‘Assalto’ às ULS: ‘boys’ do Governo invadem administrações hospitalares

As mudanças abrangeram ULS onde os resultados eram considerados positivos, alimentando críticas sobre a ausência de critérios técnicos claros

Revista de Imprensa
Janeiro 28, 2026
10:08

O Governo liderado por Luís Montenegro substituiu as administrações de 19 Unidades Locais de Saúde (ULS) desde outubro de 2024, tendo colocado dirigentes com ligações partidárias em 14 dessas unidades, na maioria dos casos militantes, autarcas ou gestores próximos do PSD. Com a inclusão de um caso associado ao CDS, as nomeações politicamente ligadas aos partidos do Governo representam 79% do total, segundo apurou a revista ‘Sábado’.

As mudanças abrangeram ULS onde os resultados eram considerados positivos, alimentando críticas sobre a ausência de critérios técnicos claros. Em nove casos, os presidentes agora substituídos tinham ligações ao PS ou a anteriores Governos de António Costa. Com novas alterações em curso, o Executivo deverá em breve ter mudado as chefias de dois terços das 39 ULS existentes no país.

Um dos exemplos mais ilustrativos ocorreu na ULS da Guarda. Em 2020, o PSD local denunciava a “politização inadmissível” da administração então nomeada pelo Governo socialista. Já em fevereiro de 2025, o Executivo da AD escolheu para presidir à mesma ULS Rita Figueiredo, jurista e militante do PSD, com percurso em autarquias do partido. A nomeação foi publicamente elogiada pela estrutura distrital, com agradecimentos explícitos ao apoio político.

Resultados positivos não travaram substituições

A acumulação de ligações partidárias é visível desde as primeiras nomeações e foi-se intensificando ao longo do processo. Para Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares, o Governo tem legitimidade para definir a sua estratégia, mas há casos difíceis de compreender. Em unidades como São José, em Lisboa, ou Coimbra, os administradores cessantes eram reconhecidos no setor e apresentavam bons resultados, sem que tenha sido apresentada uma justificação pública clara para a substituição.

Em Gaia/Espinho, a mudança provocou resistência interna, com clínicos a contestarem a saída da equipa liderada por Rui Guimarães, que tinha recuperado a unidade. Uma análise feita em 2024 por Pedro Pita Barros a várias ULS alvo de substituição — Amadora-Sintra, Tâmega e Sousa, Gaia/Espinho e Almada-Seixal — concluiu que o desempenho global era positivo. O economista sublinhou a opacidade do processo e defendeu que alterações na liderança deveriam ser sustentadas por critérios técnicos e evidência objetiva.

A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, afirmou que os resultados assistenciais e económico-financeiros “não são o único fator” nas decisões, sem detalhar quais os restantes critérios. Nos bastidores do setor, a perceção é de que as substituições obedecem sobretudo a dois fatores não assumidos: a pressão das estruturas partidárias e a procura de confiança política.

Pressão partidária e confiança governativa

O peso dos aparelhos locais é apontado como determinante. Adalberto Campos Fernandes, ex-ministro da Saúde, recorda um episódio de 2017 em que perdeu confiança política por não aceitar uma nomeação partidária para uma ULS. A criação da direção executiva do SNS poderia funcionar como travão à partidarização, mas tanto o seu presidente, Álvaro Almeida, como a ministra pertencem ao PSD.

O segundo critério é a confiança política, entendida como alinhamento com as orientações governativas, mesmo em contexto de restrições orçamentais. Fontes do setor relatam que o primeiro-ministro sublinhou a necessidade de “perfeita sintonia” entre as administrações hospitalares e o Governo.

Em alguns casos, essa confiança não implica filiação partidária direta. Em Coimbra, o sucessor de Alexandre Lourenço, apesar dos bons resultados, foi Francisco Matos, médico ligado à direção executiva do SNS, considerado uma escolha de confiança política.

Currículos sob escrutínio

A exigência de confiança política levanta dúvidas quando confrontada com a complexidade da gestão hospitalar. Sem concursos públicos, as escolhas recaem frequentemente sobre redes de contactos governativas. Em alguns casos, os nomeados reúnem experiência reconhecida, mas noutros o currículo suscita reservas no setor.

Na ULS da Cova da Beira, com um orçamento de 122 milhões de euros, foi escolhido João Marques Gomes, académico e militante do PSD sem experiência hospitalar. Em Castelo Branco, a nomeação de Rui Amaro Alves, com apoio do PSD local, causou perplexidade interna. As fontes ouvidas questionam como estes perfis passaram pelo crivo da CRESAP, entidade responsável pela avaliação de candidatos a cargos públicos.

O trânsito entre autarquias e hospitais é particularmente visível no interior. Na ULS do Tâmega e Sousa, com um orçamento de 400 milhões de euros, foi nomeado José Luís Gaspar, ex-autarca do PSD em Amarante. No Alentejo Central, Carlos Mateus Gomes, candidato derrotado do PSD à Câmara de Arraiolos, assumiu a presidência da ULS semanas após as autárquicas.

Resultados mistos após as mudanças

Os efeitos das substituições variam. No Tâmega e Sousa, profissionais relatam funcionamento globalmente positivo, com melhorias em indicadores como o pagamento de cirurgias adicionais. Já em Gaia, os dados até outubro de 2024 apontam para um declínio: menos consultas no tempo recomendado, redução das cirurgias e um aumento significativo das queixas dos utentes. A saída do diretor de Imagiologia desencadeou ainda demissões em cadeia e a quebra dos rastreios do cancro da mama.

Um dos casos mais problemáticos é o da ULS Amadora-Sintra, que serve cerca de meio milhão de pessoas. A equipa nomeada em março de 2025 demitiu-se em dezembro, após meses de tensão interna. Profissionais relatam agravamento das condições de trabalho e escassez de recursos humanos, com impactos diretos no atendimento aos doentes.

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