Aquecer e comer? Novo relatório mostra “cocktail” de químicos nas refeições de microondas

As refeições prontas para aquecer no microondas tornaram-se sinónimo de conveniência nos dias mais agitados.

Pedro Gonçalves
Março 1, 2026
16:00

As refeições prontas para aquecer no microondas tornaram-se sinónimo de conveniência nos dias mais agitados. No entanto, um novo relatório da Greenpeace Internacional alerta que esta solução rápida pode ter custos invisíveis para a saúde humana e para o ambiente.

O documento analisa 24 estudos científicos recentes sobre os riscos associados a refeições prontas embaladas em plástico. A conclusão traça um cenário preocupante: durante o aquecimento, podem libertar-se centenas de milhares de partículas microscópicas de plástico para os alimentos, juntamente com substâncias químicas potencialmente perigosas.



“As pessoas pensam que estão a fazer uma escolha inofensiva quando compram e aquecem uma refeição embalada em plástico”, afirma Graham Forbes, responsável global pela campanha de plásticos da Greenpeace nos Estados Unidos. “Na realidade, estamos a ser expostos a um ‘cocktail’ de microplásticos e químicos perigosos que nunca deveriam estar dentro ou perto da nossa comida.”

Partículas invisíveis e químicos perigosos
Entre os dados citados no relatório destaca-se um estudo que identificou a libertação de entre 326 mil e 534 mil partículas micro e nanoplásticas para simulantes alimentares após apenas cinco minutos de aquecimento no microondas. As nanoplásticas, pela sua dimensão extremamente reduzida, podem potencialmente penetrar em órgãos e entrar na corrente sanguínea.

Os plásticos utilizados em contacto com alimentos contêm também mais de 4.200 substâncias químicas consideradas perigosas. Segundo o relatório, a maioria destas substâncias não está regulamentada especificamente no contexto das embalagens alimentares. Algumas estão associadas a cancro, infertilidade, perturbações hormonais e doenças metabólicas.

Além disso, pelo menos 1.396 substâncias químicas provenientes de plásticos em contacto com alimentos já foram detetadas no organismo humano. A evidência científica crescente associa a exposição a estas substâncias a perturbações do neurodesenvolvimento, doenças cardiovasculares, obesidade e diabetes tipo 2.

 

Os autores do relatório alertam que a designação “próprio para microondas” pode transmitir uma sensação de segurança enganadora aos consumidores.

Segundo o documento, esta indicação refere-se, regra geral, à estabilidade estrutural do recipiente — ou seja, à sua capacidade de não deformar ou derreter durante o aquecimento — e não à ausência de libertação de microplásticos ou aditivos químicos para os alimentos.

O relatório sublinha ainda que temperaturas mais elevadas, tempos de aquecimento prolongados, recipientes desgastados e alimentos ricos em gordura — que tendem a absorver mais substâncias químicas — aumentam significativamente a quantidade de partículas plásticas e aditivos libertados.

Poluição ao longo de todo o ciclo de vida
O impacto não se limita ao momento do consumo. As embalagens plásticas utilizadas nas refeições prontas poluem ao longo de todo o seu ciclo de vida: desde a extração de combustíveis fósseis para a sua produção, passando por processos industriais intensivos em energia, até à eliminação final.

Por serem frequentemente compostas por múltiplas camadas de materiais, estas embalagens descartáveis são difíceis de reciclar. Quando se degradam, fragmentam-se em micro e nanoplásticos que se acumulam no solo, rios e oceanos, prejudicando animais e regressando ao sistema alimentar.

Mesmo quando integrados na chamada economia circular, os plásticos perdem qualidade ao longo dos ciclos de reciclagem e podem voltar a libertar aditivos perigosos em novos produtos.

Regulação considerada insuficiente
O relatório considera que a orientação regulamentar global relativa à libertação de microplásticos a partir de embalagens alimentares é insuficiente, apontando ainda que a negação por parte da indústria terá contribuído para atrasos na adoção de medidas.

Na União Europeia, os plásticos destinados ao contacto com alimentos são regulados com base em “limites de migração” para substâncias químicas conhecidas, definidos segundo pareceres da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA). No entanto, não existem atualmente limites específicos para partículas microplásticas.

Em resposta enviada por correio eletrónico à Euronews Green, a EFSA afirma estar “consciente da crescente preocupação relativamente à migração de microplásticos a partir das embalagens alimentares”, questão que já tinha identificado como prioritária em 2021.

Desde então, a autoridade europeia tem destacado lacunas de conhecimento para a indústria alimentar, incluindo a necessidade de métodos de teste harmonizados, dados abrangentes sobre exposição ao longo da cadeia alimentar e avaliações robustas dos riscos para a saúde.

A EFSA sublinha também a importância de compreender de que forma o processamento alimentar e as embalagens contribuem para a libertação de micro e nanoplásticos.

Após uma revisão recente da literatura científica, a entidade aponta várias lacunas que precisam de ser colmatadas, nomeadamente o estudo da exposição a micro e nanoplásticos provenientes de materiais em contacto com alimentos, para que possam ser estabelecidos níveis seguros de migração.

Está em curso uma avaliação dos potenciais riscos para a saúde associados à presença de microplásticos nos alimentos, na água e no ar, realizada pela EFSA a pedido do Parlamento Europeu. Os resultados são esperados até ao final de 2027.

Produção de plástico continua a crescer
O relatório surge num contexto de aumento acelerado da produção global de plástico. Segundo a Agência Internacional da Energia, a produção mundial deverá mais do que duplicar até 2050. As embalagens representam atualmente 36% de todo o plástico produzido.

O mercado das refeições prontas embaladas em plástico, avaliado em mais de 160 mil milhões de euros, deverá crescer para quase 300 mil milhões de euros até 2034, de acordo com dados da consultora internacional Towards FnB.

Em 2024, foram produzidas globalmente 71 milhões de toneladas de refeições prontas, o equivalente a uma média de 12,6 quilogramas por pessoa, segundo dados de mercado publicados pela Statista.

Apelo a controlos mais rigorosos
Perante este cenário, a Greenpeace defende que os plásticos em contacto com alimentos devem ser abrangidos por controlos globais mais rigorosos no futuro Tratado Global sobre Plásticos das Nações Unidas. A organização propõe a eliminação progressiva de aditivos perigosos, em vez de confiar sobretudo na reciclagem a jusante.

“O risco é claro, as consequências são elevadas e o momento de agir é agora”, conclui Graham Forbes.

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