Almada entra no fim de semana em situação crítica no abastecimento de água, com cortes noturnos já aplicados em 15 zonas do concelho e a possibilidade de novas interrupções nos próximos dias. A crise deverá prolongar-se por, pelo menos, mais duas semanas, apesar da entrada em funcionamento de um novo furo de captação até ao fim de semana, que poderá aumentar em cerca de 20% a capacidade de abastecimento.
Na noite passada, várias zonas entre a Costa da Caparica e a Charneca da Caparica ficaram sem água entre as 22h00 e as 06h00. O corte afetou áreas de seis freguesias: Charneca da Caparica, Sobreda, Costa da Caparica, Palhais, Caparica e Trafaria. A autarquia admite que a medida poderá repetir-se noutras zonas do concelho, de forma rotativa, caso a pressão sobre o sistema se mantenha.
Durante a tarde, a Câmara Municipal de Almada tinha declarado situação de alerta devido à escassez de água e avançado com várias restrições ao consumo. Estão proibidas a rega de jardins públicos e privados, a rega de campos de golfe, a lavagem de viaturas e o enchimento de piscinas. Também foi vedada a utilização de chuveiros e lava-pés nas zonas balneares.
Num vídeo divulgado nas redes sociais, a presidente da Câmara Municipal de Almada, Inês de Medeiros, afirmou que o plano de contingência é a forma encontrada para evitar que algumas zonas fiquem sem água durante 24 horas seguidas. Os problemas arrastam-se há mais de uma semana: primeiro com redução da pressão durante a noite, agora com cortes integrais por zonas, entre as 22h00 e as 06h00.
Perante a dificuldade no abastecimento, o município vai recorrer ao apoio de camiões cisterna para distribuir água à população. A falta de água tem provocado forte contestação no concelho e levou, esta semana, a protestos com cortes de estradas e confrontos entre manifestantes e polícia. Moradores têm criticado a gestão da crise e pedido responsabilidades à liderança da autarquia.
A ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, anunciou, após uma reunião com a Câmara de Almada, a Agência Portuguesa do Ambiente, as Águas de Portugal e a EPAL, que um novo furo de captação deverá entrar em funcionamento até este fim de semana. A medida deverá reforçar em cerca de 20% a capacidade de abastecimento municipal.
A governante admitiu, contudo, que a normalização completa não será imediata. A expectativa é que a estabilização do abastecimento ocorra de forma gradual ao longo das próximas duas a três semanas. Segundo Maria da Graça Carvalho, o objetivo não é interromper o abastecimento, mas ajustar o sistema para recuperar níveis adequados de pressão e disponibilidade de água.
A ministra revelou ainda que está identificado um segundo furo, de maior dimensão, atualmente em fase de licenciamento. A Agência Portuguesa do Ambiente deverá acelerar esse processo, e a nova captação poderá vir a garantir praticamente toda a quantidade de água necessária para o concelho. A construção poderá demorar duas a três semanas após o licenciamento.
O consumo elevado é um dos fatores apontados para a crise. Almada terá um consumo médio de cerca de 300 litros por habitante por dia, acima da média nacional de 180 litros. Nos últimos seis meses, algumas zonas do concelho registaram ainda um aumento de consumo de cerca de 4%, agravando a pressão sobre a rede.
Inês de Medeiros tem defendido que o aumento do consumo não se deve maioritariamente a ruturas na rede, mas a um crescimento significativo da procura, associado ao aumento da população e à chegada de mais pessoas às zonas de verão. Costa da Caparica, Charneca da Caparica e Sobreda estão entre as áreas com maiores consumos, também marcadas por mais construção e maior afluência sazonal.
A autarquia admite ainda que possa existir água a sair do sistema sem ser faturada, incluindo eventuais ligações ilegais, e diz que as equipas municipais continuam a fazer inspeções para identificar situações anómalas. O município insiste, porém, que nenhuma zona do concelho ficou sem água por mais de 24 horas.
A crise ganhou também dimensão política. Maria da Graça Carvalho acusou a Câmara de Almada de não ter feito os investimentos necessários para evitar a atual situação e alertou para perdas de água próximas dos 40%, uma das situações mais graves a nível nacional. O secretário-geral do PS criticou as declarações da ministra, dizendo que faltaram à verdade, enquanto o PSD acusou o PS de tentar “mascarar a incompetência” da gestão municipal.
Para já, Almada avança para o fim de semana entre restrições, cortes noturnos e medidas de emergência. O novo furo poderá aliviar a pressão no sistema já nos próximos dias, mas a autarquia e o Governo admitem que a reposição plena do abastecimento só deverá acontecer dentro de algumas semanas.














