As ondas de calor e a seca que estão a marcar o verão de 2026 na Europa já estão a provocar impactos económicos concretos, sobretudo através da redução dos níveis dos rios, do aumento dos custos logísticos e da pressão sobre a produção de energia.
Segundo uma análise da Allianz Global Investors, as condições extremas deste verão mostram que os riscos climáticos deixaram de ser apenas um cenário de longo prazo e passaram a fazer parte das condições normais de funcionamento de empresas e economias.
Na Alemanha, o principal foco de preocupação está no Reno, a mais importante via fluvial interior da Europa. No ponto de Kaub, os níveis da água caíram abaixo do mínimo registado em 2018, obrigando as embarcações a circular com cargas reduzidas.
Reno baixo pressiona indústria e logística
A menor profundidade do rio está a aumentar os custos de transporte e a dificultar o abastecimento de produtos químicos, combustíveis e outros materiais essenciais para a indústria.
A região industrial de Ludwigshafen, onde se concentra uma parte importante do setor químico alemão, está entre as zonas mais expostas, assim como a distribuição de combustíveis no oeste do país.
A Allianz Global Investors recorda que episódios anteriores de níveis extremamente baixos no Reno coincidiram com períodos de menor produção no setor químico, mostrando como os problemas de transporte podem rapidamente alastrar à atividade industrial.
Impacto na Alemanha pode chegar a 0,4% do PIB no terceiro trimestre
A instituição não antecipa um choque económico abrupto, mas estima um impacto moderado e com algum atraso.
As projeções apontam para uma perda entre 0,1% e 0,4% do PIB alemão no terceiro trimestre. O Kiel Institute estima um efeito de 0,1% a 0,2%, equivalente a entre mil milhões e dois mil milhões de euros.
Antes do agravamento da seca, as previsões de crescimento para a Alemanha estavam a melhorar, com uma possível revisão em alta de cerca de 0,3 pontos percentuais.
A economia poderia crescer perto de 1% este ano e 1,4% no próximo. A seca poderá, contudo, manter o crescimento alemão abaixo de 1% em 2026.
Empresas estão mais preparadas do que em 2018
Existem alguns fatores que podem limitar o impacto.
As empresas reforçaram a capacidade de resposta depois dos episódios de 2018 e 2022 e o transporte rodoviário ao domingo voltou a ser autorizado como forma de aliviar as dificuldades logísticas.
A Allianz Global Investors admite, por isso, que parte das perdas de curto prazo possa ser recuperada posteriormente.
Calor pode pesar mais na inflação do que no crescimento
Para o Banco Central Europeu, o principal efeito poderá surgir através dos preços.
A seca tende a pressionar os preços dos alimentos e da energia em vários países europeus. No setor energético, os baixos níveis dos rios e o aumento da temperatura da água podem reduzir a produção nuclear e hidroelétrica.
Ao mesmo tempo, o impacto sobre o crescimento é negativo.
Na leitura da Allianz Global Investors, um BCE mais preocupado com riscos inflacionistas em alta do que com uma perda moderada de crescimento poderá interpretar este cenário como um argumento adicional para dois novos aumentos das taxas de juro ainda este ano.
Empresas terão de adaptar-se a secas mais frequentes
A análise sublinha que o verão de 2026 não deve ser encarado como um episódio isolado.
Se as secas e os períodos de níveis baixos nos rios se tornarem mais frequentes e intensos, empresas instaladas em zonas expostas poderão enfrentar interrupções recorrentes, perdas de produção, custos logísticos e energéticos mais elevados e menor utilização de ativos.
Mesmo quando as perdas imediatas são recuperadas, estes episódios podem influenciar decisões de investimento a longo prazo.
Risco climático ganha peso nas decisões dos investidores
A Allianz Global Investors está, por isso, a reforçar a atenção dada ao risco climático físico e à capacidade das empresas para resistirem e adaptarem-se.
O foco recai sobretudo sobre setores como produtos químicos, energia, aço, refinação e bens de capital.
Entre as questões analisadas estão a existência de cenários climáticos atualizados, a preparação para incêndios florestais e a capacidade para responder a níveis baixos dos rios e temperaturas elevadas da água.
Incêndios obrigam empresas a rever planos de emergência
Nas regiões com maior risco de incêndio, as empresas podem ser obrigadas a evacuar instalações e interromper a produção.
A Allianz Global Investors considera essencial que existam planos de emergência claros, responsabilidades definidas, coordenação com as autoridades locais e formação regular dos trabalhadores.
A preparação para estas situações passa também por perceber se as estratégias climáticas existentes continuam adequadas à medida que os riscos físicos aumentam.
Abastecimento de matérias-primas é outro risco
Os níveis baixos dos rios colocam ainda dificuldades específicas às empresas que dependem do transporte fluvial de matérias-primas.
Setores como a química, siderurgia, petróleo e produtos refinados podem enfrentar problemas de abastecimento, obrigando as empresas a procurar fornecedores alternativos ou a rever os processos logísticos.
Também o transporte de componentes grandes ou pesados pode tornar-se mais difícil em períodos prolongados de seca.
Para a Allianz Global Investors, avaliar a capacidade das empresas para antecipar, absorver e adaptar-se a estes choques está a tornar-se essencial para proteger o valor dos investimentos no longo prazo.














