A era da Saúde Digital em Portugal

Opinião de Vera Moura, EIT Health InnoStars Innovation Lead

André Manuel Mendes

Vivemos num mundo onde a era Digital conquistou rapidamente um vasto território nas áreas do Saber e da Técnica, trazendo mais vantagens do que desconforto à maioria das pessoas. Por isso, a adoção de um estilo de vida dependente da Tecnologia Digital foi relativamente fácil e poucos remanescem na vida antes desta Nova Era. Todavia, a área da Saúde apresenta-se mais particular do que qualquer outra. Se, por um lado, os avanços tecnológicos são bem-vindos e desejáveis, por outro, o medo (por vezes irracional e pouco sustentado) de que o digital substitua o humano levanta barreiras invisíveis que não se colocam noutros domínios. Por este motivo, ousarei dizer que jamais o progresso digital na área da Saúde se dissociará do conselho ético e do consentimento do cidadão (neste caso, o paciente).

O cenário ideal, e que é necessário esclarecer antes de mergulharmos no mar das opções existentes e em desenvolvimento, é o da Tecnologia Digital ser um auxiliar ao diagnóstico e ao tratamento dos doentes Se definirmos que o profissional de saúde (o médico, o fisiatra, o enfermeiro ou qualquer outro ser humano credenciado nos cuidados de saúde) terá a última palavra sobre o doente que está diretamente sob a sua supervisão, veremos certamente o progresso ser acolhido com maior entusiasmo e menor ceticismo.



Desde a invenção do microscópio, do raio X, da cirurgia com laser, entre tantos outros, o mundo tem permitido que as portas se abram aos avanços da Tecnologia em Saúde. Em Portugal, os passos mais significativos em Saúde Digital começaram a ser dados há duas décadas. Sendo um país moderadamente inovador (de acordo com o European Innovation Scoreboard), a qualidade das nossas empresas e ideias tem capturado o interesse de parceiros e investidores. No final do ano passado (2021) vimos nascer o primeiro unicórnio (empresa avaliada em mais de mil milhões de dólares) na área da saúde: a SWORD Health. Esta startup portuguesa criou a primeira solução digital para o tratamento de patologias músculo-esqueléticas, fechou uma ronda de investimento de série D (ronda comummente utilizada para potenciar a expansão e preparar uma eventual saída/venda) de 163 milhões de dólares, sendo avaliada em dois mil milhões de dólares. Fundada em 2015, foi o sexto unicórnio com costela portuguesa e a startup portuguesa a atingir este estatuto de forma mais rápida.

 

Mas como é que tudo começou? Que características distintas encontramos em Portugal que o capacitam a tornar-se mais Digital?

Este pequeno país foi pioneiro na área da Telemedicina em 1998, tendo criado o I Grupo de Trabalho para estudo da Telemedicina em 2001 e os primeiros coordenadores regionais em 2008. De facto, este papel que a SPMS (Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, EPE) desenvolve ainda no âmbito da Telessaúde é tão relevante que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) referencia-o como um bom exemplo de desenvolvimento da telemedicina através do governo, no documento de trabalho “Bringing health care to the patient. An overview of the use of telemedicine” no artigo intitulado “Telemedicine promotion through governance: an example from Portugal”.

Ainda nesta área, há a destacar a implementação de programas como a prescrição eletrónica de medicamentos (disponível desde 2016) e a informatização do sistema de Saúde, que contribuem para a maior agilidade dos cuidados de saúde e integração dos dados e diminuição dos erros nos cuidados prestados ao paciente.

A par destes avanços, novos conceitos foram introduzidos e ganharam rápida aceitação no vocabulário português, tais como Inteligência Artifical, Machine Learning, Big Data, internet-of-medical-things, Software-as-a-medical-device, telehealth.

Em tempos de Pandemia, estas inovações demonstraram utilidade e foram rapidamente acolhidas pelos cidadãos como métodos de redução da interação pessoal e protetores da qualidade de vida pessoal e comunitária. De facto, desde 2020 até agora, dados do Parlamento Europeu estimam que o número de aplicações em saúde digital quadruplicou, o que levanta questões de acesso aos dados médicos dos utilizadores, de segurança (cibersegurança), de certificação das aplicações e de reembolso da utilização das mesmas como dispositivo médico. Em países como a Alemanha e a França estão a ser tomadas medidas regulamentares para a certificação das aplicações digitais. O objetivo deste processo é garantir que as soluções digitais possam ser prescritas por médicos tal como se de medicamentos se tratassem, assegurando assim o reembolso por parte dos sistemas nacionais de saúde e das seguradoras. É inevitável que Portugal siga esta tendência europeia, sobretudo no período pós-pandémico, em que o mundo mudou e novos hábitos foram criados. Se em tempos existiu alguma relutância em adotar soluções digitais pelo carácter impessoal que lhes está associado, a pandemia veio demonstrar como podem ser muito cómodas e rápidas. Hoje em dia, há quem não troque uma consulta online marcada para o próprio dia ou para o dia seguinte por uma consulta pessoal num hospital sobrelotado no próximo mês. Esta nova realidade é tão vantajosa para o utilizador/doente como para o sistema de saúde, uma vez que o comportamento mais digital-savy possibilita uma redução de custos quer para hospitais públicos, privados e seguradoras, quer para governos e entidades reguladoras. Se bem utilizada e adaptada às necessidades reais de cada sistema de saúde, a Saúde Digital pode tornar-se uma das ferramentas chave para controlar os custos de eficiência nos sistemas de saúde nacionais.

Não obstante, estamos perante uma mudança de paradigma da forma tradicional de praticar a medicina, o que obriga a uma mudança de mentalidade, comportamentos e da cultura do nosso país. Por um lado, temos os profissionais de saúde com recurso a ferramentas novas que mudam e sofrem atualizações constantemente, e acompanhar o progresso torna-se mandatório, mas com um nível de dedicação crescente. Nada é estático nem permanente. Por outro lado, o doente está mais envolvido, mais informado e comunica melhor com a equipa que o trata. Os dados fluem entre os profissionais de saúde e em tempo real. Estamos, portanto, a criar uma nova realidade que, além de ser rapidamente aceite, cria necessidade de mais soluções. É, pois, necessário alicerçar de forma segura a construção deste mundo digital e dar passos firmes para que o edifício não desmorone. Neste sentido, várias instituições europeias lançaram cursos e formação especializada em temas diversos no âmbito da Inteligência Artificial para Profissionais de Saúde, tais como: utilização de dados para modelos preditivos de doença, prevenção e gestão da saúde mental, otimização do tratamento e monitorização do progresso da doença. Esta iniciativa foi apoiada pelo EIT Health e liderada pela GE Healthcare onde participaram mais de 1750 profissionais de toda a Europa.

Neste novo ano, o EIT Health InnoStars irá também promover uma série de mesas redondas com o intuito de mapear oportunidades de prescrição de terapias digitais e aplicações em saúde digital na Europa Central, Sul e Leste Europeu.

 

Quais são os casos de sucesso em Saúde Digital que podem criar valor além-fronteiras?

Nos últimos anos, surgiram em Portugal empresas promissoras em diversos domínios da Saúde Digital.

A iLOF, que ganhou 1 milhão de euros do EIT Health em 2019, desenvolve uma tecnologia baseada em Inteligência Artificial e algoritmos para auxiliar de forma não invasiva a estratificação de doentes para ensaios clínicos, tendo dado os primeiros passos na Doença de Alzheimer.

A startup Nevaro que adaptou as soluções do seu portfolio ao contexto atual da pandemia, lançou o Holy, uma aplicação móvel para gerir o burnout ou síndrome de exaustão no contexto profissional. A Nevaro participou no EIT Health OpenAPI Bootcamp, um programa de aceleração para a integração entre mercados na área de Saúde Digital e internacionalização para os mercados da Suécia, Reino Unido e Irlanda.

Estas duas empresas, lideradas por mulheres, foram distinguidas com prémios nacionais e em contexto internacional, com fundos angariados para a colocação no mercado das tecnologias digitais.

A Clynx que desenvolve soluções de Saúde Digital com base na gamificação do processo de Fisioterapia para o doente e que podem ser adaptadas pelo profissional de saúde, levantou uma ronda de 150 mil euros após a participação no EIT Health InnoStars Awards.

Podemos ainda citar a doDoc, empresa que integrou o Programa Bridghead do EIT Health e usa a IA ao serviço do processo de escrita médica (medical writing) para acelerar a edição e revisão de forma eficaz e com múltiplos utilizadores.

E, claro, o mais recente caso de sucesso português: a SWORD Health, uma empresa fundada por Virgilio Bento, que oferece soluções de cuidados virtuais a doentes com lesões músculo-esqueléticas e que angariou 163 milhões de euros na última ronda de investimento, tornando-se a primeira empresa unicórnio portuguesa na área da Saúde.

 

As oportunidades! Os sinais de mudança – coisas positivas!!

No mundo em plena crise pandémica, a era digital tornou-se não apenas necessária mas fundamental, graças à diminuição do contacto interpessoal com maior eficácia e segurança para os utilizadores. Hoje em dia, mais de 65% dos portugueses recorrem aos serviços digitais na área da Saúde, privilegiando a receita sem papel, o Registo de Saúde Eletrónico e a aplicação MySNS. Esta tendência sugere que mais de metade da população aceita com agrado a existência de tecnologia auxiliar no serviço de saúde prestado. Mais ainda, se considerarmos a tendência criativa e o crescente número de startups em Portugal com projeção para o mercado internacional, assistimos a um início auspicioso para a implementação em Portugal e para a expansão de novas soluções de Saúde Digital a partir de Portugal.

 

Vera Moura

EIT Health InnoStars Innovation Lead

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.