Por Ivo Bernardo, Co-Founder & Partner da DareData
A inteligência artificial tornou-se, nos últimos dois anos, uma espécie de resposta automática a qualquer problema organizacional. Perante qualquer desafio, a reação é quase sempre a mesma: aplicar IA. A questão é que, na maioria dos casos, ainda estamos à espera de uma varinha mágica que resolva todos os problemas de uma organização.
A recente parceria entre o FC Porto, a FEUP e a DareData é relevante precisamente por contrariar esse impulso. Num setor como o desporto, onde a aplicação de inteligência artificial não é evidente para muitos, a decisão não deve começar por modelos ou algoritmos. Deve começar por estruturar a base de informação e de conhecimento.
A inteligência artificial não falha por falta de capacidade tecnológica. Falha porque amplifica aquilo que encontra. Se os dados são incompletos, inconsistentes ou mal organizados, é isso que os modelos vão escalar dentro das organizações. Se as decisões se basearem em dados frágeis, passam a ser mais rápidas, mas não necessariamente melhores.
Por isso, o verdadeiro risco de hoje não é não usar inteligência artificial. É institucionalizar decisões com base em dados e conhecimento que não estão preparados para esse nível de exigência.
É aqui que a discussão sobre plataformas de dados e governance ganha relevância. Não como um tema técnico, mas como um tema de gestão. Quem pode aceder a quê, com que contexto, com que regras e com que garantias de qualidade. Como se integram sistemas que nunca foram pensados para comunicar entre si. Como se constrói uma visão única sobre a organização. E como preparamos o futuro, num dia em que os nossos dados devem evoluir com o mundo e com a nossa organização de forma quase instantânea.
Este trabalho raramente é visível. Não gera rápidas provas de conceito, mas é o que define se a inteligência artificial vai ser uma ferramenta de transformação ou apenas mais uma camada de complexidade.
O caso do FC Porto mostra uma abordagem madura. Antes de escalar o uso de inteligência artificial verticalmente, ou seja, em cada uma das áreas organizacionais, existe um investimento claro na construção de uma arquitetura de dados com uma visão integrada entre as dimensões desportiva e corporativa, que permitirá escalar a IA transversalmente. Não se trata apenas de adotar tecnologia, mas de criar condições para que essa tecnologia tenha impacto real e a longo prazo.
Este tipo de abordagem torna-se ainda mais relevante em setores onde a digitalização não foi historicamente central. Nestes contextos, a inteligência artificial não entra como um acelerador imediato. Entra como consequência de um processo de organização, integração e disciplina sobre os dados.
Num momento em que a inteligência artificial está a ganhar espaço em decisões cada vez mais críticas, essa solidez deixa de ser um detalhe e passa a ser uma condição.
A adoção de IA vai continuar a acelerar. Mas a diferença não estará em quem adota primeiro, estará em quem constrói melhor a base que a sustenta e se prepara para o dia seguinte à primeira implementação.
Porque, no final, a inteligência artificial não resolve a falta de estrutura. Torna-a apenas mais visível.




