A crise da água em Almada acabou por destapar muito mais do que problemas nas condutas. A escassez que afetou milhares de moradores tornou-se o símbolo de uma autarquia mergulhada em conflitos internos, acusações de má gestão e uma guerra pela sucessão de Inês de Medeiros, numa altura em que o PS vê crescer a contestação dentro e fora de portas.
Poucos dias depois de iniciar o terceiro mandato, em outubro de 2025, recordou a revista ‘Sábado‘, Inês de Medeiros protagonizou um episódio que ainda hoje é recordado nos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS). Segundo relatos de funcionários, a presidente da Câmara terá perdido a calma por causa da distribuição de gabinetes, exigindo um escritório que estava ocupado por adjuntos do novo presidente dos SMAS, cargo entregue à CDU no âmbito do acordo que garantiu maioria ao executivo socialista.
Meses depois, o município enfrentaria uma situação bem mais grave: sucessivas falhas no abastecimento de água levaram Almada a decretar situação de alerta. Os problemas resultaram de perdas de água muito acima da média nacional, investimento insuficiente na renovação da rede e de um furo colapsado que nunca foi recuperado.
Ministra aponta falta de entendimento político
A ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, atribuiu parte das responsabilidades às dificuldades de relacionamento entre Almada e a vizinha Câmara do Seixal, liderada pela CDU. Segundo a governante, a incapacidade de entendimento impediu a resolução atempada de um problema essencial para o abastecimento do concelho.
Já a autarquia recusou comentar relatos sobre alegados episódios de exaltação da presidente, limitando-se a afirmar que “não responde a boatos”. Ainda assim, fontes socialistas ouvidas pela revista descrevem Inês de Medeiros como uma dirigente de temperamento difícil e imprevisível.
Oposição acusa presidente de fugir ao escrutínio
Outro foco de polémica surgiu quando a presidente decidiu reduzir para o mínimo legal as reuniões camarárias abertas ao público e transmitidas online.
A autarca justificou a decisão com a necessidade de tornar o trabalho “mais eficaz”, mas os partidos da oposição acusam-na de querer limitar o escrutínio público, sobretudo numa altura em que dezenas de moradores afetados pelas tempestades compareciam regularmente nas reuniões para exigir respostas.
Acusações de favorecer ‘boys’ do PS
A gestão de recursos humanos da autarquia também está sob fogo.
Segundo a investigação da ‘Sábado’, Almada recebeu, desde 2021, dezenas de dirigentes, assessores e técnicos provenientes da Câmara de Lisboa, de gabinetes ministeriais de governos socialistas e de estruturas ligadas ao PS.
Há antigos colaboradores de Fernando Medina, técnicos de ministérios de António Costa e dirigentes próximos de Ana Catarina Mendes e de Ivan Gonçalves a ocupar cargos de chefia na autarquia e em empresas municipais. A Câmara responde que todas as nomeações respeitaram integralmente a lei e os critérios de qualificação exigidos.
Demissões, ruturas e guerra pela sucessão
O ambiente interno também se deteriorou ao longo dos últimos anos.
Vários chefes de gabinete e assessores abandonaram funções antes do previsto, alguns incompatibilizados com Inês de Medeiros. Entre eles encontram-se antigos colaboradores provenientes de gabinetes ministeriais, enquanto outras figuras próximas do PS passaram a criticar abertamente a liderança da autarca.
Um dos episódios mais marcantes foi protagonizado por Débora Rodrigues, líder da bancada socialista na Assembleia Municipal, que, numa mensagem interna entretanto tornada pública, afirmou que “a perceção pública é que Almada está pior, mais suja, menos habitável e agora sem água”.
PS divide-se e procura alternativa para 2029
Nos bastidores trava-se agora uma disputa pela liderança futura do município.
Inês de Medeiros aposta no atual vice-presidente, Filipe Pacheco, como sucessor. Porém, Ivan Gonçalves, antigo líder da concelhia socialista e número dois das listas, continua a reunir apoios significativos.
Perante o agravamento das divisões internas e o desgaste da atual liderança, cresce igualmente no PS distrital e nacional a ideia de avançar, nas autárquicas de 2029, com uma figura de âmbito nacional para tentar preservar um dos municípios mais importantes para os socialistas.














