Sobreviveu a uma tentativa de assassínio atribuída a Israel, perdeu familiares em vários ataques israelitas e tornou-se uma das figuras mais influentes do Hamas durante a guerra em Gaza. Agora, Khalil al-Hayya foi escolhido para liderar o movimento islamista palestiniano, sucedendo a Yahya Sinwar e derrotando nas eleições internas o histórico dirigente Khaled Meshaal.
A eleição de al-Hayya, apontou o ‘France24’, representa uma mudança importante no equilíbrio interno do Hamas. Natural da Cidade de Gaza, mas atualmente baseado em Doha, no Qatar, o novo líder é considerado um dos principais arquitetos da estratégia política do grupo durante a guerra e mantém uma relação próxima com o regime iraniano, o principal aliado militar e financeiro do movimento.
De negociador da guerra a líder do Hamas
Nos últimos meses, Khalil al-Hayya foi o rosto das negociações indiretas para um cessar-fogo entre o Hamas e Israel, liderando os contactos com os mediadores internacionais.
Ao mesmo tempo, integrava o conselho de cinco dirigentes que assumiu a liderança do Hamas após a morte de Yahya Sinwar, morto pelas forças israelitas em 2024.
Segundo um alto responsável do Hamas citado pela AFP, al-Hayya foi eleito “por uma maioria esmagadora” e deverá assumir formalmente funções na próxima semana.
A eleição decorreu através de um processo altamente secreto, justificado pelo Hamas com as sucessivas operações israelitas que eliminaram vários dos seus principais dirigentes políticos e militares.
Escapou a um ataque israelita em Doha
O novo líder esteve muito perto de morrer em setembro de 2025, quando Israel tentou eliminar vários membros da direção do Hamas num ataque em Doha, capital do Qatar.
Al-Hayya sobreviveu, tal como Khaled Meshaal, mas o ataque matou várias pessoas, entre elas um dos seus filhos e o seu chefe de gabinete.
Foi apenas mais um episódio numa vida marcada pela violência.
Durante os anos 90 passou três anos em prisões israelitas e já tinha sobrevivido a outras duas tentativas de assassínio, em 2007 e 2014.
Também perdeu vários familiares em operações militares israelitas. Em 2007, um ataque contra a sua casa, no norte da Faixa de Gaza, matou a mulher e três dos seus filhos. Outro filho morreu num ataque israelita durante a atual guerra.
Um dos fundadores do Hamas
Nascido na Cidade de Gaza em 1960, Khalil al-Hayya cresceu numa família religiosa e estudou na Universidade Islâmica de Gaza.
Mais tarde concluiu um mestrado na Jordânia e um doutoramento em Direito Islâmico, no Sudão.
É considerado um dos fundadores do Hamas e desempenhou um papel político importante desde o início dos anos 2000.
Em 2006 liderou a bancada parlamentar do movimento depois da vitória eleitoral que acabaria por precipitar a rutura definitiva entre o Hamas e a Fatah, partido do presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas.
O homem que aproxima o Hamas do Irão
Ao contrário de Khaled Meshaal, que defendia uma maior aproximação aos países árabes do Golfo, al-Hayya é visto como um dirigente muito próximo de Teerão.
Essa ligação ficou evidente ao longo da guerra, tendo sido recebido várias vezes pelas autoridades iranianas, incluindo pelo líder supremo Ali Khamenei.
A sua eleição é encarada por vários analistas como um sinal de que o Hamas pretende manter e reforçar a aliança estratégica com o Irão.
Ao mesmo tempo, continua a preservar relações com o Hezbollah, no Líbano, e com países como Qatar, Egito e Argélia.
Um dirigente pragmático, mas defensor da luta armada
Apesar da proximidade ao Irão, dirigentes do Hamas descrevem al-Hayya como um político pragmático, conservador e respeitado tanto pela ala política como pelos comandantes militares.
“Não se deixa levar facilmente”, resumiu um responsável do movimento citado pela AFP.
Ainda assim, nunca escondeu que considera a luta armada uma parte essencial da estratégia do Hamas.
Um Hamas perante decisões decisivas
Khalil al-Hayya assume a liderança numa altura particularmente delicada.
A guerra deixou Gaza devastada, as negociações para um cessar-fogo definitivo continuam bloqueadas e Israel insiste que o Hamas terá de abandonar o poder e entregar as armas para que exista uma solução política.
Entretanto, o movimento já anunciou que irá dissolver o atual conselho de liderança e iniciar uma profunda reorganização interna, processo que deverá arrancar nos próximos dias durante uma reunião do gabinete político em Istambul.
A eleição de al-Hayya poderá definir o rumo do Hamas numa das fases mais críticas da sua história, num momento em que o movimento tenta equilibrar a pressão militar israelita, as negociações internacionais e a influência crescente do Irão.














