O Baccalauréat arrancou hoje em França, mas o calendário dos exames nacionais poderá vir a mudar nos próximos anos, à medida que as ondas de calor se tornam mais frequentes, mais precoces e mais intensas, noticia a ‘Euronews’.
O país prepara-se para uma nova vaga de calor generalizada, com temperaturas que podem chegar aos 40 ºC em algumas zonas. O cenário aumenta a pressão sobre as escolas francesas, muitas delas pouco adaptadas a episódios de calor extremo, sobretudo durante períodos de avaliação.
No final de maio, uma onda de calor considerada sem precedentes deixou vários alunos a realizar exames do ensino secundário em condições difíceis, com falta de sombra, ventilação insuficiente e acesso limitado a água potável em alguns estabelecimentos.
Exames de manhã para fugir ao calor
Perante este cenário, o ministro francês da Educação Nacional, Édouard Geffray, admitiu alterar os horários dos exames para evitar que decorram nas horas de maior calor.
“Já não podemos permitir-nos ter exames hoje em maio ou junho que decorram entre as 14 e as 18 horas, não é possível”, afirmou o governante, em declarações à rádio ‘France Inter’, defendendo que as provas passem a realizar-se entre as 8 e as 12 horas.
O ministro defendeu ainda que as salas sejam arejadas antes da chegada dos alunos, numa tentativa de reduzir o impacto das temperaturas elevadas no rendimento escolar e nas condições de realização das provas.
Embora a recente onda de calor de maio não tenha provocado encerramentos massivos, quase 1.900 escolas fecharam em França em julho do ano passado, quando as temperaturas ultrapassaram os 40 ºC em algumas zonas.
Reino Unido também admite mexer no calendário
França não é o único país europeu a discutir adaptações ao calor extremo. No Reino Unido, o Comité das Alterações Climáticas defendeu no verão passado que os exames GCSE e A Level, atualmente realizados entre maio e junho, possam ser deslocados para meses mais frescos.
No relatório mais recente, publicado em maio, o comité britânico avisou que o Reino Unido “foi construído para um clima que já não existe” e alertou que temperaturas superiores a 40 ºC poderão tornar-se mais comuns no país até 2050.
Segundo a ‘Euronews’, o organismo defende a instalação de ar condicionado em lares e hospitais nos próximos 10 anos e em todas as escolas no prazo de 25 anos.
O relatório chama ainda a atenção para o impacto das chamadas “noites tropicais”, com temperaturas acima dos 20 ºC, que podem prejudicar o sono dos alunos e, por consequência, a capacidade de concentração durante os exames.
Calor também pesa nos resultados escolares
A preocupação não é apenas logística. Estudos citados pela ‘Euronews’ apontam para uma relação entre temperaturas elevadas e pior desempenho escolar.
Uma investigação realizada em 2018 por investigadores de Harvard encontrou uma ligação significativa entre temperaturas mais altas e piores resultados nas escolas americanas. Um estudo de 2025 sobre comunidades autónomas espanholas chegou a conclusões semelhantes, indicando que temperaturas acima dos 26,7 ºC prejudicam os resultados a matemática e ciências.
Em França, algumas zonas do sul começaram já a sentir o agravamento do calor, com máximas de 37 ºC em Narbonne, na Occitânia, e de 35,2 ºC em Montpellier.
A partir desta terça-feira, o calor deverá estender-se ao nordeste, com temperaturas acima dos 30 ºC também na região de Grand Est, segundo a Météo-France. Na quarta-feira, a maioria das regiões deverá registar valores entre 32 e 36 ºC, com exceção da Bretanha e das zonas costeiras do Canal da Mancha.
O fenómeno está a ser alimentado em parte pela chegada de uma massa de ar quente do Norte de África, depois de a Europa ter registado um dos meses de maio mais quentes de que há registo.
O Serviço de Alterações Climáticas Copernicus, da União Europeia, alertou que os extremos climáticos estão a tornar-se a “nova normalidade”, enquanto Simon Stiell, secretário executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, descreveu a recente onda de calor como um “lembrete brutal dos impactos em espiral da crise climática”.












