China avisou Putin para não usar armas nucleares na Ucrânia, diz Zelensky

Declaração do presidente ucraniano surge numa altura em que Kiev intensifica ataques contra navios russos no Mar de Azov e no Mar Negro

Francisco Laranjeira

A China terá avisado Vladimir Putin de que a Rússia não deve usar armas nucleares na Ucrânia, afirmou Volodymyr Zelensky. A declaração do presidente ucraniano surge numa altura em que Kiev intensifica ataques contra navios russos no Mar de Azov e no Mar Negro, numa tentativa de cortar abastecimentos de combustível às forças russas e isolar a Crimeia ocupada.

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Segundo o ‘The Independent’, Zelensky disse aos jornalistas que Pequim respondeu de forma direta às vozes que, nos media russos, têm defendido uma resposta nuclear aos ataques ucranianos. “Parece-me que esta foi a primeira vez que a China respondeu diretamente, quase em forma de ultimato, que não pode haver sequer a ideia de usar armas nucleares”, afirmou o presidente ucraniano. Meios ucranianos noticiaram igualmente que Zelensky descreveu o aviso chinês como uma posição categórica contra qualquer escalada nuclear russa.

A afirmação é politicamente relevante porque a China continua a ser um dos parceiros mais importantes de Moscovo desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia. Pequim tem evitado romper com o Kremlin, mas mantém oficialmente uma doutrina nuclear de não primeiro uso, em contraste com a postura russa, que admite cenários mais amplos para o emprego de armas nucleares.

Zelensky enquadrou o aviso chinês num momento de crescente pressão militar sobre a Rússia. As forças ucranianas afirmaram ter atacado mais uma dezena de navios russos no Mar de Azov, numa campanha destinada a dificultar o transporte de combustível para a Crimeia ocupada e para as forças russas. Nos primeiros quatro dias da semana, Kiev disse ter atingido pelo menos 36 embarcações russas no Mar de Azov e no Mar Negro.

De acordo com o Ministério da Defesa ucraniano, entre os navios atingidos estavam dezenas de petroleiros da chamada “frota-sombra” russa, usada por Moscovo para contornar sanções e transportar combustível. A Reuters noticiou esta semana que drones ucranianos atingiram oito petroleiros russos ligados ao abastecimento da Crimeia, numa operação que se insere no esforço de Kiev para isolar a península anexada por Moscovo em 2014.

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A campanha ucraniana contra navios, refinarias, depósitos e infraestruturas energéticas russas tem agravado a pressão sobre o abastecimento de combustível. Relatos recentes apontam para filas em postos de abastecimento, subida de preços e dificuldades logísticas em várias regiões russas, à medida que Kiev tenta enfraquecer a capacidade de Moscovo para sustentar a guerra.

A Starlink e outras redes de comunicações têm sido importantes para o uso de drones ucranianos, mas, neste caso, o foco da operação está na guerra económica e logística: impedir que combustível chegue à Crimeia e reduzir a margem de manobra das forças russas. Para Kiev, atacar a frota usada no transporte de combustível é uma forma de levar a guerra para a retaguarda russa sem depender apenas da frente terrestre.

A referência de Zelensky ao aviso chinês surge num contexto em que a retórica nuclear russa volta ciclicamente ao debate público sempre que a Ucrânia aumenta ataques de longo alcance contra território, navios ou infraestrutura russa. Ao dizer que Pequim rejeitou qualquer hipótese de uso nuclear, o presidente ucraniano procura mostrar que até parceiros de Moscovo veem essa opção como uma linha vermelha.

Ainda assim, a declaração deve ser lida com cautela. O aviso foi relatado por Zelensky, não por Pequim, e a China não confirmou publicamente os termos exatos de qualquer mensagem enviada a Putin. Mas, se a leitura ucraniana estiver correta, representa um sinal de que a China pode estar disposta a limitar pelo menos uma dimensão da escalada russa: a ameaça nuclear.

No terreno, porém, a guerra continua a intensificar-se por outros meios. Kiev aumenta ataques contra a frota e a infraestrutura energética russas; Moscovo procura proteger linhas de abastecimento e manter a pressão militar; e a Crimeia volta a ocupar um lugar central no conflito. A diferença é que, agora, Zelensky sugere que há uma barreira que nem a China quer ver ultrapassada: a entrada de armas nucleares na guerra.

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