O dinheiro chega quando a floresta já está a arder: porque falha Portugal todos os verões

Para Manuel Sousa, arquiteto paisagista, professor do ISAG – European Business School e especialista em Turismo, Planeamento e Desenvolvimento, Portugal continua a concentrar demasiados recursos no combate e poucos na gestão permanente do território

Francisco Laranjeira

Quinze concelhos de cinco distritos encontravam-se esta segunda-feira em perigo máximo de incêndio rural e mais de 80 estavam sob perigo muito elevado, num cenário que deverá agravar-se com a subida das temperaturas ao longo da semana.

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O alerta volta a colocar Portugal perante um flagelo que regressa todos os verões, mobilizando milhares de operacionais e milhões de euros quando as chamas já avançam sobre florestas, aldeias e explorações agrícolas.

Mas o problema começa muito antes da primeira ignição. Para Manuel Sousa, arquiteto paisagista, professor do ISAG – European Business School e especialista em Turismo, Planeamento e Desenvolvimento, Portugal continua a concentrar demasiados recursos no combate e poucos na gestão permanente do território.

“O combate aos incêndios é um problema global que tem causas profundas e difíceis de resolver”, afirma, à ‘Executive Digest’. Entre essas causas estão “a falta de recursos humanos capacitados nos territórios de baixa densidade, o envelhecimento das populações rurais, a baixa capacidade financeira” e o reduzido investimento na proteção e valorização da floresta.

Na leitura do especialista, o país continua a responder às manifestações mais visíveis da crise sem resolver aquilo que permite que os incêndios adquiram dimensões catastróficas.

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“Este é o resultado da ausência de políticas públicas adequadas à resolução dos problemas de fundo”, sustenta Manuel Sousa, acrescentando que as medidas continuam “essencialmente focadas no investimento nos meios de combate direto ao fogo”.

Oito vezes mais para o combate

O desequilíbrio torna-se evidente quando se comparam os valores apontados pelo especialista. Segundo Manuel Sousa, são gastos anualmente cerca de 550 milhões de euros no apoio às corporações de bombeiros, incluindo a aquisição e manutenção de viaturas, quartéis e equipamentos de proteção individual.

A este montante acrescentam-se os custos do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal e cerca de 80 milhões de euros destinados à contratação de meios aéreos, refere.

Em sentido contrário, “com os sapadores florestais, o Estado gasta anualmente cerca de 38 milhões de euros”.

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“É um valor cerca de oito vezes inferior ao que é gasto no combate”, alerta. Para o professor do ISAG, Portugal deveria “investir mais na gestão da floresta, para não ter a dimensão do custo de combate aos incêndios que tem atualmente”.

O argumento ganha peso num momento em que os números nacionais continuam longe das metas traçadas. Uma avaliação divulgada pela associação ambientalista Zero concluiu que os incêndios de 2025 fizeram Portugal consumir cerca de 98% do limite de área ardida previsto para toda a década entre 2020 e 2030. Nesse ano, arderam aproximadamente 271 mil hectares e os 44 maiores incêndios concentraram 91% da área destruída.

Uma floresta construída para arder

Para compreender a vulnerabilidade atual, Manuel Sousa recua à transformação da paisagem portuguesa ao longo do último século.

“Portugal era um país desflorestado no início do século XX”, recorda. Durante o Estado Novo avançou-se com uma forte arborização, “focada principalmente na utilização de resinosas, espécies de combustão rápida”.

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A partir da década de 1970, acrescenta, chegaram as grandes plantações de eucalipto, outra espécie com elevada capacidade de combustão. O resultado foi uma alteração profunda do território, sobretudo nas regiões Norte e Centro.

“A floresta portuguesa passou a ser uma floresta com elevado risco de combustão”, explica.

Contudo, a escolha das espécies é apenas parte do problema. A transformação social e económica das zonas rurais retirou do território as atividades que, durante décadas, ajudavam a controlar a vegetação.

“Com o êxodo rural, os espaços florestais deixaram de fornecer os matos para a cama dos animais e o pastoreio foi também sendo gradualmente reduzido”, afirma Manuel Sousa. “A carga combustível foi-se acumulando e o risco de grandes incêndios intensificou-se.”

Existia anteriormente “uma economia rural agrícola que sustentava a limpeza da floresta”. Com o despovoamento, essa economia desapareceu, mas “não foi substituída por nenhuma nova economia”, com exceções pontuais, como as instalações eólicas e algumas indústrias extrativas.

Proprietários envelhecidos, terrenos desconhecidos

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A obrigação legal de limpar os terrenos tem, segundo o especialista, efeitos limitados porque parte de um pressuposto que não corresponde à realidade: o de que todos os proprietários são conhecidos, dispõem de recursos e conseguem intervir nas suas parcelas.

“A obrigatoriedade de limpeza da floresta, na prática, não funciona”, diz.

Há proprietários que não são localizados, outros que desconhecem a localização ou os limites das propriedades que herdaram e muitos que estão envelhecidos ou descapitalizados.

“Muitos proprietários estão incapazes de controlar a carga combustível”, sublinha Manuel Sousa, que também dirige críticas ao poder público: “O próprio Estado não tem sido exemplo de boa gestão dos seus espaços florestais, pela descontinuidade das rotinas de limpeza.”

Esta fragmentação torna particularmente difícil criar uma gestão integrada, estabelecer descontinuidades na vegetação ou garantir a manutenção regular de áreas que, durante grande parte do ano, não produzem rendimento.

“Deverá ser a parte pública a assumir este custo”

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Quando o proprietário não tem dimensão, dinheiro ou incentivo económico para gerir a terra, Manuel Sousa considera que o setor público terá de assumir uma parte da responsabilidade.

“Deverá ser a parte pública a assumir este custo, com uma solução económica associada”, defende.

Uma das possibilidades passa pelo aproveitamento da biomassa resultante das limpezas para produzir energia. O especialista aponta o exemplo de Allariz, na Galiza, onde uma central de biomassa utiliza estilha proveniente da gestão de terrenos públicos e privados para fornecer energia ao concelho.

Com este modelo, explica, “passou a haver um bom controlo de espécies invasoras”, enquanto a vegetação autóctone e a biodiversidade animal recuperaram.

“Neste concelho, praticamente acabaram os incêndios florestais e os custos de limpeza são suportados pela venda da energia”, afirma. Ao mesmo tempo, os proprietários deixaram de suportar diretamente os encargos de manutenção dos povoamentos.

O exemplo mostra, segundo Manuel Sousa, que a gestão da floresta não tem necessariamente de representar apenas uma despesa. Pode ser integrada numa cadeia económica que financie a prevenção e crie atividade nos territórios de baixa densidade.

Proibir queimadas não basta

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A mão humana continua a estar na origem de grande parte dos incêndios. Manuel Sousa estima que cerca de metade resulte do uso negligente do fogo, nomeadamente através de queimas e queimadas.

“Todos os anos morrem pessoas queimadas” durante estas práticas, salienta.

A proibição poderia reduzir o número de ocorrências, mas deixaria por resolver o destino dos sobrantes agrícolas e florestais. “Se se proibirem as queimas e queimadas, haveria naturalmente menos incêndios, mas fica a necessidade de dar uma solução aos sobrantes”, explica.

Entre as alternativas está a cedência de biotrituradores aos agricultores, uma prática já seguida por alguns municípios, e a criação de um mercado para a estilha.

Esse material poderia ser utilizado “para o aquecimento de edifícios públicos e privados, para a produção de energia elétrica, para a compostagem e para a fertilização dos solos”.

Em 2025, o incendiarismo e o uso do fogo representaram, em conjunto, cerca de 78% das ocorrências com causa determinada, segundo a análise da Zero ao relatório do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais. As ignições associadas ao uso negligente do fogo aumentaram 27% nesse ano.

Carvalhos a proteger aldeias

A proteção das populações exige também mudanças no desenho da paisagem. Manuel Sousa defende que as aldeias sejam rodeadas por espécies folhosas de combustão lenta, como os carvalhos, reduzindo a velocidade de progressão das chamas nas zonas habitadas.

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“As aldeias deverão ter uma envolvência de espécies folhosas de combustão lenta”, afirma.

Estas espécies deveriam igualmente ser utilizadas para criar separações entre manchas de árvores de combustão rápida, aproveitando linhas de água e redes viárias.

Além de funcionarem como zonas de contenção, essas faixas poderiam tornar-se “corredores ecológicos para a circulação de fluxos biogenéticos”.

“Com espécies de copa densa, impede-se o rápido desenvolvimento da vegetação arbustiva e herbácea”, explica. A sombra ajuda ainda a conservar a humidade no solo, criando locais onde a propagação de um incêndio pode ser mais facilmente controlada.

Pastorícia, carbono e turismo

A floresta pode igualmente gerar rendimento através de atividades compatíveis com a preservação ambiental, sustenta Manuel Sousa.

“É possível diminuir os riscos e viabilizar a floresta através de legislação, fiscalização e planeamento territorial e económico”, afirma.

As soluções passam por arborizações adequadas às características de cada local e às necessidades do mercado, pela venda de créditos de carbono, pelo turismo e pela recuperação da pastorícia.

O regresso de rebanhos permitiria produzir carne e leite enquanto reduz a vegetação arbustiva que alimenta os incêndios. Para que seja viável, contudo, a atividade terá de ganhar escala, incorporar tecnologias como cercas virtuais e recuperar a dignidade económica e social da profissão.

O turismo também pode ajudar a financiar a conservação. “A paisagem é uma das grandes motivações de viagem e, por isso, a existência da atividade turística gera receita que pode ajudar a mantê-la”, observa.

Além disso, o turismo tende a valorizar a vegetação autóctone, por esta fazer parte “da identidade do território e do seu património natural e paisagístico”.

Nos espaços turísticos, acrescenta, há maior pressão para garantir simultaneamente a qualidade visual e a segurança. Os privados têm incentivos para afastar espécies de combustão rápida e investir em pontos de água e meios de autoproteção.

O custo de continuar a adiar

A perda provocada pelos incêndios não termina na madeira que desaparece ou nos edifícios atingidos. Manuel Sousa enumera consequências sobre a biodiversidade, o solo, a água, o ar, a paisagem e o clima.

“Os incêndios florestais causam grandes prejuízos pela perda de valor da madeira, pela diminuição da biodiversidade, pela perda de solo, pela contaminação do ar e da água e pela diminuição da recarga dos aquíferos”, afirma.

A estes impactos somam-se as emissões de carbono e a destruição da qualidade cénica da paisagem, que afetam também a capacidade de as regiões atraírem visitantes, habitantes e investimento.

Portugal entra, assim, em mais uma fase de risco elevado carregando um problema que não começa com a temperatura nem termina quando o último fogo é dado como extinto.

Para Manuel Sousa, enquanto o país não reconstruir uma economia rural capaz de pagar a gestão do território, continuará a gastar centenas de milhões de euros na resposta à emergência, todos os anos, depois de as chamas já terem começado.

E, sem essa mudança, o verão português continuará a ser medido em hectares ardidos, aldeias ameaçadas e operacionais enviados para uma floresta que permanece economicamente abandonada.

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