O próximo vírus pandémico pode já estar a circular. A ciência tenta apanhá-lo antes que seja tarde

Todos os anos, os cientistas identificam, em média, dois ou três vírus que nunca tinham sido detetados em humanos. A maioria passa praticamente despercebida… mas há exceções

Francisco Laranjeira

Todos os anos, os cientistas identificam, em média, dois ou três vírus que nunca tinham sido detetados em humanos. A maioria passa praticamente despercebida, fica enterrada em artigos científicos ou acaba esquecida. Mas há exceções que mudam a história: o VIH-1, identificado em 1983, abriu caminho à pandemia de SIDA; o SARS-CoV-2, detetado em 2020, desencadeou a pandemia da Covid-19.

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A pergunta, por isso, é inevitável: quando surgir o próximo vírus desconhecido num doente — algo que pode acontecer nos próximos meses — como perceber se estamos perante uma curiosidade científica ou diante de uma ameaça capaz de provocar uma crise global? Num artigo publicado no ‘The Conversation’, Mark Woolhouse, professor de epidemiologia das doenças infecciosas na Universidade de Edimburgo, explica como a história dos vírus pode ajudar a antecipar esse risco.

As pandemias podem ter várias origens, mas, nas últimas décadas, os maiores alertas têm vindo sobretudo de vírus com genoma de RNA. Já foram identificadas milhares de espécies deste tipo e poderão existir milhões, embora apenas 239 sejam conhecidas por infetar humanos. A equipa de Woolhouse criou recentemente um catálogo para ajudar a perceber quais merecem maior vigilância.

A gravidade da doença é importante, mas não chega para fazer uma pandemia. Para isso, o vírus tem de conseguir passar de pessoa para pessoa — por contacto físico, partículas no ar, sangue, fezes ou através de mosquitos e carraças. Em cerca de dois terços dos vírus analisados, essa transmissão entre humanos é muito improvável. São vírus zoonóticos: chegam às pessoas sobretudo a partir de animais, como acontece com a raiva.

Esse dado pode parecer tranquilizador, mas os vírus evoluem depressa. É por isso que a gripe das aves preocupa tanto os especialistas. Ainda assim, Woolhouse sublinha um ponto relevante: não há exemplo documentado de um vírus de RNA zoonótico que tenha adquirido, depois, capacidade sustentada de transmissão entre humanos. A raiva, apesar de causar dezenas de milhares de infeções humanas por ano, nunca deu esse salto.

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O perigo maior está noutro grupo: vírus que já conseguem circular entre pessoas e que podem tornar-se mais transmissíveis. Foi o que aconteceu com várias variantes do SARS-CoV-2. Outros vírus terão seguido esse caminho em tempos mais antigos, como os associados ao sarampo, à papeira, à rubéola, a constipações e a infeções gastrointestinais.

Há ainda vírus capazes de se transmitir entre humanos, mas que até agora provocaram apenas surtos limitados. O motivo está no chamado número R: se cada pessoa infetada transmite o vírus a poucas outras, a cadeia acaba por desaparecer. Mas esse número pode mudar quando o contexto muda. Um vírus antes confinado a aldeias remotas pode ganhar outra dimensão ao chegar a uma cidade. Foi o que aconteceu com o ebolavírus Zaire na África Ocidental, em 2014.

Segundo o investigador, a lista de vírus com potencial para surtos nunca foi muito longa, mas tem sido um bom indicador de futuras emergências de saúde pública. Nela estavam, por exemplo, o ebolavírus Zaire, os vírus chikungunya, zika e oropouche, transmitidos por insetos, e a mpox, causada por um vírus de DNA. Todos acabaram por estar associados a epidemias de grande escala.

Alguns nomes menos conhecidos também começaram a ganhar atenção. É o caso do hantavírus Andes, associado a um surto recente num navio de cruzeiro, ou do ebolavírus Bundibugyo, referido pelo autor como estando a circular na África Central. Nenhum deles tem, segundo Woolhouse, o perfil típico de um vírus capaz de iniciar uma pandemia global. Mas ajudam a lembrar uma fragilidade recorrente: muitas vezes, os vírus já circulam há semanas antes de serem detetados.

A Covid-19 é um exemplo claro desse problema. Em 2019, a equipa de Woolhouse tinha concluído que os vírus altamente transmissíveis tendem a estar próximos de outros vírus que já se espalham entre humanos, embora surjam de forma independente a partir de animais. Foi precisamente esse o perfil do SARS-CoV-2: muito semelhante ao coronavírus original da SARS, mas adquirido separadamente, provavelmente a partir de morcegos, direta ou indiretamente.

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Um ano antes da pandemia, a Organização Mundial da Saúde tinha apontado um coronavírus semelhante ao da SARS como possível candidato à chamada “doença X” — o nome usado para designar uma futura ameaça ainda desconhecida. Por isso, quando a Covid-19 surgiu, a comunidade científica percebeu rapidamente que não se tratava de um vírus qualquer: era, em muitos aspetos, exatamente o tipo de ameaça que já se procurava.

O cenário mais preocupante, explica o autor, seria o aparecimento de um novo vírus aparentado com o sarampo. Nesse caso, a combinação entre novidade, elevada transmissibilidade e circulação humana poderia criar uma emergência global potencialmente mais grave do que a Covid-19.

A grande lição é simples: o mundo não precisa apenas de descobrir novos vírus. Precisa de os detetar mais cedo, compreender rapidamente como se transmitem e avaliar se têm capacidade para escapar ao controlo local. Ganhar semanas pode fazer a diferença entre um surto contido e uma pandemia com impacto profundo em vidas, sistemas de saúde e economias.

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