Bombas capazes de viajar 200 quilómetros: a nova ameaça russa que deixa Ucrânia em sobressalto. O que são as KAB?

KAB são armas lançadas por caças-bombardeiros russos a grandes altitudes, capazes de planar até ao alvo com precisão crescente

Francisco Laranjeira
Novembro 5, 2025
12:05

Nikolai Gogol, escritor ucraniano que se tornou um dos grandes nomes da literatura russa, retratou nas suas obras o folclore inquietante da província de Poltava, no leste da Ucrânia — o mesmo território onde, quase dois séculos depois, caiu uma bomba aérea russa. O incidente, ocorrido a 20 de outubro, provocou alvoroço numa região distante da linha da frente e marcou um novo capítulo no uso das bombas guiadas KAB, agora com alcance superior a 100 quilómetros.

As KAB são armas lançadas por caças-bombardeiros russos a grandes altitudes, capazes de planar até ao alvo com precisão crescente. Inicialmente limitadas a um raio de ação de 50 quilómetros, as versões mais recentes podem atingir distâncias entre 70 e 90 quilómetros. A bomba que atingiu Dikanka, na província de Poltava, ultrapassou essa marca, segundo estimativas do exército ucraniano citadas pelo ‘El Español’. Outros ataques semelhantes foram registados em outubro nas províncias de Kharkiv, Odessa, Mikolaiv, Dnipro e Krivi Rih, todos em zonas afastadas dos combates diretos.

O avanço tecnológico está ligado aos novos módulos UMPK — sistemas incorporados nas bombas Grom-1 e Grom-2 — que permitem trajetórias de até 200 quilómetros. O Ministério da Defesa ucraniano (GUR) confirmou, no mesmo dia do ataque, o início da produção em massa desses componentes. O mecanismo adiciona asas, um pequeno motor a jato e um sistema de orientação, transformando bombas convencionais em armas de precisão de baixo custo.

Além de manterem os aviões russos fora do alcance dos mísseis antiaéreos, as KAB representam uma vantagem económica significativa. De acordo com o portal ucraniano ‘Militarnyi’, citado pelo ‘El Español’, cada bomba equipada com módulo UMPK custa cerca de 250 mil dólares (220 mil euros), enquanto um míssil de cruzeiro pode ascender aos 870 mil euros. O resultado é um aumento exponencial do uso deste armamento: só numa semana de outubro, a aviação russa lançou 1.370 bombas KAB sobre território ucraniano, segundo o presidente Volodymyr Zelensky.

O jornal ucraniano ‘Strana’ descreveu estas bombas como “uma mina de ouro”, destacando que transportam mais explosivos do que os drones Shahed, voam mais depressa e são difíceis de intercetar. Também o site especializado ‘The War Zone’ observou que as KAB de longo alcance são “uma grande dor de cabeça para as defesas aéreas”, pela sua velocidade — entre 400 e 500 quilómetros por hora — e pela ausência de assinatura térmica.

No dia 29 de outubro, um sargento-mor chamado Vadim confirmou, perto de Dikanka, que um desses engenhos tinha caído na região. Segundo os relatórios do exército, a bomba terá falhado o alvo pretendido, a cidade de Poltava, a 20 quilómetros de distância. “É um grande problema, porque não há forma de intercetar mísseis KAB”, afirmou o militar. Apenas no ataque a Odessa a Força Aérea Ucraniana afirmou ter abatido um, embora sem confirmação independente.

As autoridades de Kiev temem agora que a capital, a apenas 200 quilómetros da fronteira russa, possa ser atingida pelas novas bombas ar-ar. “A frente de batalha permanece praticamente inalterada há muito tempo, e Vladimir Putin quer ganhar a qualquer custo”, declarou Oleksi Melnik, codiretor do Centro Razumkov de Estudos Políticos e de Defesa, acrescentando que os bombardeamentos de longo alcance visam “intensificar o terror entre a população e desestabilizar a sociedade ucraniana”.

Em Poltava, o medo mistura-se com a resignação. Serhii, um ex-soldado que agora gere uma oficina de automóveis, resume o sentimento local: “Na guerra, surgem sempre novas armas e, depois, novas formas de as combater; o mesmo acontecerá com estas bombas.”

Pelas aldeias e campos da região, o cenário parece saído de um conto de Gogol: uma pastora, uma idosa de bicicleta, uma sucessão de vozes que conduzem o caminho até ao local onde a bomba caiu. Os restos do engenho, recolhidos pelas forças ucranianas, estão agora a ser analisados em Kiev, no Instituto de Armamento e Tecnologia Militar.

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