Metade da floresta portuguesa continua sem videovigilância apesar do elevado risco de incêndio

A rede de videovigilância e deteção automática de incêndios está concentrada sobretudo nas regiões Norte e Centro, resultado de investimentos promovidos por autarquias e comunidades intermunicipais.

Revista de Imprensa

Portugal entra em mais uma época crítica de incêndios rurais com uma realidade que preocupa especialistas e autoridades: o sistema de videovigilância florestal cobre apenas cerca de metade do território continental e aproximadamente quatro milhões de hectares de floresta, deixando ainda sem proteção eletrónica várias zonas consideradas de elevado risco, entre as quais o Parque Nacional da Peneda-Gerês, o Alto Minho, o Alto Tâmega, parte do interior alentejano e a serra algarvia.

Segundo avança o Jornal de Notícias (JN), a rede de videovigilância e deteção automática de incêndios está concentrada sobretudo nas regiões Norte e Centro, resultado de investimentos promovidos por autarquias e comunidades intermunicipais, muitas vezes dependentes da disponibilidade de financiamento e da capacidade local para desenvolver projetos, nem sempre coincidindo com as áreas onde se registam mais ignições.

Atualmente existem cerca de 150 torres de acompanhamento remoto distribuídas pelo país, equipadas com até quatro câmaras cada, além de rádios e estações meteorológicas. A esmagadora maioria da vigilância eletrónica é assegurada pelo sistema Ciclope, desenvolvido pelo INOV-INESC. Para os especialistas, estas infraestruturas desempenham um papel duplo: funcionam como elemento dissuasor de incêndios de origem criminosa e permitem acompanhar em tempo real a evolução dos fogos, facilitando a mobilização adequada de meios de combate. Luís Silva, diretor da Área de Monitorização Remota e Apoio à Decisão do INOV, admite que ainda existe um longo caminho a percorrer para uniformizar a cobertura nacional, mas mostra-se otimista quanto à possibilidade de expansão do sistema através de novos financiamentos comunitários.

A rede deverá crescer nos próximos meses, com a Região de Aveiro a reforçar as três torres existentes com mais cinco estruturas, duas das quais já se encontram operacionais. De acordo com Luís Silva, o número total de torres passará das atuais 146 para 151 dentro de um ou dois meses. Paralelamente, o INOV-INESC está a prestar apoio técnico a municípios e comunidades intermunicipais para definir a melhor localização futura destes equipamentos. Curiosamente, o sistema Ciclope teve origem num projeto-piloto lançado em 1994 precisamente no Parque Nacional da Peneda-Gerês, uma das áreas que continua sem cobertura de videovigilância três décadas depois.

Os especialistas defendem que a expansão da rede deve privilegiar as regiões com maior risco e número de ocorrências. Xavier Viegas, coordenador do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra, considera que ainda existem lacunas importantes no Algarve, Alentejo, Alto Minho e Alto Tâmega. O investigador sublinha que a videovigilância constitui um investimento particularmente relevante, tanto pelo seu efeito dissuasor como pelo apoio que oferece à tomada de decisões operacionais, alertando, contudo, que não basta instalar as câmaras: é igualmente essencial garantir a sua manutenção regular para assegurar o funcionamento contínuo dos sistemas. Entretanto, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte lidera, em parceria com várias comunidades intermunicipais, um processo destinado a instalar um sistema de videovigilância no Parque Nacional da Peneda-Gerês, numa tentativa de colmatar uma das mais significativas falhas existentes na cobertura nacional.

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