Quase metade dos britânicos defende a realização de um segundo referendo sobre o Brexit, incluindo um em cada cinco eleitores do Reform UK e um quarto dos que votaram pela saída da União Europeia em 2016, avança o ‘The Independent’. A conclusão surge numa sondagem realizada dez anos depois da decisão do Reino Unido de abandonar o bloco europeu.
O estudo, conduzido pela Ipsos, pelo King’s College London e pelo centro de estudos UK in a Changing Europe, mostra que 48% dos inquiridos apoiam um novo referendo, enquanto 27% se opõem. A sondagem indica também uma abertura crescente a uma relação mais próxima com a União Europeia.
Brexit corre pior do que o esperado
A perceção sobre o Brexit mudou de forma significativa nos últimos anos. A percentagem de britânicos que dizem que a saída da União Europeia está a correr pior do que tinham previsto quase duplicou em cinco anos, passando de 27% em 2021 para 48% atualmente.
Também mudou a avaliação sobre a decisão de David Cameron de convocar o referendo de 2016. Na altura, dois terços dos britânicos consideravam que o então primeiro-ministro tinha feito bem em chamar os eleitores às urnas. Agora, esse valor caiu para 43%, enquanto a percentagem dos que dizem que a decisão foi errada subiu de 24% para 38%.
A sondagem revela ainda que quase metade dos britânicos apoia uma relação mais próxima com Bruxelas e que 60% querem maior cooperação em matéria de defesa.
Segundo referendo pode ajudar os trabalhistas
A possibilidade de propor um novo referendo sobre a adesão à União Europeia teria também impacto eleitoral. De acordo com o estudo citado pelo ‘The Independent’, essa promessa aumentaria de 31% para 45% a percentagem de pessoas dispostas a considerar votar no Partido Trabalhista nas próximas eleições.
Em contraste, apenas 27% dizem que uma proposta para manter o atual estado da relação com a União Europeia os tornaria mais propensos a votar no Labour.
O debate reacendeu-se depois de Wes Streeting, antigo secretário da Saúde e potencial candidato à liderança trabalhista, ter defendido que o Reino Unido deve procurar regressar à União Europeia. Streeting classificou a decisão de 2016 como um “erro catastrófico” e afirmou que o futuro britânico passa por uma nova relação especial com a Europa e, um dia, pelo regresso ao bloco.
Vontade de aproximação, mas com dúvidas
Apesar da mudança de opinião, os investigadores alertam que as atitudes dos britânicos continuam complexas. Keiran Pedley, diretor de investigação da Ipsos, considera que existe abertura a maior alinhamento com a União Europeia para facilitar uma relação comercial mais forte, mas que os argumentos sobre soberania continuam a ter peso, sobretudo em matéria de imigração.
A sondagem mostra essa tensão. Quando questionados sobre o regresso à liberdade de circulação em troca de acesso ao mercado único europeu, 53% dos britânicos dizem apoiar essa possibilidade.
Mas, quando a pergunta é colocada em termos de soberania, a resposta muda. Nesse caso, 52% preferem controlo total das fronteiras e uma relação mais limitada com a União Europeia, contra 38% que defendem o contrário.
Sem opção fácil para Londres
Anand Menon, diretor do UK in a Changing Europe, considera que os resultados mostram que não há uma opção simples para a futura relação entre o Reino Unido e a União Europeia. Qualquer caminho envolve cedências: maior acesso económico pode implicar mais alinhamento regulatório e compromissos em matéria de circulação, enquanto maior controlo nacional pode significar uma relação mais distante com o bloco.
Bobby Duffy, professor do King’s College London, também travou leituras demasiado rápidas dos resultados. Apesar da mudança de atitude em relação à União Europeia, defende que as opiniões estão a mover-se de forma “glacialmente lenta” e que serão necessários muitos mais anos até existir uma exigência clara e inequívoca de mudança.
União Europeia poderia acelerar eventual regresso
O debate sobre uma eventual reentrada ganhou novo fôlego depois de o ‘The Independent’ ter revelado que a União Europeia poderia acelerar o regresso do Reino Unido caso Londres decidisse pedir a readesão.
Sandro Gozi, presidente da delegação europeia à Assembleia Parlamentar UE-Reino Unido, afirmou que um pedido britânico para voltar ao bloco seria visto como uma “grande vitória para o projeto europeu” e que haveria forma de acelerar o processo.
Fontes em Bruxelas confirmaram que uma eventual readesão britânica poderia decorrer mais depressa do que a de outros países candidatos, devido ao elevado grau de alinhamento pré-existente entre o Reino Unido e a União Europeia.
A sondagem ouviu 2.245 adultos na Grã-Bretanha entre 15 e 20 de maio.




