Putin não vai esperar: chefe da Força Aérea alemã avisa que a Europa “não tem tempo” sem armas dos EUA

Mensagem surge quando a União Europeia procura reduzir a dependência militar de Washington e direcionar uma fatia maior dos novos investimentos em defesa para fabricantes europeus

Francisco Laranjeira

A Europa não tem tempo para esperar pelo desenvolvimento de novos sistemas de defesa próprios e terá de continuar a comprar armas já disponíveis nos Estados Unidos para responder à ameaça da Rússia, alertou o comandante da Força Aérea alemã.

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Em entrevista ao ‘POLITICO’, Holger Neumann defendeu que a necessidade de preparar rapidamente as forças aéreas da Alemanha e da NATO obriga a recorrer a equipamentos americanos já testados, mesmo quando estes não correspondem integralmente aos requisitos definidos por Berlim.

“Se a missão da Força Aérea, ou do poder aéreo da NATO, é estar pronta o mais rapidamente possível, poderemos ter de adquirir sistemas disponíveis no mercado”, afirmou o tenente-general.

Esses equipamentos poderão não ser a solução ideal para todas as necessidades alemãs, reconheceu, mas podem representar “a melhor coisa que se pode comprar agora para os próximos anos”.

“Desenvolver as nossas próprias capacidades demora tempo. Neste momento, não temos tempo”, avisou o chefe da Luftwaffe.

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A mensagem surge quando a União Europeia procura reduzir a dependência militar de Washington e direcionar uma fatia maior dos novos investimentos em defesa para fabricantes europeus. O objetivo é construir uma base industrial capaz de fornecer armamento avançado aos Estados-membros e diminuir a exposição às decisões políticas dos Estados Unidos.

Para Neumann, porém, a estratégia europeia só poderá produzir resultados no longo prazo. A ameaça representada por Vladimir Putin exige uma resposta mais imediata, sobretudo numa altura em que os países da NATO aceleram o rearmamento e procuram colmatar lacunas nas suas forças aéreas.

O comandante reconheceu que a indústria europeia possui capacidades importantes, mas admitiu que não desenvolveu algumas tecnologias de ponta ao mesmo ritmo dos Estados Unidos. A prioridade passa, por isso, por comprar agora os sistemas disponíveis e manter em paralelo os projetos europeus.

O exemplo mais claro é o F-35 Lightning II, caça furtivo de quinta geração fabricado pela americana Lockheed Martin. A Alemanha aprovou em 2022 a compra de 35 F-35A por 8,3 mil milhões de euros.

Os aparelhos vão substituir os envelhecidos Tornado na missão de partilha nuclear da NATO, que permite à Alemanha transportar bombas atómicas americanas em caso de conflito.

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O primeiro F-35 alemão deverá sair da linha de produção nos Estados Unidos em setembro. Depois de mais de um ano de formação de pilotos alemães naquele país, as primeiras aeronaves deverão chegar à base aérea de Büchel no final de 2027.

Berlim poderá, no entanto, aumentar substancialmente a encomenda. “Há ideias dentro da Luftwaffe para adquirir mais F-35”, confirmou Neumann, embora tenha sublinhado que a decisão cabe ao Ministério da Defesa e ainda não foi tomada.

O Governo alemão terá reservado mais de dois mil milhões de euros para comprar outros 15 aviões, elevando a frota planeada de 35 para 50 unidades.

A necessidade de encontrar uma solução rápida tornou-se ainda mais evidente depois de a Alemanha e a França terem abandonado, em junho, os planos para desenvolver conjuntamente o caça tripulado de sexta geração previsto no programa Future Combat Air System.

O projeto ficou bloqueado por divergências entre a Airbus e a Dassault Aviation sobre a liderança, a propriedade intelectual e a distribuição do trabalho.

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Neumann ressalvou que o conceito mais amplo do FCAS poderá sobreviver. “A única decisão tomada é que não construiremos em conjunto um caça de comando tripulado”, esclareceu.

Outras áreas do programa, incluindo drones, sensores, comunicações e uma rede digital de combate, poderão continuar a ser desenvolvidas com parceiros europeus.

A Alemanha está também a comprar um novo lote de caças Eurofighter, com entregas previstas entre 2031 e 2034. Para o chefe da Força Aérea, esta deverá ser a última aquisição de aviões de quarta geração.

“Tudo o que vier depois, ou a partir de 2035, deverá ser de quinta geração ou mais avançado”, afirmou.

A solução definitiva deverá ser europeia, através da participação num projeto existente ou do desenvolvimento de um novo caça com outros países. Nenhuma dessas opções, porém, deverá produzir um avião operacional até 2035.

É esse intervalo que poderá manter a Alemanha dependente do equipamento dos Estados Unidos. “A questão é saber o que acontece entretanto”, resumiu Neumann.

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O alerta expõe o principal dilema da defesa europeia: Bruxelas quer que os milhares de milhões destinados ao rearmamento reforcem a indústria do continente, mas os militares precisam agora de aviões, mísseis e sistemas capazes de entrar rapidamente em serviço.

Perante a urgência russa, a posição da Força Aérea alemã é pragmática: a Europa poderá procurar a autonomia no futuro, mas, para enfrentar Putin no presente, ainda precisa das armas americanas.

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