Crimeia era o grande troféu de Putin. Agora pode tornar-se o seu maior problema

Ucrânia intensificou os ataques contra pontes, estradas, linhas ferroviárias, depósitos de combustível e infraestruturas energéticas, numa campanha destinada a isolar a península e enfraquecer a presença militar russa

Francisco Laranjeira

Durante mais de uma década, a Rússia procurou convencer os habitantes da Crimeia de que a península ocupada era intocável. Moscovo encheu o território de bases militares, integrou-o na economia russa e transformou-o numa plataforma para projetar poder sobre o mar Negro e abastecer as forças que combatem no sul da Ucrânia.

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Essa imagem de segurança está agora a desfazer-se. A Ucrânia intensificou os ataques contra pontes, estradas, linhas ferroviárias, depósitos de combustível e infraestruturas energéticas, numa campanha destinada a isolar a península e enfraquecer a presença militar russa.

Segundo o ‘POLITICO’, a Crimeia, apresentada por Vladimir Putin como uma das maiores conquistas do seu projeto imperial, está a passar de ativo estratégico a vulnerabilidade militar e política.

“Crimeia é especial”, dizia a mãe de Oleksandra, uma ucraniana que deixou a península em 2014 devido à pressão dos serviços de segurança russos. Nem mesmo os mísseis lançados a partir daquele território contra Kiev a convenceram de que a guerra poderia chegar à sua porta.

Semanas antes do agravamento da situação, Oleksandra avisou os pais para armazenarem alimentos, medicamentos e outros bens essenciais. A mãe não levou o alerta a sério: acreditava que nem a Rússia nem a Ucrânia colocariam verdadeiramente a Crimeia em risco.

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Hoje, os cerca de 2,5 milhões de habitantes da península enfrentam cortes de eletricidade e água, falhas nas comunicações, escassez de combustível e perturbações graves nos transportes.

As vendas de gasolina a particulares chegaram a ser suspensas, enquanto as autoridades instaladas por Moscovo admitiram que o abastecimento continuaria sob forte pressão. Os ataques ucranianos contra infraestruturas energéticas e rotas logísticas provocaram apagões e obrigaram à adoção de restrições no consumo.

A retaguarda segura deixou de existir

A Rússia anexou ilegalmente a Crimeia em 2014 e transformou a antiga região turística numa enorme base militar. A península tornou-se uma retaguarda relativamente protegida, a partir da qual Moscovo abasteceu as tropas no sul da Ucrânia e lançou ataques sobre cidades ucranianas.

Foi também a partir da Crimeia que as forças russas avançaram rapidamente sobre partes das regiões de Kherson e Zaporíjia, durante a invasão em grande escala iniciada em 2022.

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Durante anos, os habitantes permaneceram relativamente afastados das consequências mais duras da guerra. Essa situação mudou com o aumento do alcance e da eficácia dos drones ucranianos.

Kiev está agora a atacar não apenas bases, sistemas de defesa aérea e depósitos de munições, mas também as ligações necessárias para transportar combustível, equipamento e soldados.

Pontes rodoviárias e ferroviárias que ligam a Crimeia ao território ocupado no sul da Ucrânia foram atingidas repetidamente. Pelo menos uma terá sido destruída e várias outras ficaram severamente danificadas, segundo informações citadas por meios ucranianos.

A pressão chegou também à ponte de Kerch, construída pela Rússia sem autorização da Ucrânia e que liga a península ao território russo. Os sucessivos alertas e encerramentos temporários provocaram filas de milhares de veículos, numa altura em que várias ligações ferroviárias foram interrompidas ou reduzidas.

No final de junho, cerca de 2.500 viaturas aguardavam para atravessar a ponte depois de esta ter permanecido fechada durante várias horas devido a alertas de drones.

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Crimeia pode obrigar Rússia a desviar forças

A estratégia ucraniana passa por tornar a manutenção da Crimeia cada vez mais cara e difícil. Ao atacar as linhas de abastecimento, Kiev pretende reduzir a capacidade das forças russas no sul e obrigar Moscovo a deslocar sistemas de defesa aérea e outros recursos de diferentes zonas da frente.

“Queremos destruir a presença militar russa na Crimeia e penso que vamos consegui-lo”, afirmou ao ‘POLITICO’ Andriy Zagorodnyuk, antigo ministro da Defesa ucraniano e presidente do centro de estudos Centre for Defence Strategies.

A Ucrânia beneficia atualmente de uma vantagem no uso de drones de médio alcance, capazes de atingir infraestruturas logísticas com custos inferiores aos dos mísseis tradicionais.

Os ataques contra as redes elétricas intensificaram-se no início de julho. As forças ucranianas afirmaram ter realizado dezenas de ofensivas contra instalações energéticas, incluindo subestações que servem Simferopol e outras cidades da península.

As operações estenderam-se também ao mar de Azov, onde drones ucranianos atingiram navios, petroleiros e ferries utilizados para abastecer os territórios ocupados. A ofensiva levou a Rússia a suspender parte do tráfego marítimo e prejudicou outra das rotas que sustentam a Crimeia.

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O objetivo não é apenas militar. Kiev procura também demonstrar aos habitantes da Crimeia e à população russa que Moscovo já não consegue garantir a segurança e o nível de vida prometidos após a anexação.

A “chave dourada” das ambições de Putin

A Crimeia tem uma importância pessoal e política particular para Vladimir Putin. A anexação fez disparar a popularidade do presidente russo e tornou-se um símbolo central da narrativa nacionalista do Kremlin.

“Crimeia é a chave dourada para as ambições imperiais da Rússia”, afirmou Illya Pavlenko, antigo dirigente dos serviços de informações militares ucranianos.

Perder o controlo efetivo da península, ou ser incapaz de proteger os seus habitantes e infraestruturas, representaria um golpe direto na imagem de Putin e na justificação apresentada para a guerra.

A Crimeia é igualmente fundamental para as operações russas no mar Negro. O porto de Sebastopol serviu durante anos como centro da Frota do Mar Negro e como plataforma logística para operações militares fora da Ucrânia, incluindo a intervenção russa na Síria.

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A campanha ucraniana já obrigou Moscovo a afastar parte dos navios e dos equipamentos militares das instalações mais vulneráveis. Agora, Kiev procura degradar também as restantes rotas de abastecimento e manutenção.

O preço pago pela população

A estratégia tem, inevitavelmente, consequências para os civis. Muitos dos habitantes da Crimeia são cidadãos ucranianos que permaneceram no território depois de 2014, incluindo tártaros da Crimeia, uma comunidade sujeita a forte repressão pelas autoridades russas.

A estes juntaram-se milhares de cidadãos russos incentivados por Moscovo a mudar-se para a península durante os anos de ocupação.

A falta de combustível já afetou os transportes públicos, o abastecimento de lojas e as deslocações particulares. Os preços aumentaram e a época turística, essencial para parte da economia local, foi fortemente prejudicada.

Com várias rotas danificadas e a ponte de Kerch sujeita a encerramentos frequentes, abandonar a península tornou-se também mais difícil.

Refat Chubarov, líder do Mejlis dos Tártaros da Crimeia, aconselhou a população a preparar reservas de alimentos e medicamentos, a afastar-se de instalações militares russas e a identificar locais onde possa procurar abrigo.

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“Não sabemos como isto vai acabar”, reconheceu.

Alguns habitantes conservam a esperança de que a campanha termine com o regresso da península ao controlo ucraniano. Outros receiam que essa possibilidade implique uma escalada ainda mais violenta.

“Estamos a criar as nossas próprias cartas”

A posição da Crimeia esteve durante anos no centro das discussões sobre um eventual acordo de paz. Alguns parceiros de Kiev admitiram que a Ucrânia poderia ser pressionada a aceitar o controlo russo da península como parte de uma solução negociada.

Donald Trump chegou a afirmar que a Ucrânia não tinha “cartas” suficientes para impor as suas condições.

Para Pavlenko, a nova campanha procura precisamente alterar esse equilíbrio. “Agora estamos a criar as nossas próprias cartas”, declarou ao ‘POLITICO’.

A pressão militar deverá servir para reforçar a posição diplomática de Kiev e impedir que a Crimeia seja excluída de futuras negociações.

“A Crimeia não pode ser recuperada apenas através de meios militares”, reconheceu o antigo responsável dos serviços secretos. “Estamos agora a aplicar pressão militar para dar aos nossos diplomatas a oportunidade de se sentarem à mesa e dizerem: ‘Não vamos deixar a Crimeia de fora’.”

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A janela de oportunidade poderá, contudo, ser curta. Zagorodnyuk estima que a Ucrânia poderá dispor de cerca de um ano antes de a Rússia conseguir copiar ou neutralizar algumas das vantagens tecnológicas atualmente exploradas por Kiev.

A campanha poderá criar condições para recuperar território no sul ou obrigar Moscovo a negociar a partir de uma posição menos confortável. Isso não significa que uma libertação da Crimeia esteja iminente.

“Acredito que a libertação da Crimeia é possível”, afirmou Zagorodnyuk. “Mas não num futuro imediato.”

Por enquanto, a Ucrânia está a tentar provar que a península não é intocável. O território que Putin apresentou como a grande confirmação do regresso da Rússia ao estatuto de potência tornou-se um lugar sem combustível suficiente, com eletricidade intermitente e rotas de abastecimento sob ataque.

A Crimeia continua a ser um dos ativos mais importantes de Moscovo. Mas é precisamente essa importância que agora a transforma num dos pontos onde a Rússia tem mais a perder.

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