Filas de dias por gasolina na Rússia: drones ucranianos levam guerra ao quotidiano de 50 milhões

A crise espalhou-se pelo país e obrigou várias autoridades regionais a impor medidas de racionamento. Em alguns casos, os carros só podem abastecer em dias alternados, consoante a matrícula seja par ou ímpar.

Executive Digest

As filas nas bombas de combustível tornaram-se parte do quotidiano em várias regiões da Rússia, depois de ataques ucranianos com drones contra infraestruturas energéticas terem provocado uma crise de abastecimento sem paralelo desde os últimos anos da União Soviética.

Segundo o ‘Financial Times’, a escassez de combustível afeta diretamente cerca de 50 milhões de russos, o equivalente a 35% da população, com base no número de automobilistas em cada região. Em algumas zonas, os tempos de espera para abastecer já chegam a vários dias.

A crise espalhou-se pelo país e obrigou várias autoridades regionais a impor medidas de racionamento. Em alguns casos, os carros só podem abastecer em dias alternados, consoante a matrícula seja par ou ímpar. Nas redes sociais, multiplicam-se vídeos de confrontos nas filas e há relatos de pessoas a tentar vender o próprio lugar na espera.

Cossacos nas bombas e refeições para quem espera

A tensão nas estações de serviço levou uma região do sul da Rússia a mobilizar cossacos, vestidos com chapéus tradicionais de pele, para manter a ordem junto das bombas de combustível. Noutra zona, na Sibéria, um governador ordenou que fossem distribuídas refeições quentes às pessoas que aguardavam nas filas.

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De acordo com o ‘Financial Times’, a situação levou o presidente russo, Vladimir Putin, a reconhecer publicamente no domingo a existência de “algumas carências” de combustível, embora tenha afirmado que estas não eram críticas.

O impacto da crise vai além do desconforto dos automobilistas. Em Chita, cidade siberiana, uma empresa de recolha de lixo suspendeu operações até à resolução da escassez de combustível. Duas pequenas companhias aéreas e uma associação do setor dos táxis avisaram que os preços poderão subir. A Wildberries, maior plataforma russa de comércio online, justificou o aumento das comissões pagas a vendedores com a subida dos preços dos combustíveis.

Ucrânia intensificou ataques contra refinarias russas

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A pressão começou a aumentar em maio, quando a Ucrânia intensificou a campanha de drones contra infraestruturas petrolíferas russas. Desde então, Kiev atingiu as dez maiores refinarias da Rússia, incluindo a unidade de Omsk, a maior do país.

A refinaria de Omsk fica a cerca de 2.500 quilómetros da linha da frente e representa aproximadamente 7% da capacidade de refinação russa. Foi atingida na segunda-feira.

Um alto responsável do setor energético russo citado pelo ‘Financial Times’ afirmou que há agora muito mais drones dirigidos contra cada alvo, numa pressão capaz de romper as defesas existentes. Segundo a mesma fonte, os sistemas que antes funcionavam já não conseguem suportar este nível de ataque, transformando a situação no “novo normal”.

Crimeia em emergência e restrições em quase todo o país

A primeira região a sentir com maior força a crise foi a Crimeia anexada pela Rússia, que se encontra agora em estado oficial de emergência. A região enfrenta apagões generalizados e o abastecimento de gasolina é feito apenas através de cupões eletrónicos de racionamento.

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Até 25 de junho, quase 50 regiões russas já tinham imposto algum tipo de restrição à venda de combustível. A 8 de julho, as autoridades locais ou os próprios vendedores tinham aplicado limites na maioria das regiões, enquanto três delas declararam regime de “alerta elevado”, o nível anterior ao estado de emergência.

A tensão nas filas tem gerado episódios invulgares. Numa região siberiana, a polícia deteve um homem que comprou online uma farda policial e tentou usá-la para passar à frente numa fila para comprar gasolina. Na Chuváchia, a cerca de 650 quilómetros a leste de Moscovo, um vídeo nas redes sociais mostra um motociclista a ultrapassar a fila, o que levou um automobilista a tentar agredi-lo antes de ser atacado com spray pimenta.

Até 40% da capacidade de refinação poderá estar afetada

A verdadeira dimensão da crise é difícil de medir, uma vez que a Rússia deixou de publicar grande parte dos dados relevantes. Ainda assim, analistas citados pelo ‘Financial Times’, recorrendo a dados secundários e relatos da imprensa, estimam que entre 20% e 40% da capacidade de refinação russa esteja fora de serviço.

Em junho, a Rússia refinou em média 4,1 milhões de barris por dia, menos 28% do que a média dos últimos cinco anos e menos 35% do que a sua capacidade nominal, segundo Borys Dodonov, responsável pelos estudos de energia e clima da Kyiv School of Economics.

Sergey Vakulenko, investigador sénior do Carnegie Russia Eurasia Center, afirmou que a crise é real e sentida pela população, mas ainda não produziu um impacto económico generalizado ao ponto de comprometer o transporte de mercadorias e a disponibilidade de serviços.

Moscovo com poucas soluções para travar crise

A margem de manobra do Kremlin é limitada. A Rússia tem produzido historicamente cerca da mesma quantidade de gasolina que consome e dispõe de pouca capacidade de armazenamento, o que dificulta a estabilização do mercado.

As autoridades permitiram que as refinarias colocassem combustível de qualidade inferior no mercado interno. O Kremlin prometeu na quarta-feira aumentar as importações de produtos petrolíferos refinados.

Em junho, a Rússia importou da Bielorrússia um recorde de 141 mil toneladas de gasolina. Apesar de ser uma quantidade modesta quando comparada com o consumo russo, representa um aumento de 141 vezes em relação ao mesmo período do ano anterior.

Moscovo também proibiu na quarta-feira as exportações de gasóleo, o seu principal produto refinado. A medida deverá ajudar a garantir combustível para a frente de combate, uma vez que a maioria dos veículos militares funciona a diesel. No entanto, terá impacto limitado para os automobilistas russos, já que a maioria dos carros particulares no país utiliza gasolina.

A campanha ucraniana contra refinarias e outras infraestruturas energéticas russas transformou uma guerra distante para muitos cidadãos num problema diário e visível: filas, racionamento, conflitos nas bombas e receio de novos aumentos de preços.

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