Como a seca pode afetar a produção de vinho?

Por Duarte Leal da Costa, Diretor Executivo da Ervideira

A seca não é uma novidade, nem de hoje nem deste século. De facto, existem registos com ciclos de seca e de chuva, característica do clima mediterrâneo, e, por isso, não acontece em Portugal ou no Alentejo em especial.

A população tem aumentado e trata-se de uma população muito mais evoluída, mais mundial, mais viajada, mais ligada ao mundo através de todos os meios que hoje nos são acessíveis. Apenas a título de exemplo, eu tenho 55 anos, tenho efetuado centenas de viagens de avião, já tive quase uma dezena de computadores e, seguramente, mais telemóveis. Já o meu pai nunca teve nem telemóveis nem computadores e fez muito poucas viagens de avião, dos meus avós nem se fala. A globalização tem muito de fantástico, mas também tem alguns problemas graves, e, sem dúvida, um dos enormes problemas é o aumento de produção de lixo, de gases de estufa, de plásticos, etc.

Olhemos simplesmente para os nossos antepassados que compravam 1 litro de grão, hoje os nossos filhos nem sabem o que é grão sem ser em lata ou em frasco. Milhares de exemplos que eu poderia aqui dar e que nem sequer raciocinamos e que a nossa resposta simples é: “ahhh, pois é, nem me ocorria!”. Na verdade, o que acontece é que toda esta evolução necessária, imparável e sem qualquer hipótese de voltar atrás, provoca o aumento dos gases com efeito de estufa, que terá tido um ligeiro abrandamento com o mundo parado momentaneamente com a pandemia, mas que retomou o seu nível de evolução. Tudo isto está a provocar um aumento do somatório de temperaturas e é aqui que está o gigante problema.

O problema não está nos casos pontuais de temperaturas altas aqui, ou de temperaturas baixas ali, os casos pontuais de chuva imensa… O grave problema está no somatório de todos estes fatores em que se verifica um aumento do somatório das temperaturas médias. É este somatório que está a provocar o degelo dos glaciares, dos ciclos das plantas, alterações de hábitos dos animais.

Neste sentido, e no que toca a nós produtores de vinho, temos que saber trabalhar de mente aberta e ‘batalhar’ em muitas frentes:

  1. Redução das mobilizações de solo, que permite poupanças de combustível, redução da compactação do solo, aumento de plantas no solo com a consequente preservação da biodiversidade e redução da erosão do solo provocado pelas chuvas e insolação;
  2. Utilização de fitofármacos ‘inteligentes’, que não sejam agressivos e que se auto degradem, não deixando quaisquer resíduos, assim como estes devem ser aplicados com recuperadores de calda, que permitem recuperar até 70% da quantidade de produtos fitofármacos aplicados:
  3. As novas plantações devem prever vários pontos, clones mais resistentes, castas variadas em ciclos, assim como plantações com várias exposições e não apenas viradas a sul;
  4. Dado que a matéria orgânica tem uma elevada tendência a degradar-se, devem ser adicionadas toneladas de matéria orgânica ao solo.

No fundo trata-se de tratar a agricultura de uma forma extremamente inteligente, planeada e que pense muito no presente e no futuro, num futuro sustentável. Acima de tudo, ter em conta que deveremos deixar uma terra melhor para os nossos filhos. Quem de nós não quer o melhor para as próximas gerações? Então porque não pensar a longo prazo e deixar de pensar só no presente?!?

Neste momento, os muito elevados dados relacionados com o aquecimento global, mostram-nos o forte aceleramento da ‘degradação climatológica’, pois a alteração existente não é mais do que uma degradação para nós que vivemos na Terra. Se não acautelarmos medidas de desaceleração desta degradação, não nos esperam noticias boas. Dizem-nos estes estudos sucessivos que o Alentejo será das zonas que mais áridas se tornarão. Ora como diz o termo ‘áridas’, vem de areia, onde nada cresce, onde não há vida, sem vida não há economia, não há emprego, não há sociedade.

Há que pensar que não é apenas uma voz a alertar esta grave situação, que se pode tornar irreversível e cada um de nós deve interiorizar o que queremos no mundo dos nossos filhos e dos nossos netos.

 

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