As restrições ao comércio dos minerais críticos já começaram

Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros Notícias muito recentes, do início deste mês, mencionam o facto de o Ministério do Comércio chinês ter divulgado um

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Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

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Notícias muito recentes, do início deste mês, mencionam o facto de o Ministério do Comércio chinês ter divulgado um comunicado em que refere a impossibilidade de exportação de dois minerais (de gálio e germânio) e de vários outros derivados dos mesmos, sem autorização específica. Saliente-se que a China é o maior produtor mundial de ambos, com mais de 95% da produção de gálio e cerca de 2/3 da produção de germânio. Pretendem assim, os chineses, proteger a sua segurança e interesses. Refira-se que a principal aplicação do gálio está no campo dos semicondutores e na fabricação de LED e lasers, entre outros. Já o germânio pode ser utilizado nas células solares e em sistemas óticos. Isto se olharmos só para as aplicações mais relacionadas com fins energéticos.

Mas não se pense que é só a China a ter este comportamento. Também a Índia, Argentina, Rússia, Vietname e Cazaquistão são países que têm colocado restrições às exportações das matérias-primas consideradas críticas para a transição ecológica, embora a China tenha sido o país com o maior número de restrições à exportação.

As restrições à exportação de matérias-primas críticas aumentaram cinco vezes desde que a OCDE começou a coletar dados em 2009, com 10% das exportações globais de matérias-primas críticas enfrentando agora pelo menos uma medida de restrição à exportação.

Muitas destas restrições à exportação são impostas por razões ambientais ou para preservar os recursos naturais. Os Estados Unidos, apesar de terem os maiores depósitos conhecidos de germânio do mundo, não os têm explorado, já que a sua extração representa uma enorme poluição ambiental. Refiram-se aqui também as chamadas “cidades cancerígenas”, ao redor das minas chinesas na Mongólia Interior, a mais importante área de produção de terras raras do planeta.

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A própria OCDE refere que alguns países estão a travar transição verde devido a restrições à exportação de matérias-primas, muito concentradas geograficamente. Para se fazer a transição para uma economia verde está previsto um aumento de muitas vezes da atual procura por alguns minerais usados pelas tecnologias das renováveis. Por isso a OCDE refere que o desafio de alcançar a neutralidade carbónica vai exigir a escalada significativa da produção e do comércio internacional de matérias-primas.

As restrições à exportação podem afetar os investimentos a nível da mineração a nível global. A possibilidade de imposição de restrições à exportação faz com que os intervenientes no setor avaliem o risco de forma diferenciada. Os investimentos na indústria de mineração, que são necessariamente de longo prazo e exigem grandes volumes de capital e know-how, podem, por exemplo, ser afetados pela possibilidade de mudanças bruscas nos preços, pela imposição de restrições às exportações ou mesmo pela sua paragem repentina.

Tenho vindo a chamar a atenção para este problema dos materiais/minerais críticos em vários dos meus artigos de opinião na Executive Digest. Mas este problema, como era previsto, tem vindo a agudizar-se contribuindo para um conjunto de incertezas que colocam o mundo em ebulição. E todos sabemos a que é que isso pode conduzir. Aumentos de preços, problemas económicos e sociais e, no limite, guerra.

Num artigo da National Geographic Portugal, atualizado em junho deste ano, é inclusivamente referido que “sem as terras raras, retrocederíamos à década de 1960 e a atividade económica tornar-se-ia muito mais lenta”. É também referido que “no campo das energias renováveis, para gerar um gigawatt numa instalação eólica, por exemplo, são necessários 25 vezes mais materiais do que numa central térmica convencional, e muitos deles são escassos”.

Guillaume Pitron no seu livro “The Rare Metals War” apresenta argumentos a favor da posição de que a transição energética e digital foi concebida sem ligação à realidade, concluindo que ao embarcar-se na transição energética nos “lançámos nas garras do dragão chinês”.

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Embora a produção e o comércio das matérias-primas mais críticas se tenham expandido rapidamente nos últimos anos, este crescimento parece não estar a acompanhar a procura projetada para os metais e minerais necessários para transformar a economia global de uma economia dominada por combustíveis fósseis para uma liderada por energia renovável. É este encontro de realidades que urge acertar.

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