Acusações de exploração, abuso e tráfico de menores: Mulheres processam a Opus Dei na Argentina

A Opus Dei, uma influente organização católica ultraconservadora fundada em 1928 pelo padre espanhol Josemaría Escrivá, está a ser processado por 43 mulheres na Argentina, que acusam a instituição de exploração, abuso e tráfico de menores entre 1972 e 2015.

Pedro Gonçalves

A Opus Dei, uma influente organização católica ultraconservadora fundada em 1928 pelo padre espanhol Josemaría Escrivá, está a ser processado por 43 mulheres na Argentina, que acusam a instituição de exploração, abuso e tráfico de menores entre 1972 e 2015.

Segundo relatos das vítimas, ouvidas pela Reuters, e um extenso inquérito conduzido por procuradores federais argentinos, as mulheres, na sua maioria provenientes de famílias pobres e rurais, foram aliciadas com promessas de educação e oportunidades, mas acabaram forçadas a trabalhar longas horas sem remuneração, submetidas a rígido controlo e práticas de mortificação física.



Andrea Martínez, de 50 anos, recorda que, aos 12 anos, o primeiro presente que recebeu da Opus Dei foi um vestido cor-de-rosa, seguido de um rigoroso horário que detalhava todas as suas actividades diárias. Aos 16 anos, foi-lhe entregue um cilício – uma corrente metálica com picos para usar em torno da coxa – e um pequeno chicote de corda para flagelação durante a oração.

“Disseram-me que estudaria e progrediria. Pensei que, com educação, poderia ajudar a minha família,” declarou Martínez ao The Guardian. “Mas tornei-me como uma escrava. Tratavam-me como uma escrava, sem qualquer capacidade de pensar ou agir.”

De acordo com o relatório dos procuradores, a Opus Dei terá montado uma estrutura dedicada ao recrutamento de raparigas vulneráveis, explorando a sua situação socioeconómica. As vítimas afirmam que foram sujeitas a dias de trabalho de até 12 horas, cozinhando e limpando para membros seniores da organização, com apenas três horas de aulas diárias, e proibidas de ler qualquer coisa além de livros infantis ou textos religiosos.

Martínez recorda: “Assim que a minha mãe saiu, entregaram-me o meu horário. Trabalhávamos nove horas por dia, sete dias por semana.”

As comunicações com as famílias eram rigidamente controladas. Cada rapariga podia fazer apenas uma chamada telefónica e enviar uma carta por mês – sempre sujeitas à censura. “Desde o início disseram-nos que não podíamos falar da Opus Dei aos nossos pais. Tínhamos de ser obedientes e dóceis,” acrescenta Martínez.

O advogado das mulheres, Sebastián Sal, descreveu as chamadas “escolas vocacionais” como “viveiros” para a Opus Dei. “Tentavam mantê-las como crianças pequenas,” afirmou, acrescentando que justificavam a situação alegando ser “uma decisão de Deus”.

Pressão para a vida de numerárias auxiliares
Após quatro anos nas instituições da Opus Dei, Martínez foi obrigada a tornar-se numerária auxiliar – uma posição que implicava a dedicação total a tarefas domésticas para os membros superiores e sacerdotes, em regime de celibato e sem liberdade pessoal.

Apesar do seu sonho de estudar Psicologia, Martínez foi informada de que “não havia outra opção”, que era “demasiado pobre”, que “não tinha homem para casar” e que, se não aceitasse, a sua família estaria “condenada ao inferno”.

Lucía Giménez, Alicia Torancio e Beatriz Delgado, outras três das 43 mulheres que moveram o processo, também relataram experiências semelhantes de controlo extremo. Claudia Carrero, recrutada aos 13 anos, partilhou: “Disseram-me que aprenderia gestão hoteleira e viajaria. Mas não me levaram para estudar, levaram-me para trabalhar.”

Carrero relatou que não lhe foi permitido passar o Natal com a família nem assistir ao funeral da avó. “Muitas vezes negavam-nos os pedidos, dizendo que era um sacrifício que devíamos oferecer a Deus,” lamentou.

Além disso, as mulheres eram frequentemente transferidas de cidade em cidade, e até para outros países como Paraguai e Uruguai, para impedir que criassem laços de amizade.

Fuga e consequências
Martínez conseguiu abandonar a Opus Dei aos 23 anos, após uma década. Saiu apenas com 10 pesos argentinos, sem roupas normais e sem qualificações reconhecidas. “Nunca recebi salário. Não sabia como usar dinheiro nem como falar com pessoas. Tinha 23 anos, mas agia como uma criança de 12,” confessou.

O relatório dos procuradores conclui que as 43 mulheres foram submetidas a condições de vida “comparáveis à servidão”, sob o pretexto de “dedicação” e “salvação espiritual”, sem salários justos nem direitos básicos.

As autoridades argentinas pediram que quatro antigos responsáveis da Opus Dei na Argentina sejam interrogados no âmbito deste processo.

Em resposta às acusações, a Opus Dei emitiu um comunicado no seu site oficial negando categoricamente as alegações. A organização afirma que as escolas estavam aprovadas pelas autoridades argentinas e que as mulheres aderiram à vocação espiritual de numerárias auxiliares de forma “livre e voluntária”, podendo reafirmar ou abandonar essa decisão ao longo dos anos.

Além disso, sustenta que as mulheres recebiam remuneração pelos seus trabalhos e que não existiam barreiras à sua saída da instituição.

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