A presidente da Câmara Municipal de Almada, Inês de Medeiros, assegura que as medidas extraordinárias implementadas para enfrentar as falhas no abastecimento de água estão a produzir resultados positivos, embora considere prematuro baixar o nível de alerta. A autarca explica que o objetivo continua a ser recuperar os níveis de reserva dos depósitos até cerca de 60%, admitindo que os indicadores evoluem favoravelmente, mas defendendo prudência antes de considerar a situação normalizada. Paralelamente, confirma que a autarquia irá avaliar eventuais compensações para moradores, comerciantes e empresas afetados, mas apenas depois de estabilizado o abastecimento.
Em entrevista ao Público, Inês de Medeiros explica que, desde a implementação dos cortes programados, deixaram de ocorrer interrupções inesperadas no abastecimento, permitindo reforçar gradualmente as reservas existentes. Apesar disso, sublinha que o sistema continua vulnerável e que a manutenção das restrições dependerá da capacidade de criar uma margem de segurança suficiente para enfrentar o restante verão. A autarca recorda que, quando foi declarada a situação de alerta, a previsão apontava para duas a três semanas de medidas extraordinárias, admitindo que esse prazo poderá ser reduzido caso os reservatórios recuperem mais rapidamente. “As medidas estão a dar bons sinais, mas temos de ter prudência”, afirma.
Sobre as causas da crise, a presidente da autarquia considera que ainda será necessária uma análise detalhada para identificar todos os fatores envolvidos, embora já existam dados que apontam para um aumento significativo do consumo, impulsionado por um crescimento populacional superior ao previsto e por uma procura elevada que, desde março, nunca abrandou o suficiente para permitir a reposição das reservas. Segundo explica, o consumo inclui não apenas o uso doméstico, mas também regas, enchimento de piscinas, serviços essenciais e até utilizações relacionadas com operações dos bombeiros. Acresce que Almada mantém perdas elevadas na rede, embora estas não resultem exclusivamente de fugas. A autarquia intensificou igualmente ações de fiscalização, incluindo recurso a drones, para detetar eventuais desvios ou furtos de água, considerando que essa investigação poderá ajudar a esclarecer melhor o sucedido.
Inês de Medeiros rejeita ainda a ideia de que a origem da crise esteja nos bairros precários da Penajóia e Raposo, contrariando interpretações que têm circulado nas últimas semanas. Segundo a autarca, os dados mostram precisamente o contrário: o consumo nessas zonas diminuiu, enquanto os maiores aumentos foram registados na Costa da Caparica, Charneca e Sobreda. A presidente da Câmara admite que o forte crescimento da construção nestas freguesias poderá justificar parte da pressão sobre a rede, sobretudo devido ao novo enquadramento do Simplex Urbanístico, que permite avançar com determinadas construções sem apresentação prévia de projetos de arquitetura ao município. Isso obriga agora a verificar se existiram ligações irregulares às redes de água e saneamento, embora ressalve que essa é apenas uma das hipóteses em análise. “O problema da água situa-se nas freguesias mais ricas de Almada e não nas freguesias mais pobres”, afirma, acrescentando que é “uma mentira” responsabilizar sistematicamente os bairros mais vulneráveis ou as comunidades imigrantes pela situação.
A autarca reconhece igualmente que a crise resulta provavelmente da conjugação de vários fatores e não de uma única causa. Além do aumento da população e das temperaturas excecionalmente elevadas, aponta o facto de o consumo noturno se ter mantido anormalmente elevado, impedindo a recuperação dos reservatórios durante a madrugada. Refere ainda que acontecimentos como o Mundial de futebol poderão ter contribuído para alterar hábitos de consumo, prolongando a utilização de água durante a noite. Para acompanhar todo o processo, propôs a criação de uma comissão na Assembleia Municipal que permita aos deputados acompanhar os trabalhos técnicos e avaliar todas as conclusões da investigação, admitindo que “há um fenómeno inesperado pela sua dimensão que nos surpreendeu a todos”.
Questionada sobre as críticas relativas ao investimento na rede de abastecimento, Inês de Medeiros rejeita que tenha existido falta de investimento, lembrando que Almada apresentou candidaturas a todos os programas disponíveis para renovação da rede, tanto no âmbito do PT2020 como das atuais candidaturas ao Portugal 2030, depois de o Plano de Recuperação e Resiliência não contemplar financiamento para este tipo de intervenções na Área Metropolitana de Lisboa. A presidente da Câmara defende ainda que a solução para o futuro passa por reforçar a ligação complementar à EPAL, reduzindo a dependência das captações subterrâneas, e insiste na necessidade de uma estratégia nacional de gestão da água que envolva municípios, Agência Portuguesa do Ambiente e restantes entidades responsáveis. Sobre eventuais indemnizações, confirma que a Câmara e os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento estão já a recolher informação sobre todas as interrupções não programadas e a contactar os agentes económicos afetados, mas esclarece que apenas após a normalização completa do abastecimento será possível quantificar os prejuízos e decidir o modelo de compensação, que poderá ser assumido pelos SMAS, pela Câmara ou por ambas as entidades, conforme o enquadramento legal aplicável.














