Durante décadas, cidades como Berlim, Viena ou Londres dominaram o imaginário da espionagem internacional. Mas uma investigação divulgada pelo ‘El Español’, baseada em trabalhos do ‘The New York Times’ e do meio de investigação russo ‘The Insider’, aponta agora para um novo epicentro da atividade dos serviços secretos de Moscovo: Tóquio.
Segundo a investigação, a capital japonesa transformou-se numa plataforma discreta para adquirir componentes eletrónicos de elevada precisão que acabam integrados em mísseis e drones utilizados pela Rússia na guerra contra a Ucrânia.
Porque é que Moscovo escolheu o Japão?
A explicação começa na tecnologia.
O Japão continua a ser um dos maiores produtores mundiais de componentes eletrónicos de elevada precisão, muitos deles classificados como tecnologia de dupla utilização — produtos destinados à indústria civil, mas que também podem ser aplicados em sistemas militares.
Contudo, há outro fator considerado decisivo: ao contrário de muitos países ocidentais, o Japão não dispõe de uma agência centralizada de informações nem de uma legislação robusta contra a espionagem, tornando mais difícil detetar operações clandestinas.
“90% das armas russas utilizam peças japonesas”
Em maio, Vladislav Vlasyuk, responsável ucraniano pela política de sanções, afirmou à agência ‘Kyodo’ que cerca de 90% das armas russas contêm componentes japoneses.
As autoridades ucranianas dizem ter entregue ao Governo japonês provas físicas de circuitos eletrónicos produzidos por empresas do país encontrados em mísseis e drones usados contra alvos civis.
Todas as empresas envolvidas garantem cumprir rigorosamente as regras internacionais de exportação e negam qualquer venda direta à Rússia.
A unidade secreta do GRU instalada em Tóquio
A investigação identifica como principal responsável a 20.ª Direção, uma unidade secreta do GRU — os serviços de informações militares russos.
Os seus agentes apresentam-se como diplomatas, empresários ou representantes de empresas russas, mas a missão é outra: adquirir ou roubar tecnologia japonesa sujeita a restrições e fazê-la chegar à Rússia através de países terceiros.
À frente da operação estará Maksim Filchenkov, um oficial do GRU que surge oficialmente como funcionário da companhia aérea estatal Aeroflot.
A Aeroflot continua a servir de cobertura
Embora os voos da Aeroflot para o Japão estejam suspensos devido às sanções internacionais, a companhia mantém um escritório em Tóquio.
Segundo a investigação, essa presença continua a servir de cobertura para operações de espionagem, repetindo um método utilizado desde os tempos da União Soviética.
Os jornalistas seguiram depois o rasto até uma pequena empresa japonesa de transporte de mercadorias, a Proco Air.
O proprietário admite conhecer Filchenkov há vários anos, mas nega qualquer envolvimento em operações ilegais ou no transporte de materiais proibidos.
Como funciona a rota até Moscovo
O alegado esquema é relativamente simples.
Os agentes russos compram componentes legais no Japão, classificam-nos como outro tipo de mercadoria e enviam-nos para países onde os controlos alfandegários são menos rigorosos, como o Vietname, o Sri Lanka ou o Usbequistão.
A partir daí, empresas ligadas à Aeroflot asseguram o transporte final até à Rússia.
Segundo a investigação, o Vietname tornou-se uma das principais portas de entrada deste tipo de tecnologia para Moscovo.
O Japão está do lado da Ucrânia, mas enfrenta um problema
Kiev afirma ter enviado, desde abril de 2025, pelo menos 16 notificações oficiais ao Ministério dos Negócios Estrangeiros japonês, acompanhadas por imagens que mostram componentes japoneses encontrados em armamento russo.
Além disso, vários Governos ocidentais alertaram Tóquio para empresas que poderão estar, consciente ou inconscientemente, a facilitar este circuito de exportações.
Apesar disso, as autoridades japonesas enfrentam limitações legais para atuar.
Um país sem uma verdadeira agência de espionagem
Grande parte do problema remonta ao período posterior à II Guerra Mundial.
Após a derrota, o Japão desmantelou o seu poderoso aparelho de segurança e nunca voltou a criar um serviço nacional de informações comparável aos existentes nos Estados Unidos ou na Europa.
Hoje, mais de 33 mil funcionários trabalham em estruturas espalhadas pela polícia, Ministério da Defesa e Ministério dos Negócios Estrangeiros, mas sem uma entidade única responsável por coordenar toda a informação.
A resposta passa pelo maior reforço da segurança em décadas
A atual primeira-ministra, Sanae Takaichi, pretende alterar esse cenário.
Herdeira política de Shinzo Abe, defende uma profunda reforma das estruturas de segurança e está a avançar com um plano para criar uma agência nacional de informações centralizada, contando com apoio técnico de aliados como os Estados Unidos, a Alemanha e a Austrália.
A iniciativa acompanha uma transformação mais ampla da política japonesa, que inclui o maior programa de rearmamento militar do país desde o fim da Segunda Guerra Mundial, perante as ameaças representadas pela Rússia, China e Coreia do Norte.














