A nova reunião de política monetária do Banco Central Europeu (BCE), que termina esta quinta-feira, está a ser acompanhada de perto por quem tem crédito habitação ou pondera comprar casa. O momento chega numa altura em que o mercado português dá sinais mistos: por um lado, os juros dos novos empréstimos recuaram; por outro, os preços das casas continuam elevados e a taxa de esforço mantém-se como um dos principais travões à decisão de compra.
Na última decisão, a 5 de fevereiro de 2026, o BCE manteve inalteradas as três taxas diretoras, com a taxa de depósito nos 2,00%, a taxa principal de refinanciamento nos 2,15% e a facilidade permanente de cedência de liquidez nos 2,40%. A instituição justificou a pausa com uma economia ainda resiliente, mas sublinhou também que o contexto continua marcado por incerteza geopolítica e comercial. Esta quinta-feira serão conhecidos não só os novos sinais do BCE, mas também as projeções macroeconómicas atualizadas para a zona euro.
Em Portugal, o retrato mais recente do Banco de Portugal mostra que a taxa de juro média das novas operações de crédito à habitação desceu para 2,83% em janeiro de 2026, uma ligeira redução face ao mês anterior. Ainda assim, o montante de novos empréstimos à habitação caiu 18,6% em janeiro, para 1.783 milhões de euros, sugerindo que o alívio nos juros, por si só, não está a ser suficiente para acelerar a procura.
A explicação está, em grande medida, fora dos bancos. Segundo o INE, o preço mediano dos alojamentos familiares transacionados em Portugal atingiu 2.111 euros por metro quadrado no terceiro trimestre de 2025, num contexto em que o Índice de Preços da Habitação cresceu 17,7% em termos homólogos no mesmo período. Ou seja, mesmo com prestações potencialmente menos pressionadas pelos juros do que em 2024, o valor de entrada no mercado continua alto para muitas famílias.
É aqui que entra a taxa de esforço, um dos indicadores mais relevantes na concessão de crédito. O Banco de Portugal recorda que o DSTI, o rácio entre o total das prestações mensais e o rendimento líquido do mutuário, continua a ser uma peça central na avaliação do risco. A recomendação macroprudencial em vigor em Portugal mantém limites ao LTV, ao DSTI e à maturidade dos empréstimos, numa tentativa de evitar situações de sobre-endividamento, sobretudo num mercado onde a maioria do crédito habitação continua a ser contratada a taxa variável indexada à Euribor.
Os dados mais recentes confirmam essa pressão. No caso dos mutuários que recorreram à garantia pública do Estado, a taxa de esforço efetiva média chegou a 35% em junho de 2025, quatro pontos percentuais acima da média do total das novas operações de crédito à habitação. O próprio Banco de Portugal assinala que, apesar da descida das taxas de juro desde junho de 2024 e do aumento do rendimento real, a taxa de esforço subiu no primeiro semestre de 2025.
Perante este cenário, fazer contas antes de avançar para a compra deixou de ser apenas uma recomendação prudente e passou a ser uma etapa quase obrigatória. Para perceber quanto do rendimento mensal poderá ficar comprometido com créditos, uma forma simples de começar é recorrer à calculadora de taxa de esforço do ComparaJá, que permite estimar rapidamente o peso das prestações no orçamento familiar e enquadrar melhor a decisão antes de falar com o banco.
Na prática, a decisão do BCE desta semana pode influenciar expectativas para os próximos meses, mas a realidade no terreno mostra que o debate já não se resume à trajetória das taxas de juro. Para muitas famílias, a questão decisiva é outra: mesmo com juros menos agressivos, continua a haver rendimento suficiente para suportar o preço da casa, os restantes encargos mensais e uma margem de segurança no orçamento? É nessa conta que a taxa de esforço volta a ganhar protagonismo.




