REPORTAGEM: Gulbenkian/70 anos: Investigador Paulo Cunha sublinha impacto de bolsas de estudo no cinema português

A Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) ajudou a impulsionar o cinema português antes do 25 de Abril de 1974, mas o maior impacto, nos seus 70 anos, foi o apoio à formação, defendeu o investigador Paulo Cunha em entrevista à Lusa.

Executive Digest com Lusa

*** Sílvia Borges da Silva, da agência Lusa ***

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Lisboa, 18 jul 2026 (Lusa) — A Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) ajudou a impulsionar o cinema português antes do 25 de Abril de 1974, mas o maior impacto, nos seus 70 anos, foi o apoio à formação, defendeu o investigador Paulo Cunha em entrevista à Lusa.


A propósito dos 70 anos da Fundação Calouste Gulbenkian, Paulo Cunha, doutorado em Estudos Contemporâneos, considera que as bolsas de estudo e os cursos de formação promovidos pela instituição foram a iniciativa mais impactante no apoio ao desenvolvimento do cinema português.


“O mais importante foi o apoio sistemático que a Gulbenkian tem dado ao cinema português desde os anos 1960 com bolsas de estudo, mas não é o mais mediático. O mais mediático foi o apoio à produção”, considerou.

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A Fundação Calouste Gulbenkian foi criada em 1956 por testamento do filantropo e empresário Calouste Sarkis Gulbenkian e, entre as prioridades definidas, estavam a educação, a atribuição de bolsas, a criação de um museu, de bibliotecas itinerantes e de serviços culturais, nomeadamente de dança e música.


Entre os primeiros beneficiários de bolsas de estudo de cinema no estrangeiro, a partir dos anos 1960, estão nomes como o realizador António-Pedro Vasconcelos, o produtor António da Cunha Telles, o encenador Jorge Silva Melo, a realizadora Solveig Nordlund, o diretor de fotografia Acácio de Almeida e a atriz Maria Cabral.


Era numa década em que uma nova geração de jovens realizadores e autores que rejeitava o cinema mais conotado com os valores nacionalistas do regime de Salazar, e que procurava alternativas de financiamento de formação e de produção.


A par do benefício das bolsas de formação, essa geração de realizadores, produtores e cineclubistas queria ainda um maior envolvimento financeiro da FCG no cinema, e o assunto mereceu discussão num encontro organizado pelo Cineclube do Porto em 1967.


Desse encontro saiu o “Ofício do Cinema em Portugal” entregue à administração da FCG em 1968, no qual os signatários diziam que a fundação tinha “todas as condições” para “restituir à cinematografia nacional a dignidade a que tem direito” e a projeção internacional que lhe era vedada por causa da censura.

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António de Macedo, Seixas Santos, Paulo Rocha, António-Pedro Vasconcelos, Alfredo Tropa, Manoel de Oliveira, Fernando Lopes e José Fonseca e Costa estão entre os que assinaram este ofício.


Era “aquela geração que queria romper com o cinema português instituído, financiado pelo Estado Novo. Não conseguiam financiamento por apoios públicos, viram ali uma oportunidade, perceberam que havia ali alguma abertura da Gulbenkian para intervir no setor”, afirmou Paulo Cunha.


Propunham que a fundação tivesse um serviço de cinema — um Centro Gulbenkian de Cinema -, mas o então presidente da administração e advogado José Azeredo Perdigão sugeriu-lhes a criação de uma cooperativa independente, autónoma, com financiamento da Gulbenkian, o que deu origem ao Centro Português de Cinema.


Além da uma proposta de financiamento da cooperativa a três anos, a FCG criou uma secção de cinema no Serviço de Belas Artes, atribuindo funções a João Bénard da Costa, que se manteve ligado à instituição até ao início dos anos 1990, dinamizando ciclos, publicações e apoio a projetos.


Para Paulo Cunha, autor do livro “Uma Nova História do Novo Cinema Português” (2018), a Gulbenkian tinha “um estatuto de exceção” e era “um agente cultural muito forte” na sociedade portuguesa, mas não queria substituir-se ao regime, que também tinha o seu próprio financiamento ao setor.

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Os realizadores “perceberam que a Gulbenkian lhes daria liberdade, mas a fundação não tinha intenções de financiar a cooperativa eternamente. A ideia era dar uma espécie de um impulso, porque percebeu que esta geração, se não tivesse aquele dinheiro, não conseguiria filmar”, explicou Paulo Cunha.


Esse impulso ao cinema português permitiu a produção de 12 longas-metragens e aconteceu sobretudo entre 1971 e 1974, o período que acabou por ser designado “Anos Gulbenkian”, com filmes como “Passado e Presente”, de Manoel de Oliveira, “O Recado”, de José Fonseca e Costa, “Brandos Costumes”, de Seixas Santos, e “O Mal-amado”, de Fernando Matos Silva.


Nesse início dos anos 1970, a Gulbenkian também atribuiu subsídios ou apoiou realizadores como João César Monteiro, António Campos, Paulo Rocha, António Reis e Margarida Cordeiro.


“Sem o apoio da Gulbenkian, o cinema português não acabaria, porque existiam outros mecanismos, mas seguramente esta geração seria perdida. Quando acontece o 25 de Abril de 1974, a geração que vai ocupar o poder é esta, porque era a mais ativa e dinâmica. Os filmes que estavam a conseguir internacionalizar-se, ir aos festivais, eram estes”, lembrou.


Se não tivesse havido este financiamento da Gulbenkian no final do Estado Novo, Paulo Cunha acredita que “muitos realizadores iriam emigrar ou redirecionar as suas carreiras para outros setores e esta geração ia desaparecer, haveria uma falha geracional”.


Apesar de o apoio desse período ser um dos mais mediáticos da relação da Gulbenkian com o cinema português, Paulo Cunha reforça a ideia de que “a atividade mais impactante”, mas também a mais invísível, foi a da formação e das bolsas de estudo, “porque mudam a vida individual das pessoas”.

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Já em democracia, as bolsas de financiamento de formação beneficiaram, por exemplo, João Mário Grilo, Catarina Alves Costa, Rui Poças e Catarina Mourão, que, nos anos 1990, teve uma bolsa para um mestrado em Cinema em Bristol, no Reino Unido, depois de se ter formado em Direito, como contou à Lusa.


“Mudou o meu rumo, lembro-me que me tinha inscrito na Ordem dos Advogados, para fazer o estágio, mas queria mesmo ir para fora estudar cinema com uma bolsa”, recordou a realizadora.


Catarina Mourão lembra que na altura havia pouca oferta formativa em cinema e que a bolsa ajudou a custear despesas por um ano no Reino Unido, voltando depois a Portugal, onde cofundou a Associação pelo Documentário Português e a produtora Laranja Azul e prosseguiu carreira como realizadora e docente.

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