O controlo do Estreito de Ormuz tornou-se uma prioridade estratégica central para o Irão, ao ponto de ser visto em Teerão como uma “arma dourada” nas disputas com os Estados Unidos e com o Ocidente. Segundo a Reuters, a questão ganhou agora mais peso do que o próprio programa nuclear iraniano, que durante décadas esteve no centro das sanções internacionais contra a República Islâmica.
A importância atribuída ao estreito aumentou depois de navios que atravessavam a zona sem autorização de Teerão terem sido alvo de disparos esta semana, desencadeando uma troca de fogo com os Estados Unidos e colocando sob pressão o acordo provisório de paz alcançado no mês passado.
Durante anos, os líderes iranianos evitaram bloquear a passagem no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do abastecimento energético mundial. Agora, porém, encaram essa posição geográfica como a sua carta mais forte em várias frentes de negociação.
“Reconheçam a nova ordem iraniana no Estreito de Ormuz: este é o único caminho”, escreveu nas redes sociais Ebrahim Azizi, membro da comissão parlamentar iraniana de segurança nacional e política externa, dirigindo-se aos Estados Unidos.
Teerão vê Ormuz como ponto de pressão decisivo
De acordo com duas fontes iranianas de alto nível citadas pela Reuters, há pouco desacordo em Teerão sobre a atual linha estratégica. Embora tenham existido discussões sobre o risco de o Irão estar a ir longe demais, a leitura dominante nos círculos de decisão é que nenhum país racional abriria mão de um instrumento de pressão tão importante.
Uma dessas fontes classificou o Estreito de Ormuz como a “arma dourada” do Irão e afirmou que seria “absolutamente impossível” retirar essa vantagem estratégica ao país.
O acordo provisório assinado no mês passado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, permitiu reabrir o estreito a mais tráfego, mas deixou em aberto uma questão essencial: quem controla, na prática, a passagem marítima.
O memorando de entendimento estabelece que o Irão fará, “usando os seus melhores esforços”, os preparativos necessários para a passagem segura de navios comerciais, sem encargos, durante apenas 60 dias.
Para os negociadores iranianos, esta formulação equivale a um reconhecimento americano do direito de Teerão a gerir a via marítima, ainda que sem cobrança de taxas ou portagens durante dois meses. Já os Estados Unidos e os países do Golfo rejeitam essa interpretação, defendendo que o texto apenas obriga o Irão a facilitar a passagem segura dos navios, sem impor restrições pela força.
Desconfiança em relação aos Estados Unidos pesa na posição iraniana
A postura de Teerão é alimentada por uma profunda desconfiança em relação a Washington. Entre os fatores apontados estão a decisão de Trump, em 2018, de abandonar o anterior acordo nuclear, o regresso à guerra este ano depois de ter sido acordado um cessar-fogo no verão passado, e o lançamento não anunciado da ofensiva durante um processo negocial.
Uma das fontes iranianas citadas pela Reuters defendeu que, se o Irão recuasse em Ormuz, Trump intensificaria as exigências noutras áreas, incluindo o dossier nuclear e o arsenal de mísseis convencionais iranianos. Essa cedência, afirmou a mesma fonte, seria vista como “rendição”, algo que Teerão considera impossível.
Durante anos, o Irão avisou que poderia fechar o estreito, chegando a afirmar que essa decisão seria tão fácil como “beber um copo de água”. Ainda assim, altos responsáveis iranianos admitiam em privado que essa seria uma medida de último recurso.
A hesitação explicava-se pelo risco de agravar o isolamento internacional do país, irritar os vizinhos do Golfo, afetar os consumidores globais de energia e prejudicar a própria economia iraniana.
Ataques de fevereiro mudaram cálculo estratégico
A Reuters escreve que esse cálculo mudou depois dos ataques dos Estados Unidos e de Israel, em 28 de fevereiro, que mataram o líder supremo iraniano e outros altos responsáveis. A partir desse momento, responsáveis em Teerão consideraram que já pouco tinham a perder.
O Irão encerrou então o Estreito de Ormuz a todo o tráfego, exceto ao seu próprio, provocando a maior perturbação de sempre no abastecimento energético global. Depois de hesitar devido ao impacto nos preços do petróleo, Washington respondeu em abril com um bloqueio aos portos iranianos.
Com o aumento dos custos económicos associados ao bloqueio de Ormuz, os dois lados acabaram por aceitar um acordo. Mas, segundo a leitura iraniana, o facto de o encerramento do estreito ter forçado os Estados Unidos a negociar reforçou a necessidade de formalizar essa capacidade.
Ali Ansari, professor de História Moderna na Universidade de St Andrews, na Escócia, considera que ambos os lados enfrentavam receios sobre os problemas económicos imediatos, mas também acreditam ter saído vencedores. Por isso, há agora a perceção de que basta pressionar um pouco mais para alcançar os objetivos pretendidos.
Programa nuclear passa para segundo plano
O Estreito de Ormuz tornou-se agora mais importante para Teerão do que o próprio programa nuclear. Segundo a Reuters, o Irão acredita também que Washington já aceitou o seu direito ao enriquecimento de urânio e a diluição, em território iraniano, das reservas existentes de urânio altamente enriquecido.
Durante quase 25 anos, o programa nuclear foi a principal fonte de tensão entre o Irão e os Estados Unidos, esteve na origem de sanções internacionais pesadas e foi apresentado como a principal justificação para a guerra lançada por Trump.
No entanto, no acordo provisório destinado a pôr fim ao conflito, as negociações sobre o programa nuclear foram remetidas para conversações futuras.
As fontes iranianas de alto nível citadas pela Reuters afirmam que Teerão se recusa sequer a iniciar essas negociações nucleares enquanto os Estados Unidos não aceitarem a gestão plena do Estreito de Ormuz pelo Irão.













