. Todos trabalham para um bem comum, mas cada um tem o seu próprio caminho», explica.

Oliver Bierhoff vê o seu papel como facilitador de oportunidades para os jogadores que querem aproveitar as suas plataformas, e gosta de ligar os seus jogadores a outros jovens empreendedores: «A nova geração não quer simplesmente executar; querem moldar as coisas, compreendê-las, lidar com desafios». Um desses jogador, o defesa Mats Hummels, por exemplo, oferece parte do seu salário à Common Goal, movimento de beneficência que promove a educação, a saúde e a paz em todo o mundo.

Um bom gestor precisa de convencer o rebelde ou o empreendedor e a equipa de que a “inteligência colectiva” pode criar resultados que agradam a todos. Como Jorge Valdano explicou, a humildade é essencial, a vaidade é corrosiva e o verdadeiro líder é aquele que «tem uma ideia sedutora e a proclama».

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