Marco Martins estreia “A Ilha” na aldeia mineira do Lousal em Grândola

As antigas Minas do Lousal, no concelho de Grândola, recebem hoje a estreia do espetáculo “A Ilha”, criado pelo encenador Marco Martins, a partir das memórias dos habitantes daquela antiga aldeia mineira, divulgou a organização.

Executive Digest com Lusa

As antigas Minas do Lousal, no concelho de Grândola, recebem hoje a estreia do espetáculo “A Ilha”, criado pelo encenador Marco Martins, a partir das memórias dos habitantes daquela antiga aldeia mineira, divulgou a organização.

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A estreia está marcada para as 19:00, sendo proposta uma performance multidisciplinar que cruza teatro, fotografia, música, artes visuais e testemunhos reais da comunidade local.


“Criado em estreita ligação com os habitantes da aldeia, ‘A Ilha’ transforma o espaço das minas num lugar de evocação e partilha”, assinalou a associação cultural Ainda Não Tem Nome, com sede em Grândola, no distrito de Setúbal. 


Em comunicado enviado à agência Lusa, a associação revelou que a performance conta com os artistas André Cepeda, Gabriel Ferrandini, Henrique Pavão e João Pimenta Gomes. 


Já a dramaturgia resulta de uma investigação desenvolvida por Afonso Cruz, Joana Pereira Bastos e Raquel Moleiro, a partir de testemunhos recolhidos junto da população.

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Segundo a associação cultural, o espetáculo baseia-se nos testemunhos de Alberto Rosa Pereira, Avelino Espada, Eduardo Silva, Etelvina Guerreiro (Vina), Fatinha Vaz, Gracinda Dias, José Guerreiro, José Pacheco, Manuel João Vaz e Maria Andrade Soromenho. 


A criação artística debruça-se sobre a “memória coletiva, trabalho, resistência e sobre a humanidade inscrita nas ruínas de um mundo isolado como uma ilha”, acrescentou a organização. 


Entre essas memórias, precisou, está a de Etelvina Martins Vaz Guerreiro, conhecida por Vina, que recorda o impacto da atividade mineira na vida das famílias.


“O meu pai foi mineiro a vida toda e morreu de silicose. Eu nunca trabalhei na mina. Tinha medo. Nos últimos anos, mesmo à superfície, sentiam-se os rebentamentos do avanço da exploração. Até os vidros das casas se partiam”, recorda a habitante, citada no comunicado. 


Reconhecido internacionalmente pelo trabalho em cinema e teatro comunitário, Marco Martins regressa com “A Ilha” a uma prática artística onde se cruzam a realidade, ficção e a memória coletiva.

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Neste espetáculo, o encenador procura refletir “sobre os sistemas económicos e sociais que moldaram gerações inteiras e sobre aquilo que permanece quando a atividade que lhes deu origem desaparece”, resumiu a associação. 


“Entre ruína e memória, ‘A Ilha’ revisita a história singular do Lousal para questionar temas universais como o trabalho, a pertença, a exploração dos recursos naturais e a resistência das comunidades perante a transformação dos territórios”, disse.  


O espetáculo resulta de uma coprodução entre a associação Ainda Não Tem Nome e o Arena Ensemble. 


A criação conta com financiamento da Direção-Geral das Artes e integra o eixo LA-TITUDES, programa dedicado a criações participativas que colocam as comunidades no centro do processo artístico.


Com entrada é livre, mas lotação limitada e sujeita a reserva, a performance tem uma duração aproximada de 130 minutos e inclui um percurso de cerca de 1,5 quilómetros, dos quais 270 metros decorrem numa galeria subterrânea. 

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Entre outros projetos de teatro comunitário de Marco Martins contam-se “Baralha”, peça baseada em textos de Shakespeare e desenvolvida com uma comunidade cigana; “Estaleiros”, a partir de Samuel Beckett, com trabalhadores dos estaleiros de Viana do Castelo; “Todo o Mundo É um Palco”, com um elenco de 20 intérpretes, profissionais e não-profissionais, de onze nacionalidades; “Provisional Figures Great Yarmouth”, com a comunidade migrante portuguesa fixada no leste de Inglaterra; “Selvagem”, com caretos transmontanos e sardos; “Pêndulo”, com um grupo de mulheres imigrantes, cuidadoras e empregadas domésticas; “Blooming”, com um grupo de adolescentes acolhidos em instituições; e “A Colónia”, que resgata testemunhos da ditadura a partir da memória da colónia de férias para filhos de presos políticos, em 1972, nas Caldas da Rainha.

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