Bruxelas envia representante ao Conselho da Paz de Trump apesar de dúvidas sobre compatibilidade com a ONU

A reunião inaugural do Conselho da Paz criado por Donald Trump para implementar o seu plano para Gaza, marcada para quinta-feira em Washington e presidida pelo próprio Presidente norte-americano, voltou a expor as contradições da União Europeia na relação com a atual administração dos Estados Unidos.

Pedro Gonçalves
Fevereiro 17, 2026
12:42

A reunião inaugural do Conselho da Paz criado por Donald Trump para implementar o seu plano para Gaza, marcada para quinta-feira em Washington e presidida pelo próprio Presidente norte-americano, voltou a expor as contradições da União Europeia na relação com a atual administração dos Estados Unidos. Bruxelas olha para a iniciativa com cepticismo, considerando-a potencialmente incompatível com o sistema das Nações Unidas, mas decidiu ainda assim marcar presença.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, optou por enviar a comissária para o Mediterrâneo, Dubravka Suica, à reunião, evitando uma representação ao mais alto nível político. A participação será feita num formato limitado, sem que a Comissão se torne membro do Conselho da Paz, segundo confirmou um porta-voz do executivo comunitário.

Embora o estatuto exato não tenha sido formalmente detalhado, a estratégia seguida por Bruxelas aproxima-se da adotada por outros líderes europeus, como a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, e o presidente romeno, Nicusor Dan, que participarão como observadores. Meloni explicou que Itália foi convidada “como país observador” e considerou tratar-se de “uma boa solução face ao problema que temos de compatibilidade constitucional com a adesão ao Conselho da Paz”. Já Dan afirmou que “a Roménia terá o estatuto de observador” e que reafirmará “o nosso firme apoio aos esforços internacionais para a paz e a nossa disponibilidade para participar no processo de reconstrução da Faixa de Gaza”, justificando a decisão com o respaldo ao processo diplomático estabelecido por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU promovida pelos Estados Unidos e adotada em novembro.

No caso da Comissão Europeia, o porta-voz limitou-se a confirmar que Dubravka Suica “participará na reunião do Conselho da Paz na parte especificamente dedicada a Gaza, mas a Comissão não se tornará membro do Conselho”. Acrescentou que a presença europeia é coerente com o “compromisso de longa data” da União na implementação do cessar-fogo e no apoio à reconstrução pós-guerra.

Ceticismo sobre compatibilidade com a ONU
Nos bastidores, os líderes europeus encaram o novo organismo com profunda reserva. Consideram que poderá representar uma tentativa de Washington substituir as Nações Unidas e enfraquecer a arquitetura multilateral criada após a Segunda Guerra Mundial — um sistema baseado em regras que Trump tem criticado abertamente. Ainda assim, Bruxelas receia ficar afastada das decisões centrais sobre o futuro de Gaza, à semelhança do que sucedeu nas negociações sobre a Ucrânia, apesar de ser o principal doador de ajuda humanitária aos palestinianos e um provável financiador relevante da reconstrução.

Em 2025, a União Europeia lançou um Programa Plurianual de Recuperação e Resiliência Palestiniana no valor de até 1.600 milhões de euros para três anos e, desde outubro de 2023, já disponibilizou 500 milhões de euros em ajuda humanitária. Questionado sobre o significado prático do estatuto de observador — nomeadamente se confere direito de voto ou influência direta — o porta-voz da Comissão respondeu que “o que importa aqui é o que a UE pode aportar às discussões”, sublinhando a experiência europeia e o apoio financeiro já concedido. Ao mesmo tempo, Bruxelas admite manter “um certo número de dúvidas sobre vários elementos da carta do Conselho da Paz, relacionadas com o seu alcance, a sua governação e a sua compatibilidade com a Carta da ONU”, defendendo que essa posição não exclui a disposição para cooperar com Washington na implementação do plano para Gaza.

Divisões internas na União Europeia
Entre os Estados-membros, apenas Bulgária e Hungria aderiram como membros de pleno direito ao Conselho da Paz de Trump. O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, saudou o convite durante uma conferência de imprensa conjunta em Budapeste com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que manifestou apoio à sua reeleição.

No extremo oposto está o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que rejeitou de forma categórica a participação. “Agradecemos o convite, mas recusamos participar nesse Conselho proposto pela administração norte-americana”, declarou após uma cimeira extraordinária em janeiro. Sánchez justificou a decisão com o compromisso de Espanha “com a ordem multilateral, com o sistema das Nações Unidas e com o direito internacional”, argumentando que o Conselho da Paz “está fora do quadro das Nações Unidas” e salientando ainda que a Autoridade Palestiniana não foi incluída na iniciativa.

O arranque formal do Conselho da Paz em Washington coloca assim a União Europeia perante um delicado exercício de equilíbrio diplomático: participar para não perder influência num processo decisivo para Gaza, mas sem legitimar plenamente um formato que considera problemático face ao quadro multilateral das Nações Unidas.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.