As famílias portuguesas estão a suportar cada vez mais custos diretos com cuidados prestados em hospitais privados. Entre 2015 e 2023, a despesa paga do próprio bolso nestas unidades aumentou quase 59%, passando de 684 milhões para 1.087 milhões de euros.
De acordo com o Público, este valor equivale a quase três milhões de euros por dia pagos diretamente pelas famílias a hospitais privados. O setor continua em expansão, mas a Entidade Reguladora da Saúde alerta para riscos associados à forte concentração da oferta, tanto em termos geográficos como empresariais.
O retrato consta de uma monitorização da ERS sobre a concorrência no setor hospitalar não público. Em 2023, a despesa total nos hospitais privados chegou aos 2.905 milhões de euros, mais 56,6% do que em 2015. A fatia paga diretamente pelas famílias representou 37% desse total, uma proporção que se manteve relativamente estável ao longo da última década.
Ainda assim, o valor absoluto continua a subir. Em oito anos, os portugueses passaram a gastar mais 403 milhões de euros diretamente em hospitais privados.
O crescimento da despesa acontece num contexto em que os hospitais privados têm vindo a assumir maior relevância no sistema de saúde. Segundo o Público, a ERS identifica atualmente 108 hospitais não públicos no país, dos quais 69 são privados e 39 pertencem ao setor social.
A distribuição destas unidades, porém, é muito desigual. A Grande Lisboa e a Área Metropolitana do Porto concentram, cada uma, 22 hospitais não públicos, o que representa mais de 20% da oferta nacional em cada uma dessas regiões.
A seguir surgem a região de Coimbra, com nove hospitais não públicos, e o Cávado, com oito. No extremo oposto, o Alto Alentejo, a Beira Baixa e as Beiras e Serra da Estrela não tinham, em maio de 2026, qualquer hospital não público registado.
Quatro grupos controlam dois terços da capacidade privada
A concentração do setor não se limita à localização dos hospitais. A ERS sublinha que quatro grandes grupos privados — CUF, Luz Saúde, Lusíadas e Trofa Saúde — controlam cerca de dois terços da capacidade instalada do setor hospitalar privado em Portugal.
Para avaliar a concorrência, a reguladora analisou os mercados regionais através do Índice Herfindahl-Hirschman, usado pelas autoridades da concorrência para medir o grau de concentração de um mercado. A análise incluiu 108 hospitais não públicos e 152 unidades sem internamento, como clínicas e consultórios, que funcionam em rede com esses hospitais.
Os resultados mostram que cerca de 82% da população portuguesa vive em regiões onde os hospitais privados apresentam níveis elevados de concentração. A Área Metropolitana do Porto é a única região classificada com concentração moderada.
A ERS identificou situações de monopólio em cinco regiões: Alentejo Litoral, Alto Tâmega e Barroso, Baixo Alentejo, Lezíria do Tejo e Viseu Dão-Lafões. Nestes territórios, existe apenas um operador com relevância concorrencial.
Noutras zonas do país, predominam situações de duopólio. É o caso do Alto Minho, Douro, Médio Tejo, Península de Setúbal e Região de Aveiro.
A reguladora assinala ainda potenciais posições dominantes em várias regiões, incluindo Algarve, Oeste, Cávado, Região de Leiria, Península de Setúbal e Tâmega e Sousa.
ERS alerta para riscos nos preços, escolha e qualidade
Perante estes níveis de concentração, a Entidade Reguladora da Saúde avisa que fusões, aquisições ou outras alterações que reduzam a concorrência entre operadores podem ter efeitos negativos para os utentes.
Entre os riscos apontados estão preços excessivamente elevados, cuidados de saúde de qualidade inferior, menor diversidade de serviços, restrições à liberdade de escolha, barreiras à entrada de novos operadores, práticas de preços predatórios e redução da produtividade.
Face aos resultados da monitorização, a ERS garante que vai continuar a acompanhar a evolução concorrencial do setor hospitalar privado, tendo em conta os elevados níveis de concentração identificados nos mercados analisados.





