A reunião inaugural do Conselho da Paz criado por Donald Trump para implementar o seu plano para Gaza, marcada para quinta-feira em Washington e presidida pelo próprio Presidente norte-americano, voltou a expor as contradições da União Europeia na relação com a atual administração dos Estados Unidos. Bruxelas olha para a iniciativa com cepticismo, considerando-a potencialmente incompatível com o sistema das Nações Unidas, mas decidiu ainda assim marcar presença.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, optou por enviar a comissária para o Mediterrâneo, Dubravka Suica, à reunião, evitando uma representação ao mais alto nível político. A participação será feita num formato limitado, sem que a Comissão se torne membro do Conselho da Paz, segundo confirmou um porta-voz do executivo comunitário.
Embora o estatuto exato não tenha sido formalmente detalhado, a estratégia seguida por Bruxelas aproxima-se da adotada por outros líderes europeus, como a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, e o presidente romeno, Nicusor Dan, que participarão como observadores. Meloni explicou que Itália foi convidada “como país observador” e considerou tratar-se de “uma boa solução face ao problema que temos de compatibilidade constitucional com a adesão ao Conselho da Paz”. Já Dan afirmou que “a Roménia terá o estatuto de observador” e que reafirmará “o nosso firme apoio aos esforços internacionais para a paz e a nossa disponibilidade para participar no processo de reconstrução da Faixa de Gaza”, justificando a decisão com o respaldo ao processo diplomático estabelecido por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU promovida pelos Estados Unidos e adotada em novembro.
No caso da Comissão Europeia, o porta-voz limitou-se a confirmar que Dubravka Suica “participará na reunião do Conselho da Paz na parte especificamente dedicada a Gaza, mas a Comissão não se tornará membro do Conselho”. Acrescentou que a presença europeia é coerente com o “compromisso de longa data” da União na implementação do cessar-fogo e no apoio à reconstrução pós-guerra.
Ceticismo sobre compatibilidade com a ONU
Nos bastidores, os líderes europeus encaram o novo organismo com profunda reserva. Consideram que poderá representar uma tentativa de Washington substituir as Nações Unidas e enfraquecer a arquitetura multilateral criada após a Segunda Guerra Mundial — um sistema baseado em regras que Trump tem criticado abertamente. Ainda assim, Bruxelas receia ficar afastada das decisões centrais sobre o futuro de Gaza, à semelhança do que sucedeu nas negociações sobre a Ucrânia, apesar de ser o principal doador de ajuda humanitária aos palestinianos e um provável financiador relevante da reconstrução.
Em 2025, a União Europeia lançou um Programa Plurianual de Recuperação e Resiliência Palestiniana no valor de até 1.600 milhões de euros para três anos e, desde outubro de 2023, já disponibilizou 500 milhões de euros em ajuda humanitária. Questionado sobre o significado prático do estatuto de observador — nomeadamente se confere direito de voto ou influência direta — o porta-voz da Comissão respondeu que “o que importa aqui é o que a UE pode aportar às discussões”, sublinhando a experiência europeia e o apoio financeiro já concedido. Ao mesmo tempo, Bruxelas admite manter “um certo número de dúvidas sobre vários elementos da carta do Conselho da Paz, relacionadas com o seu alcance, a sua governação e a sua compatibilidade com a Carta da ONU”, defendendo que essa posição não exclui a disposição para cooperar com Washington na implementação do plano para Gaza.
Divisões internas na União Europeia
Entre os Estados-membros, apenas Bulgária e Hungria aderiram como membros de pleno direito ao Conselho da Paz de Trump. O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, saudou o convite durante uma conferência de imprensa conjunta em Budapeste com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que manifestou apoio à sua reeleição.
No extremo oposto está o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que rejeitou de forma categórica a participação. “Agradecemos o convite, mas recusamos participar nesse Conselho proposto pela administração norte-americana”, declarou após uma cimeira extraordinária em janeiro. Sánchez justificou a decisão com o compromisso de Espanha “com a ordem multilateral, com o sistema das Nações Unidas e com o direito internacional”, argumentando que o Conselho da Paz “está fora do quadro das Nações Unidas” e salientando ainda que a Autoridade Palestiniana não foi incluída na iniciativa.
O arranque formal do Conselho da Paz em Washington coloca assim a União Europeia perante um delicado exercício de equilíbrio diplomático: participar para não perder influência num processo decisivo para Gaza, mas sem legitimar plenamente um formato que considera problemático face ao quadro multilateral das Nações Unidas.














