A bioenergia do nosso contentamento

Opinião de Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

Executive Digest
Janeiro 22, 2026
10:30

Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

Uma notícia do primeiro dia deste ano de 2026 deu o mote para estas linhas. Noticiava que a bioeconomia já representa 5% do PIB da União Europeia (UE) sustentando atualmente cerca de 17 milhões de empregos na UE e contribuindo com 863 mil milhões de euros para a economia comunitária. Outros dados, de abril de 2025 sustentavam que a biomassa poderia evitar custos de 169 mil milhões de euro por ano na transição energética europeia, tendo como base um estudo da Universidade de Chalmers (Suécia), publicado na revista Nature Energy.

A biomassa, uma importante fonte de energia renovável da UE parece continuar a ser subvalorizada nas estratégias climáticas. Por exemplo, em Portugal, as centrais de biomassa, ou caldeiras industriais e domésticas que a utilizam, se operadas e geridas de acordo com as melhores práticas, podem até ser consideradas virtuosas, pois ajudam a valorizar a floresta e contribuem para a diminuição dos riscos de incêndio.

Mas não se pode trabalhar neste domínio como no conhecido caso da DRAX no Reino Unido. Neste caso trata-se da reconversão de uma central de queima de carvão para a queima de pellets. Porém, em causa está a origem dos pellets que são ali queimados. Como no Reino Unido não há suficiente biomassa para alimentar essa central, são importados pelletts dos Estados Unidos, Canadá e até de Portugal. Ora isso não faz sentido, havendo até estudos que apontam, para o caso do nosso país que de um ponto de vista ecológico/ambiental/económico a biomassa de uma central deveria ser proveniente, no máximo, de um raio até 50-75 km dessa central. Esta deverá ser assim uma referência a ter em mente.

Existem em Portugal, indústrias (ex. têxteis e agroalimentares) que optaram pela utilização da biomassa florestal residual para reduzirem os custos de energia (vapor) para os seus processos produtivos, mas depois de analisadas também as outras opções de descarbonização.

Num cálculo efetuado por um especialista, partindo de gás natural a 55 €/MWh, uma eficiência de uma caldeira de gás natural de 90%, teremos vapor a 61 €/MWh. Se considerarmos a biomassa florestal a 60 €/ton, o seu poder calorífico, uma eficiência das caldeiras de biomassa de 85% e mesmo considerando os custos de operação e manutenção mais elevados desta, o vapor assim gerado custará pouco mais de metade do que no caso anterior.

Por isto se considera que uma opção renovável para a produção de calor industrial passará por esta via. Para além das vantagens da substituição de importações de combustíveis.

Mas também temos ainda mais uma possibilidade interessante, que é a captura e o armazenamento do dióxido de carbono associado à combustão desta biomassa. Este carbono, removido após a produção de energia, pode ser reutilizado conjuntamente com a utilização de hidrogénio (verde) para a produção de combustíveis (e-fuels) para vários fins.

No entanto, o desenvolvimento e expansão da bioenergia deve ter em atenção os riscos associados, como a possível pressão, devido aos recursos renováveis adicionais, na área florestal ou mesmo nos solos agrícolas, e mesmo na biodiversidade. Porém, se bem desenhados, os instrumentos de política podem e devem incentivar práticas que promovam o uso o mais eficiente possível dos recursos ao mesmo tempo que reduzam ou eliminem os impactos negativos. Presentemente, o setor bioenergético está já a funcionar num contexto de exigências crescentes de sustentabilidade, como se pode depreender pelas Diretivas Europeias RED II e RED III.

O RNC2050 sublinha o papel dos biocombustíveis e e-fuels em setores de difícil eletrificação (ex. aviação, marítimo).  Tendo em atenção a nova RED III e as metas nacionais de incorporação dos biocombustíveis, e-fuels e eletrificação nos transportes, poderá haver algum ajuste (?). Trata-se, portanto, de um processo dinâmico.

No entanto, existe a oportunidade de fomentar a produção local de biocombustíveis e combustíveis renováveis de baixo carbono (dinamização deste setor e emprego qualificado). Mas se os custos de produção não permitirem uma redução significativa, dificilmente acontecerá uma transição para a mobilidade baseada nestes combustíveis.

Como se depreende, há muitos fatores a ser levados em linha de conta, o que não facilita a vida aos decisores!

 

 

 

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