Cientistas confirmam a nova realidade climática da Europa: diga adeus aos verões sem ondas de calor

Poucas semanas depois de uma onda de calor severa ter batido recordes em maio, a Europa voltou a enfrentar, em junho, um episódio ainda mais intenso e extenso

Francisco Laranjeira

A Europa terá de se habituar a verões cada vez mais marcados por ondas de calor severas. O continente está a aquecer a um ritmo duas vezes superior à média global e os episódios de calor extremo, antes considerados excecionais, começam a transformar-se numa presença recorrente no calendário europeu.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›

Segundo o ‘Tempo.pt’, poucas semanas depois de uma onda de calor severa ter batido recordes em maio, a Europa voltou a enfrentar, em junho, um episódio ainda mais intenso e extenso. Milhões de pessoas continuam expostas a calor extremo, numa vaga que atingiu sobretudo a Europa Central e do Norte e que se desloca agora para leste, ao mesmo tempo que a Península Ibérica e o sul da Europa se preparam para novos períodos de temperaturas elevadas.

A origem meteorológica deste tipo de episódio está frequentemente associada a regiões anticiclónicas de bloqueio. Quando estes sistemas ficam estacionários durante vários dias, o ar permanece sobre a mesma área, desce, comprime-se e aquece ao aproximar-se do solo. Em algumas regiões, o efeito é agravado pela chegada de massas de ar quente vindas do norte de África.

A onda de calor de junho foi particularmente relevante por ter ocorrido antes do período que historicamente concentra os maiores picos de temperatura na Europa Ocidental. Em países como França, Alemanha, Itália, Espanha e no sul de Inglaterra, os termómetros chegaram a valores entre 5 e 12 graus acima da média.

Foram registados novos recordes absolutos de temperatura máxima em várias estações meteorológicas europeias. A Alemanha atingiu 41,7 graus, a República Checa chegou aos 41,1 graus, a Polónia aos 40,5 graus e a Dinamarca aos 37 graus. França registou também recordes locais e regionais, com temperaturas acima dos 40 graus, enquanto Reino Unido, Suíça e Hungria tiveram zonas com máximas inéditas para junho.

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

O impacto já é medido em vidas humanas. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, mais de 1.300 mortes em excesso foram registadas na Europa desde 21 de junho. Ainda assim, o episódio de 2026 não se compara, em mortalidade, à onda de calor de 2003, que provocou cerca de 70 mil mortes no continente, sobretudo em Itália, França, Espanha e Alemanha.

A diferença é que estes eventos deixaram de ser raros. Estudos recentes indicam que as emissões resultantes da queima de combustíveis fósseis agravaram rapidamente as ondas de calor na Europa nas últimas décadas. Episódios que, no passado, seriam muito espaçados, passaram a ocorrer praticamente todos os anos em algumas regiões.

A World Weather Attribution tem defendido que ondas de calor recentes na Europa seriam impossíveis, ou muito menos prováveis, sem o efeito das alterações climáticas. O aquecimento da atmosfera está a tornar estes fenómenos mais frequentes, mais intensos, mais duradouros e mais precoces. Em França, das 52 ondas de calor registadas desde 1947, cerca de dois terços ocorreram já no século XXI.

A mudança também é geográfica. Temperaturas de 40 graus deixaram de ser um fenómeno quase exclusivo da Europa mediterrânica e passaram a chegar a Paris, ao sul de Inglaterra, ao norte da Alemanha e a outros territórios tradicionalmente menos expostos a este tipo de calor. Para milhões de europeus, isso significa viver em cidades, casas e serviços que não foram desenhados para temperaturas tão altas.

O diretor-geral da OMS descreveu o stress térmico como um “assassino silencioso” e apelou aos governos europeus para reforçarem planos de ação de saúde associados ao calor. Entre 18 e 30 de junho de 2026, dados citados pela World Weather Attribution indicam que 45% das 854 cidades analisadas bateram recordes históricos de stress térmico, medido pela temperatura de bolbo húmido, indicador que combina calor e humidade para avaliar o impacto no corpo humano.

Continue a ler após a publicidade

A vulnerabilidade europeia é estrutural. Apenas cerca de 20% das casas no continente têm ar condicionado, e grande parte do parque habitacional foi construído para reter calor, não para o dissipar. Hospitais, escolas, lares, transportes públicos e espaços urbanos continuam muitas vezes pouco preparados para enfrentar semanas sucessivas de temperaturas extremas.

A adaptação passa por várias medidas: redes de refúgios climáticos nas cidades, mais espaços verdes, hospitais climatizados, telhados refletores ou verdes, ruas com sombra, toldos em períodos críticos e solos mais permeáveis, capazes de refrescar o ambiente através da evaporação. Nas cidades mediterrânicas, onde o calor extremo será cada vez mais frequente, a transformação urbana deixará de ser apenas uma questão ambiental e passará a ser uma necessidade de saúde pública.

O impacto económico também será pesado. Um estudo da Allianz estima que, se os episódios de calor intenso se tornarem mais frequentes, as perdas acumuladas para a economia alemã entre 2026 e 2030 poderão chegar a 131 mil milhões de dólares. A produtividade, a agricultura, a saúde, a energia e os transportes estão entre os setores mais expostos.

A mensagem dos cientistas é clara: a Europa já entrou numa nova fase climática. As ondas de calor deixaram de ser anomalias de verão e passaram a ser um risco recorrente, previsível e cada vez mais difícil de ignorar. O desafio já não é apenas preparar respostas de emergência quando os termómetros disparam, mas redesenhar cidades, casas, serviços e rotinas para uma realidade em que os verões sem ondas de calor podem tornar-se exceção.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.