Quando refletimos sobre como tornar Portugal extraordinário, pensamos frequentemente em inovação tecnológica, atração de talento e competitividade fiscal. Mas há um pilar essencial que não pode ser ignorado: a forma como as famílias portuguesas gerem e rentabilizam as suas poupanças.
Com os depósitos a prazo a oferecerem baixas rentabilidades, a perda de poder de compra é cada vez mais evidente. Há uma pergunta que me fazem quase diariamente: “Onde posso investir o meu dinheiro de forma inteligente, sem me tornar especialista em mercados financeiros?”
A resposta que dou, raramente é a que as pessoas esperam. Não falo de ações ou criptomoedas e também não falo de fundos de investimento tradicionais. Falo das SCPI. E é aqui que começa sempre a mesma expressão: um olhar de surpresa e de genuíno desconhecimento.
O caminho para uma economia extraordinária deve ser feito através de alternativas maduras, há muito estabelecidas noutros mercados europeus, como é o caso das SCPI, as Sociedades Civis de Património Imobiliário.
Nascidas em França em 1996, as SCPI não são um produto novo. Trata-se de uma forma de investimento coletivo que permite a qualquer pessoa, a partir de valores acessíveis, tornar-se co-proprietária de um conjunto diversificado de imóveis comerciais (escritórios, comércio, logística e saúde) espalhados por toda a Europa. A dinâmica é simples: a sociedade gestora compra os imóveis, arrenda-os a empresas sólidas e distribui as rendas aos investidores.
O imobiliário continua a ser, para a maioria dos portugueses, sinónimo de comprar um apartamento para arrendar. Conheço bem esse raciocínio: é tangível, concreto e o que os nossos pais fizeram. Mas este modelo tem custos elevados de entrada, exige gestão ativa e concentra o risco num único ativo e localização.
No entanto, o que torna as SCPI uma classe de ativos particularmente vital para a modernização das poupanças em Portugal é a sua notável resiliência ao longo de mais de 45 anos de história. Os dados do mercado mostram que as SCPI atravessaram a crise imobiliária dos anos 90, o colapso financeiro de 2008 e a recente pandemia de COVID-19, mantendo sempre rendimentos positivos. De facto, nas últimas três décadas, a rentabilidade média anual do setor oscilou historicamente numa faixa muito estável, entre os 4% e os 8%.
É de notar que nenhum investimento é isento de risco e os rendimentos passados não garantem resultados futuros. Com uma volatilidade histórica em torno dos 4% (muito próxima das obrigações), as SCPI entregam rentabilidades que se aproximam das ações, mas sem a volatilidade da bolsa.
O que afirmo, com convicção, é que as SCPI são um instrumento sério, regulado, transparente, e que durante demasiado tempo ficou reservado ao mercado francês enquanto os portugueses continuaram a olhar apenas para o mercado imobiliário doméstico ou para os tradicionais depósitos a prazo.
Um “Portugal Extraordinário” constrói-se com cidadãos e investidores com conhecimento de causa e que procuram soluções reguladas para proteger o seu futuro. O perfil do investidor português já está a mudar. Desmistificar soluções que, em países como França, Holanda e Bélgica, são hoje centrais e recomendadas pelos gestores de património, é um passo decisivo. Afinal, um país extraordinário começa com famílias financeiramente robustas e preparadas para o longo prazo.





