Chamavam-lhes “carros”, drogavam-nas e partilhavam os abusos no Telegram: rede já levou a quatro condenações na Alemanha

Investigação na Alemanha expôs uma alegada rede de predadores online, composta sobretudo por homens chineses e dirigida principalmente contra mulheres chinesas residentes no país

Francisco Laranjeira

Chamavam-lhe “escola de condução alemã para especialistas”, mas, segundo os procuradores, o verdadeiro objetivo dos grupos no Telegram era outro: homens partilhavam conselhos sobre como drogar mulheres, relatavam crimes sexuais e exibiam imagens das vítimas inconscientes.

A investigação na Alemanha expôs uma alegada rede de predadores online, composta sobretudo por homens chineses e dirigida principalmente contra mulheres chinesas residentes no país. As autoridades analisaram vários anos de mensagens em cerca de duas dezenas de grupos na aplicação Telegram, onde os participantes usavam códigos para falar das vítimas, dos sedativos e dos crimes.

De acordo com documentos judiciais citados pela ‘Associated Press’, os membros dos grupos referiam-se às mulheres como “carros”, aos sedativos como “combustível” e aos abusos sexuais como “condução”. As vítimas eram desumanizadas com expressões insultuosas, num padrão que os procuradores descrevem como particularmente cruel e organizado.

A investigação já levou à condenação de três alegados membros do núcleo mais próximo da rede por violação e outros crimes. Um quarto homem foi condenado esta quarta-feira em Berlim.

“Os autores caracterizavam-se por uma crueldade particular, pela objetificação das vítimas e pelo planeamento pérfido dos seus crimes”, afirmou à AP Dominik Mies, procurador-chefe de Frankfurt.

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Comunidade chinesa acompanha julgamentos

Muitos detalhes continuam desconhecidos, incluindo o número total de ataques, de suspeitos e de vítimas associados aos grupos no Telegram. As restrições impostas pela lei alemã em matéria de privacidade também limitam a informação que os procuradores podem divulgar fora do tribunal.

Ainda assim, elementos da comunidade chinesa na Alemanha, sobretudo mulheres, têm acompanhado as audiências para apoiar as vítimas, mesmo sem as conhecerem pessoalmente. Uma das mulheres que viajou até Berlim para assistir ao julgamento disse à ‘AP’ que o caso mostra grupos que “odeiam as mulheres” e não as veem como pessoas.

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Na China, os casos têm sido acompanhados pelos meios de comunicação estatais, mas a discussão nas redes sociais em língua chinesa tem enfrentado censura parcial. Publicações com determinadas etiquetas terão sido apagadas ou bloqueadas, enquanto outras, com linguagem menos direta, conseguiram permanecer online.

Comparações com o caso Gisèle Pelicot

Os processos na Alemanha têm sido comparados ao caso de Gisèle Pelicot, a mulher francesa que foi drogada e violada durante anos pelo então marido e por homens que este convidava para a casa do casal. O julgamento em França tornou-se um marco no debate sobre violência sexual e cultura de violação, em grande parte devido à decisão de Pelicot de abdicar do anonimato.

Num dos julgamentos ligados à investigação alemã, um juiz afirmou que o caso Pelicot “não é um caso isolado” e que este tipo de crime não é um fenómeno francês ou chinês, mas algo que também existe na Alemanha e, em última análise, em todo o mundo.

Casos semelhantes têm surgido noutros países. Em Los Angeles, investigadores alemães alertaram a polícia sobre um possível suspeito de agressões sexuais facilitadas por drogas. O arguido, um estudante chinês, é acusado de ter drogado e agredido sexualmente três mulheres, alegadamente depois de obter substâncias através de um cidadão chinês na Alemanha.

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Nos Países Baixos, a polícia deteve recentemente quatro homens suspeitos de drogar e abusar sexualmente de mulheres, depois de informações recebidas das autoridades alemãs e britânicas. A polícia neerlandesa indicou que os suspeitos usavam grupos nas redes sociais para partilhar vídeos dos abusos e discutir métodos para drogar vítimas.

Europol lança operação internacional

A dimensão transnacional destes casos levou a Europol a anunciar a operação “Project Medusa”, destinada a desmantelar redes online que promovem agressões sexuais facilitadas por drogas. A operação é liderada por autoridades da Alemanha e do Reino Unido e já resultou em 57 detenções.

A investigação alemã levanta também novas perguntas sobre o papel do Telegram. Segundo documentos judiciais, alguns dos grupos remontam pelo menos a 2020 e terão funcionado durante anos, apesar de as mensagens, fotografias e vídeos violarem claramente os termos de serviço da plataforma.

A Telegram afirmou, em comunicado, que a violência sexual é expressamente proibida pelas suas regras e que esse tipo de conteúdo é removido regularmente. A empresa disse ainda cumprir as obrigações legais aplicáveis, incluindo as previstas no Regulamento dos Serviços Digitais da União Europeia.

A plataforma não respondeu, contudo, a perguntas específicas sobre os casos alemães, incluindo se tinha conhecimento da atividade nos grupos, como foi possível que o conteúdo permanecesse durante anos e se alertou as autoridades.

Condenação em Berlim

A mais recente condenação ocorreu esta quarta-feira, em Berlim. Um homem de 32 anos, identificado como Zhiting S., foi condenado a cinco anos de prisão por cumplicidade em violação e outros crimes. A defesa pretende recorrer.

O tribunal considerou que o arguido apontou, nos grupos de conversa, um sedativo específico antes de uma agressão cometida por outro homem condenado em Frankfurt. Também foi condenado por três crimes de coação sexual relacionados com abusos da sua companheira na China, descobertos através de gravações de vídeo analisadas pelos investigadores.

O homem apontado pela imprensa alemã e chinesa como alegado líder da rede, identificado nos tribunais alemães como Dapeng Z., foi condenado em fevereiro a 14 anos de prisão por violação agravada, tentativa de homicídio e outros crimes. Também recorreu da sentença.

As autoridades alemãs afirmam que a investigação continua em curso. Isso significa que poderão surgir novas detenções e novas vítimas. Em pelo menos um caso, uma mulher só soube que tinha sido abusada sexualmente depois de os investigadores encontrarem imagens do crime.

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