A parceria estratégica entre a China e a Rússia continua sólida, mas está longe de constituir uma aliança “sem limites”, devido a divergências estruturais e à crescente dependência de Moscovo em relação a Pequim, defendem especialistas do Brookings Institution.
No episódio do ‘podcast’ The Beijing Brief desta semana, os investigadores sustentam que, apesar da retórica de proximidade entre Pequim e Moscovo, ambos os países continuam a privilegiar a autonomia estratégica e mantêm reservas profundas quanto às intenções do outro.
“Há uma enorme convergência entre a China e a Rússia na forma como veem os Estados Unidos e a ordem internacional liderada pelo Ocidente. Mas isso não significa que exista confiança total entre ambos”, afirmou Patricia M. Kim, investigadora sénior do John L. Thornton China Center do Brookings Institution.
Segundo Kim, a aproximação sino-russa assenta sobretudo em interesses estratégicos partilhados e não numa afinidade ideológica absoluta.
“A relação é impulsionada pela convergência de interesses, não por uma aliança formal”, afirmou a investigadora, acrescentando que Pequim continua a evitar compromissos que possam limitar a sua liberdade de ação.
Também Fiona Hill, investigadora sénior do grupo de reflexão com sede em Washington e antiga diretora para a Europa e Rússia no Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, considerou que a guerra na Ucrânia alterou significativamente o equilíbrio entre os dois parceiros.
Segundo Hill, as sanções ocidentais e o isolamento internacional de Moscovo aumentaram a dependência económica da Rússia em relação à China, tornando a parceria mais desequilibrada.
“A Rússia precisa hoje muito mais da China do que a China precisa da Rússia”, resumiu.
Os especialistas observaram que Pequim beneficiou dessa nova realidade para reforçar a sua posição negocial em áreas como energia, comércio e tecnologia, sem, contudo, assumir os custos políticos de uma aliança militar formal com Moscovo.
Para Jonathan A. Czin, investigador do Brookings Institution e moderador da discussão, as diferenças de interesses permanecem evidentes em várias regiões, incluindo a Ásia Central, o Ártico e o Indo-Pacífico, onde ambos procuram preservar margem de manobra própria.
Os analistas consideraram igualmente improvável que os Estados Unidos consigam explorar essas divergências para afastar Moscovo de Pequim.
“A ideia de criar uma rutura entre a Rússia e a China continua a ser extremamente difícil de concretizar”, defendeu Hill, argumentando que ambos os governos continuam a ver Washington como o principal desafio estratégico às suas ambições internacionais.
Apesar das limitações da parceria, os especialistas consideraram que a relação sino-russa deverá manter-se como um dos principais fatores de influência sobre a arquitetura internacional nos próximos anos.
“Ao nível mais básico, a China e a Rússia veem-se mutuamente como os mais importantes parceiros estratégicos para contrariar a pressão dos Estados Unidos e dos seus aliados (…)”, afirmou Patricia M. Kim, acrescentando que ambos procuram “maior liberdade de ação e uma voz mais forte nos assuntos regionais e globais”.











