Uma bomba matou há 81 anos 140 mil pessoas em Hiroshima. O arsenal atual equivale a 135 mil bombas iguais

Oitenta e um anos depois, a cidade japonesa volta a parar esta quinta-feira para recordar as vítimas do primeiro ataque nuclear da História — num momento em que o número de armas atómicas prontas a utilizar voltou a aumentar

Executive Digest

Eram 08h15 da manhã de 6 de agosto de 1945. Os elétricos já circulavam, os trabalhadores chegavam aos escritórios e as crianças preparavam-se para mais um dia de escola quando um clarão mais intenso do que o sol engoliu Hiroshima. Oitenta e um anos depois, a cidade japonesa volta a parar esta quinta-feira para recordar as vítimas do primeiro ataque nuclear da História — num momento em que o número de armas atómicas prontas a utilizar voltou a aumentar.

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O bombardeiro B-29 Enola Gay, dos Estados Unidos, lançou sobre Hiroshima a bomba de urânio conhecida como “Little Boy”. Dezenas de milhares de pessoas morreram nos primeiros instantes, vítimas da explosão, das queimaduras e da destruição provocada pela onda de choque. Até ao final de 1945, o número de mortos terá atingido cerca de 140 mil, embora a cidade reconheça que nunca foi possível determinar com exatidão a dimensão total da tragédia.

Três dias depois, a 9 de agosto, uma segunda bomba, chamada “Fat Man”, foi lançada sobre Nagasaki. O Japão anunciou a rendição a 15 de agosto, aproximando do fim a II Guerra Mundial. Os ataques continuam, porém, a alimentar um debate histórico sobre a sua necessidade militar e sobre a possibilidade de a rendição japonesa ter sido alcançada por outros meios.

Em Hiroshima, a cerimónia anual começa às 08h00 no Parque Memorial da Paz. Às 08h15, a hora exata da explosão, o sino da paz toca, as sirenes soam em toda a cidade e é respeitado um minuto de silêncio. Seguem-se a leitura da Declaração de Paz e a libertação de pombas brancas.

A cerimónia deste ano decorre quando a geração que testemunhou diretamente o ataque está a desaparecer. Os hibakusha, nome dado aos sobreviventes dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki, dedicaram décadas a contar o que viram e a alertar para as consequências humanas das armas nucleares.

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Mikio Saiki tinha 13 anos e encontrava-se em casa, a cerca de dois quilómetros do centro da explosão, quando tudo ficou branco e o edifício desabou. O pai sofreu queimaduras graves e, no dia seguinte, Saiki deparou-se com corpos carbonizados ao longo da estrada quando tentou chegar à escola, onde centenas de alunos e funcionários tinham morrido.

Durante décadas, o sobrevivente evitou falar sobre o que testemunhara, atormentado pela culpa de ter sobrevivido. Já depois dos 90 anos, decidiu finalmente contar a sua história, motivado pelas imagens de cidades destruídas e de crianças que perderam as famílias em conflitos recentes. “Precisamos de mostrar ao mundo o verdadeiro terror das armas nucleares”, afirmou.

O alerta dos sobreviventes ganha uma nova urgência. O mais recente relatório do Monitor da Proibição de Armas Nucleares concluiu que, no início de 2026, os nove países com armamento nuclear dispunham de 9.745 ogivas que poderiam ser utilizadas pelas respetivas forças militares — mais 141 do que um ano antes.

O poder explosivo combinado desse arsenal equivale a mais de 135 mil bombas como a que destruiu Hiroshima. Deste total, 4.012 ogivas estavam já instaladas em sistemas de lançamento, incluindo mísseis balísticos terrestres, submarinos, plataformas móveis e bases de bombardeiros.

As armas nucleares estão concentradas nos Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel. Várias destas potências estão a modernizar ou a aumentar os respetivos arsenais, numa altura de agravamento das tensões na Europa, no Médio Oriente e na região do Indo-Pacífico.

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O perigo não se limita à possibilidade de uma decisão deliberada de lançar um ataque. Os especialistas alertam também para erros de cálculo, falhas técnicas, ciberataques ou uma escalada rápida de conflitos convencionais. Quanto maior for o número de ogivas instaladas e prontas a disparar, menor será o tempo disponível para confirmar informações e impedir uma resposta precipitada.

A preocupação é partilhada pelos sobreviventes. No 80.º aniversário do ataque, a organização japonesa Nihon Hidankyo, distinguida com o Nobel da Paz pelo trabalho contra as armas nucleares, advertiu que restava pouco tempo para transmitir às novas gerações a experiência daqueles que viveram a destruição. A idade média dos sobreviventes já ultrapassava então os 86 anos.

O mundo mudou profundamente desde aquele minuto de agosto de 1945, mas as armas capazes de repetir Hiroshima não desapareceram. Tornaram-se mais poderosas, mais rápidas e, em alguns casos, permanecem em estado de alerta permanente. Oitenta e um anos depois, a cidade japonesa não pede apenas que se recordem os seus mortos: pede que a sua história nunca volte a ser repetida.

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